Maria Luiza Heine nasceu no Rio de Janeiro e veio morar em Ilhéus na década de 70. Aqui teve suas duas filhas e se formou em Filosofia na antiga Fespi. Fez Especialização em História Regional e Mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional na UESC.
Criou raízes, recebeu o título de cidadã ilheense é membro do Instituto Histórico e Geográfico de Ilhéus, da Academia de Letras de Ilhéus e da Sociedade de Defesa do Patrimônio Histórico de Ilhéus. É também professora de Filosofia e Ética da Faculdade de Ilhéus. Tem seis livros publicados.
Entrevista dada ao Diário de Ilhéus, publicada em 29 de março de 2009
Diário de Ilhéus: Primeiramente, conte um pouco de sua história.
Maria Luiza: Eu nasci no Rio de Janeiro. Meu pai, Ari Heine era natural de Rui Barbosa, na Chapada Diamantina, e minha mãe, Nilda, é daqui mesmo, da família Amorim. Por volta dos cinco aos nove anos, moramos na Bahia, parte destes em Ilhéus, onde comecei minha vida escolar, estudando com Tia Berta e Cleofa Sá Barreto. Depois retornamos para o Rio, onde fiz meus cursos ginasial e científico. Em 1967 ingressei na faculdade de arquitetura da UFRG e no ano seguinte larguei tudo para casar.
Em 1974 me mudei para Ilhéus. Aqui nasceram minhas filhas, ana Cristina e Maria Lúcia. Depois que me separei, pensei em voltar para o Rio, mas Ilhéus é a minha cidade. Comecei a trabalhar, me formei em Filosofia pela Fespi, construí a minha vida. Lecionei na Piedade, no Afonso de Carvalho, no Vitória e passei a fazer parte do quadro de professores do IME, de onde saí para me aposentar.![]()
Acredito que seja uma pessoa dinâmica, empreendedora e com muita sede de aprender. Abri o primeiro restaurante da cidade com música ao vivo, o Chez Moi. Depois abri a Pousada das Mangueiras, que foi o veículo que me fez descobrir a riqueza da História de Ilhéus. Recebi da Câmara de Vereadores o título de Cidadã Ilheense, o que muito me orgulha; fui convidada pelo então prefeito Jabes Ribeiro para ocupar o cargo de Presidente da Fundação Cultural de Ilhéus, sou membro da Academia de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico. Adoro ler, aprender, saber o que o mundo científico anda produzindo, considero-me uma pessoa atualizada. Sou especialista em História Regional e Mestra em Desenvolvimento Regional e Meio-Ambiente. Sou professora de Filosofia e ética da Faculdade de Ilhéus, uma instituiçlão da qual muito me orgulho de fazer parte.
Sonhos? Um mundo melhor e menos desigual, e para minha carreira o doutorado… e mais livros a publicar.
DI- Como a senhora analisa a questão da cultura em Ilhéus?
ML- Partindo do princípio de que a cultura é formada pelos hábitos, costumes e manifestações de um povo, a cultura ilheense é muito rica, posto que, segundo Stuart Hall, ela é híbrida. Ela é formada pela soma das culturas formadoras de nosso povo: brancos de várias etnias, negros de várias etnias e índios idem. Nossa culinária bem expressa essa riqueza multicultural. Está presente em nossa mesa o caruru, o vatapá, o quibe, o bolo de milho e a farinha de mandioca.
Isso é um ponto. A questão da cultura é outro ponto de grande importância e eu diria que a cultura vai muito bem, obrigada.Por que? Porque temos pessoas que se preocupam com isso, dão o sangue e dedicam suas vidas a essa Cultura. Gostaria de citar alguns exemplos, mesmo sabendo que posso incorrer na possibilidade de esquecer um ou outro, mas desde já peço desculpas.
O trabalho realizado pelos grupos afro Dilazenze e Mini-Congo, aqueles de Capoeira e muitos outros, são dignos do nosso aplauso. As escolas de ballet clássico, nossos músicos, nossas bandas, grupos de afoxé, terreiros de candomblé, a Academia de Letras, o Instituto Histórico, o belíssimo trabalho do Teatro Popular de Ilhéus, poetas e escritores. São esses grupos e pessoas que fazem a Cultura de Ilhéus.
Sem recursos, mendigando verbas a um e a outro, demonstram que é possível fazer cultura, apesar das dificuldades.
DI- O que necessita ser feito para que ela venha a ser definitivamente consolidada em nossa cidade?![]()
ML- A cultura está consolidada, quanto a isso não há discussão. A grande dificuldade é prestigiá-los e possibilitar que esses grupos se mantenham atuantes, permanecendo “vivos”. E você sabe que, sem dinheiro, nada se faz. Mas não são só os grupos que precisam fazer alguma coisa, nem também deixar a cargo do poder público, tudo depende do incentivo da população. Para a Cultura acontecer de forma continuada, a população deve estar envolvida.
