| Colégio Afonso de Carvalho, ao lado da Prefeitura Municipal |
Já são quase seis anos escrevendo para o Diário de Ilhéus, ininterruptamente. Nem sempre é fácil encontrar assunto, mas, acaba se tornando um exercício muito interessante. Recentemente firmei duas parcerias que estão me deixando entusiasmada. Com Eliane Sabóia, que sabe muita coisa sobre nossa história, e com Alfredo Amorim da Silveira, pessoa cujo maior hobby é ir para o Arquivo Público pesquisar e catalogar o que foi publicado pelos jornais antigos. E esta parceria já tem dado frutos. Esta semana Alfredo me enviou a cópia de uma carta escrita em 1977 por Ramiro (Berbert?) a seu tio Demostinho. Fiquei tão empolgada, que perguntei se podia publicar. Alfredo me autorizou a publicar o que abaixo passo a narrar, e considero esta matéria, uma página muito interessante da história de Ilhéus.
A carta conta uma história quase inacreditável. E começa assim: “Tio Demostinho: você sabia que é sobrinho de um príncipe de sangue?” E continua, dizendo que passou aquela tarde conversando com o genealogista Arnold Wildberg, cônsul da Bélgica na Bahia, que lhe contara uma história fascinante.
Luiz Felipe, rei da França, achou que já havia chegado a hora de seu país guardar os restos mortais de Napoleão I, que havia falecido no exílio em 1821. Determinou, então, que um dos seus cinco filhos varões, o Duque de Joinville, fosse a Santa Helena, buscar os restos mortais de Napoleão I.
O Duque que, depois da viagem passaria a Príncipe de Joinville, deveria passar por Santa Helena após o retorno de uma viagem recreativa e cultural pelo Império do Brasil. O Duque francês chegou ao Brasil no ano de 1840. Era um jovem de 22 anos que teve uma “recepção estrondosa” em sua chegada à Bahia. Foi homenageado com um inesquecível baile, onde foi apresentado, entre outras pessoas, a “40 donzelas” da sociedade baiana. Uma dessas moças, Maria Leonila Bandeira apaixonou-se pelo príncipe, com quem tornou a se encontrar quando o mesmo fazia uma caçada em Mataripe.
Joinville partiu para cumprir sua missão na ilha de Santa Helena, deixando a baiana grávida. Quando a família Bandeira descobriu o fato, expulsou a filha de casa. O que a jovem fez, que hoje seria algo normal, naquela época não era aceito pela família. Maria Leonila foi morar, então, em Feira de Santana, onde deu à luz a uma criança loira, batizada com o nome de Artur.
Anos mais tarde, Maria Leonila conheceu o Conselheiro Antonio Luis Afonso de Carvalho (1828-1892), com quem passou a conviver, tendo com ele 4 filhos.
Passaram-se os anos e, em 1884, o Conselheiro Luis Afonso de Carvalho, aos 56 anos, foi indicado para Presidente da Província da Bahia. Acontece que ele era solteiro e tinha filhos, isto seria um impedimento para que ele assumisse o cargo. Para resolver o problema, ele se casou naquele mesmo ano, com sua companheira, Maria Leonila que, de Bandeira, passou a se chamar Afonso de Carvalho.
O Presidente da Província legitimou seus filhos, já que àquela época, filhos de casais não casados, não eram reconhecidos. Ao mesmo tempo em que legitimou seus filhos “morenos”, adotou o filho loiro de sua esposa. O descendente do rei da França passou a se chamar Artur Afonso de Carvalho. Era Bacharel em Direito como seus irmãos Francisco José e Antonio Luiz.
E foi esse Artur Afonso de Carvalho, neto do rei Luis Felipe da França, que se casou em Ilhéus, com Auta Berbert de Carvalho. Tiveram muitos filhos que ajudaram e ainda ajudam a construir a história desta cidade, pois permanecem nas gerações que lhes sucederam.
E aí, haja parentesco com a nobreza internacional.
Os que nasceram em Ilhéus, filhos e netos de Artur Afonso de Carvalho, são descendentes diretos de Luiz XIV e de Dom Manoel I, dentre muitos outros.
O Príncipe de Joinville casou-se em 1843, com sua prima Dona Francisca, irmã de Dom Pedro II, e faleceu na França no ano de 1900, aos 82 anos. Ele e a esposa estão sepultados no Castelo d’Eu na França. O nobre em questão era, também, irmão do pai do Conde d’Eu, marido da Princesa Isabel e da mãe do Conde de Saxe, marido da Princesa Leopoldina, “ambos primos carnais de tio Artur”.
Portanto, podemos concluir que os ilheenses, além de netos do rei da França, são também, primos (ou contraparentes) da família real brasileira.
Pois é, Ilhéus tem muita história!
Fonte: carta escrita em 29.09.1977 por Ramiro Berbert ao seu tio Demóstenes Berbert e disponibilizada por Alfredo Amorim da Silveira.
| Colégio Afonso de Carvalho transformada em galeria de lojas (2009) |
