Durante muito tempo, enquanto fui proprietária de uma pousada, passei muita vergonha com os turistas que vinham a Ilhéus querendo conhecer as coisas da cidade descrita por Jorge Amado. Muitos deles, quando aqui chegavam, logo pediam para conhecer o bar Vesúvio e o Bataclan. O primeiro sempre funcionou regularmente, mas o Bataclan era um grande problema; tudo que havia era a fachada “caindo aos pedaços”… estava tudo em ruína.
Durante o governo do prefeito Jabes Ribeiro, no período de 2000 a 2004 foi feito um convênio com a Petrobrás para reconstrução do espaço, patrimônio cultural de Ilhéus, criado pelo famoso escritor.
Em agosto de 2004 o novo prédio, que não é histórico, mas de grande importância para o turismo cultural da cidade, foi entregue à população e aos turistas que, a partir de então, podiam visitá-lo e usufruir um novo local de lazer. O novo espaço já sofreu modificações para melhor, e continua atendendo à sua finalidade.
Naquela época escrevi uma crônica dizendo o seguinte: “Quando entrei pela primeira vez no espaço, ainda em construção, fiquei surpresa, pois não imaginava que fosse tão amplo. E, acho que já afirmei anteriormente, não imaginei que pudesse ficar tão bonito e tão agradável. Creio que a maioria das pessoas também não poderia imaginar o que estão vendo, pois a expressão de surpresa da maioria delas é notória. Em menos de dois meses, mais de 10 mil pessoas visitaram este importante equipamento da nossa cultura ligado à obra amadiana”.
O Bataclan do século XXI não tem nenhuma semelhança com o original criado por Jorge Amado, afinal é um espaço cultural e não um cabaré. O grande valor do Bataclan está ligado ao imaginário de Jorge Amado, pois não se tem foto do prédio, não existem pessoas que possam reproduzir como teria sido e, em nenhum momento deveria ser feita uma reconstrução tal qual ele era. Segundo o amigo Popof, que chegou a Ilhéus ainda menino, quando aqui chegou, o cabaré não mais existia, que no andar térreo ficava um armazém de secos e molhados e o cabaré ocupava apenas a parte de cima. Ora, o que poderia ser feito em um local que as pessoas sabem mais por ouvir dizer do que por ter sido testemunha. E nossa memória costuma nos trair e colocar como verdade aquilo que pensamos e interpretamos. E nessa coisa toda entra muito forte o cabaré construído pelo famoso escritor.
Portanto, o espaço destinado a exposições, o quarto idealizado por Jorge Maron, e o que mais lá tiver, estão em perfeita harmonia com um espaço turístico moderno e bem aparelhado, que veio enriquecer em muito nosso equipamento destinado ao turismo cultural. Além disso, parece que ele veio também para mexer com nossas frustrações referentes ao declínio da cultura cacaueira e, mexendo com isso, nos ajudar a recuperar nossa auto-estima.
Lembro bem que, na sua “re-inauguração” foi realizado o Baile dos Coronéis, idealizado por Eduardo e Celeste Challoub. Quando entrei na festa e vi aquelas pessoas alegres, descontraídas e vivendo um tempo que não era o seu, que não é o nosso, pude compreender o quanto a reconstrução do antigo cabaré havia mexido com problemas que guardamos lá no fundo do nosso coração e que, certamente, talvez nem nos déssemos conta. Não sou psicóloga, mas sei que existe um sentimento muito forte porque depois de duas gerações que cresceram economicamente, a nossa, a minha geração experimenta uma enorme sensação de perda econômica e, mais do que isso, uma perda de identidade, uma enorme frustração.
Ao entrar na festa e ver tantos coronéis, tantas moças e senhoras vestidas de modo a lembrar damas no século passado, não me senti num baile à fantasia, era mais do que isso, era um retorno, aquilo tudo parecia representar um expurgo das coisas que nos fazem mal por não termos conseguido impedir que a bruxa da vassoura interrompesse nossos sonhos de prosperidade, pois a mentalidade que orientou a construção dos nossos belos e imponentes prédios, ainda está muito viva dentro de nós.
A reconstrução do Bataclan veio dar um novo direcionamento ao turismo local, veio dar reforço ao turismo cultural que, tenho certeza deve ser mais utilizado. A construção da nossa sociedade foi baseada na economia agrária de produção dos grãos que, triturados, se transformam no manjar dos deuses, o chocolate. E esta cultura não podemos deixar morrer.


A imaginação é mais poderosa que a realidade. Haja vista onde chegamos. Fácil chegarmos num ponto de onde viemos. Gostei!