Veja você. Nós temos algumas manifestações culturais centenárias que, independentemente do apoio governamental permanecem ativas. Vou citar alguns exemplos. A devoção a Nossa Senhora das Vitórias é secular, começou ainda no século XVI e permance viva até hoje. Mais recentemente temos o Bacalhau do Barreto, mantida pelos estivadores, o Bumba meu Boi de Sambaituba e Urucutuca que tem perdurado por longo período de tempo, mas que corre o risco de desaparecer quando o Sr. Oreco não estiver mais por aqui.
Resumindo: temos cultura. Uma cultura importante e singular quando se refere ao cacau e à sua história; uma cultura que é o resultado da mistura da presença dos índios, brancos e negros. Os índios nos ensinaram o gosto pelo banho e pelo ritmo menos frenético das grandes metrópolis cosmopolitas e seus alimentos feitos de farinha de mandioca; do negro herdamos a força para trabalhar, a resistência física e também seus alimentos. Também herdamos o que o branco tem de bom. Da cultura européia tiramos o modo de encarar a realidade, seus costumes, suas crenças; e como não poderia deixar de ser, deles todos herdamos o que temos de ruim, inclusive essa mania de achar que só o do outro é que é bom, o nosso nos envergonha.
DI- Em relação a políticas públicas? Elas existem na cidade?
ML- Não. Não há, porque existem formas de governar que não são continuadas. Cada governo faz o que quer e o que acha correto, esquecendo que ele está ali para governar e não para transformar a cidade em expressão da sua vontade. Vem um governo e faz alguma coisa, o seguinte resolve desfazer, para que o antecessor não seja reconhecido. Os projetos culturais, que são da cidade, da população, não deveriam ser prejudicados quando muda o governo. Gostaria de fazer uma ressalva e dizer que, sem sombra de dúvida, o prefeito que mais trabalhou pela cultura da cidade foi Jabes Ribeiro.
Não podemos esquecer do Teatro Municipal, doado pela família de Antônio Olímpio, prova de grande desprendimento, mas que foi realizado pelo esforço de Jabes. Podemos citar também a concretização da Casa de Cultura Jorge Amado, da Fundação Cultural de Ilhéus, a Biblioteca e o Arquivo Público. Tivemos também a criação do Centro Cultural de Olivença, do qual tive a honra de participar, um grande projeto; e do Memorial da Cultura Negra, que seu sucessor simplesmente deixou acabar. Creio que perdemos um grande patrimônio cultural quando deixamos demolir a Fábrica de Chocolate Vitória, daria um grande espaço cultural. Tudo isso que citei é de grande relevância, mas são ações pontuais. Políticas Públicas é mais do que isso, e precisa ser feito. Mas vai depender mais da vontade da população do que do governo, que é algo temporário, efêmero. Um povo unido, “obriga” o governo a atender às suas reinvindicações.
DI- De que forma a Cultura poderia dialogar com outros setores importantes da nossa economia, a exemplo do Turismo e da Educação?
ML- O problema do Turismo e da Educação são similares ao da Cultura. Um corpo não é formado da soma das partes, ele é mais do que a soma das partes. Assim também a cidade. Não é possívelestas secretarias não estarem ligadas, caminhando juntas. O Turismo de Ilhéus não deve ser só voltado para as praias ou para atividades ligadas ao meioambiente. Qualquer ação turística que se realize em Ilhéus não pode esquecer a nossa cultura, conhecida e falada para o mundo inteiro nos livros de Jorge Amado; não pode esquecer a forte presença da cacauicultura nos séculos XIX e XX. Eu sei bem disso porque trabalhei muito tempo com turismo. As pessoas querem saber dos coronéis, dos jagunços, da riqueza e das práticas das quais nem sempre possamos nos orgulhar, mas por que não?
Devemos compreender que os tempos mudam. Que se hoje uma pessoa de bem não pode matar, não faz muito tempo era permitido em um país de tão grande extensão territorial, eram os coronéis que faziam o papel de polícia. Isso ocorreu em todo o país. Isso faz parte da natureza e da cultura (é bom deixar claro) humana. Poderíamos citar inúmeros exemplos, não no passado, mas na atualidade. Então, negar o passado é renegar nossa cultura.
Gosto muito de dizer, e estou convencida de que existe cacau em muitas partes do mundo, gerando, inclusive, mais dinheiro do que a nossa empobrecida lavoura, derrotada pela crinipellis perniciosa; mas a cultura gerada pelo cacau, nesta região, é única no mundo. E precisa ser falada, relembrada, vendida ao turista que aqui chega.
DI- O que foi realizado de notável em matéria de incentivo cultural na cidade e que poderia ser aplicado hoje em dia?
