UM PREFEITO ARROJADO
(Série Vultos Históricos)
| Este mês perdemos mais uma figura histórica, Henriquinho Cardoso. Um homem que nunca foi “morno”, que sempre se posicionou diante dos acontecimentos, que agradava e desagradava aos políticos da cidade com a mesma intensidade.
Para falar sobre ele fui buscar inspiração no livro que lançou em 2004, quando estava perto dos noventa anos de idade, lúcido e com a mesma impetuosidade que lhe marcou a vida. O livro tem um nome sugestivo “50 anos em 4 – Pedaços de Uma Vida ou Uma Vida em Pedaços”. |
Henrique Weyll Cardoso e Silva, Henriquinho, como era conhecido, nasceu no dia 31 de dezembro de 1916, pouco antes da festa de Ano Novo. Nasceu à Rua 28 de Junho, atual Jorge Amado, nesta cidade de São Jorge dos Ilhéus, como ele bem gostava de frisar. Em seu livro, ele afirma: “a trajetória do nasciturno não contrariou a festa da sua chegada, pois foi sempre de muita luz, muita festa e também muito barulho”.
Aos sete anos foi para Salvador estudar, em regime de internato, no Colégio Antonio Vieira, de padres jesuítas. Passou lá oito anos, longe da família, como era costume à época. De sua passagem pelo colégio afirma que, “lá foi nossa Universidade do Bem”, pois lá ele aprendeu a se tornar um cidadão, recebendo educação, aprendendo a conviver em sociedade, compreendendo seus direitos, mas também, suas obrigações.
Posteriormente, no Colégio Ypiranga, concluiu o curso de Bacharel em Ciências e Letras e, em dezembro de 1941, se tornou Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. Uma vez formado em Direito retornou para Ilhéus, tendo sido nomeado “Delegado de Polícia do Termo e Comarca de Ilhéus”, pelo prefeito Mário Pessoa; tomou posse em 1942, ano em que se casou com Olga Lapa Manso, que todos conheceram como D. Olguinha. Do casamento teve dois filhos: Eduardo Henrique e Maria do Carmo.
No livro, diz Henriquinho: “Procurou servir à população, em um combate sério contra os malfeitores, com ação pessoal, em muitos casos, principalmente nas áreas de aglomeração humana (cinema e futebol), festas de rua e violências criminosas”. Com meus botões fiquei pensando que, diante da violência de hoje, os tais “malfeitores” seriam considerados pessoas de bem.
A seguir o autor narra uma passagem que pode ser considerada hilária, quando conta que ele prendeu os onze jogadores de um clube, porque desrespeitaram os torcedores.
Henriquinho afastou-se da delegacia em 1943, no auge da Segunda Guerra, para servir à Força Expedicionária Brasileira, como soldado da 6ª Companhia do 3° Regimento de Infantaria. Após o fim da guerra ingressou na política partidária, através da União Democrática Nacional (UDN), onde militavam os adeptos do Brigadeiro Eduardo Gomes. Eram seus companheiros de partido Pedro Vilas Boas Catalão, Demósthenes Vinháes, Carlos Pereira Filho, João Adonias Aguiar, dentre outros.
Na primeira eleição a que concorreu foi eleito vereador, tendo sido reeleito na segunda. No governo Catalão foi eleito presidente da Câmara de Vereadores. Em 1953 candidatou-se a prefeito, tendo ficado em terceiro lugar. Na eleição seguinte, em 1958, conseguiu se eleger. A seguir elegeu-se deputado estadual por dois mandatos seguidos e deputado federal em seguida. Ele acredita que perdeu a reeleição para deputado federal por causa da sua luta pela criação do Estado de Santa Cruz.
Como prefeito suas obras foram muitas. Como deputado lutou bravamente pela região que o elegera. Participou ativamente na criação da Faculdade de Direito de Ilhéus, da Ponte do Pontal, do Porto Internacional do Cacau, construiu a ponte da Barra ao Savóia.
Em seu livro podemos encontrar um homem apaixonado até o final da vida. Apaixonado pela cidade onde nascera, pelas causas em que acreditava, pelos filhos, pelos netos e, principalmente pela esposa, a quem dedica um poema, logo no início. Era um poeta, que disse (sobre a esposa):
A musa heróica dos meus sonhos, que não se apagarão jamais, pois continuarão a dominar meu ser, na eternidade dos meus desejos.
“Nasci… Vivi. Sorri, Chorei. Amei e fui amado”. Henrique Cardoso foi um homem público que deixou grandes marcas em sua passagem por esta terra. Merece nossa homenagem e nosso respeito.