ML- Muita coisa poderia ser citada, já o fiz nos parágrafos anteriores. O que gostaria de deixar como sinal de alerta, como uma pista que possa ajudar o produtor cultural a, de forma mais digna, buscar recursos para realizar seus projetos e assim se mantendo e à sua família. Segundo ouvi no Ministério da Cultura, quando estive em uma reunião em Brasília, é possível à pessoa física fazer doação de verbas, que serão descontadas do Imposto de Renda, por força da Lei Rouanet. Nunca consegui encontrar um contador que soubesse como isto é possível. Poderia ser feita uma campanha neste sentido. O dinheiro ficaria aqui para beneficiar nossos artistas, em vez de seguir as rotas obscuras dos mensalões e mensalinhos.



[...] nascido há poucos dias e de fato indo ao ar na tarde de ontem, é o Ilhéus… com amor. De Maria Luiza Heine, nome mais do que conhecido por sua competência como professora e historiadora, é o [...]
[...] A Autora [...]
[...] A Autora [...]
Gostaria de saber da Sr. se voce conhece a cultura dos pescadores da barra de itaipe e são miguel que é secular, seria bom se as importate como a Sr. para acultura de ilheus fizesem alguma coisa não deixar morrem essas manifestação popular que marcô época …
Não Caetano. Não conheço, mas gostaria muito de conhecer. Se você puder me ajudar neste sentido, vai ser ótimo. Podemos fazer uma ótima matéria sobre o assunto.
Abraços,
Maria Luiza
oi bom dia eu sou guia de ilheus
quero saber de se a senhora pode manda
o istorico da igreja nossa senhora da piedade
para o meu orkut
Claro, Wesley, com muita satisfação. Mando para seu e-mail e você inclui no orkut, certo?
Obrigada pela sua mensagem.
Abraços,
Maria Luiza
Oi professora. seus artigos são muito completos, esclarecedores e responsáveis. Vai em profundidade desvendando os assuntos mais complexos e escreve com muita clareza. Adorei. Receba um abraço. Celia Giménez
Que satisfação, Profa. Célia.
Queria mesmo te falar, pois li seu livro sobre os índios na Bahia e aprendi muito. Quando vier a Ilhéus, me procure.
Abraços,
Maria Luiza Heine
Minha ex professora Maria Luiza..
que prazer encontrar seu site.. conhecer, reconhecer e relembrar historias de Ilheus.
Moro no Rio desde 1983, mas como se sabe, mancha de dendê nao sai.
Parabens e Abraços.
Que bom, Mauricio! poder reencontrar pessoas que não vemos há tanto tempo. Este trabalho tem sido muito gratificante, por poder divulgar meu trabalho, mas, principalmente, por poder estar em contato com pessoas que se encontram distantes.
Fico feliz que tenha me encontrados.
Grande abraço,
Maria Luiza
Olá, Professora.
Estou a procura de mais informações sobre a época dos coronéis do cacau e também sobre a figura de Antonio Pessoa (Tonico Pessoa). Algum livro seu cita ele?
Andei procurando seu livro “Jorge Amado e os coronéis do cacau”, mas ainda não obtive sucesso.
Parabéns pelo ótimo trabalho.
Olá Wandréa,
Sobre Antonio Pessoa não tenho nada escrito, mas, ele tem uma filha que mora em Ilhéus. A filha dele se chama Vera Pessoa, e mora na rua Manoel Vitorino. Acredito que ela possa te dar informações. Procure-a.
Obrigada pela sua mensagem.
Abraços,
Maria Luiza Heine
estimada jornalista e academica maria luiza, quanto e satisfatorio levantar-se e ler seus artigos sempre produtivos e de otimo gosto. por isto tudo vejo agora a admiração que pai prof leopoldo cultivava pela nobre jornalista. johnson monteiro
Prezado Johnson,
Fico muito feliz em receber suas mensagens. Saiba que guardo grande estima e admiração por seu pai, prof. Leopoldo.
Recomendações à senhora sua mãe.
Um grande abraço,
Maria Luiza Heine
Professora sou uma ex aluna tive esse privilégio.
amei achar seu site muito rico em conhecimento
gostaria de saber qual o nome do primeiro prefeito
da cidade de Ilhéus?
obrigada
bjs
Prezada Debora,
É uma satisfação reencontrá-la. Obrigada pela mensagem.
Ilhéus teve intendentes e prefeitos, o que vem ser a mesma coisa. Somente após a Proclamação da República a cidade passou a ter intendentes. Anteriormente era o presidente do Conselho (Câmara de Vereadores, quem governava). O primeiro intendente foi João Batista de Sá Oliveira (1890 – 1892), segundo o livro de José Nazal, que possui o nome de todos com as respectivas datas.
A partir de 1930 o intendente passou a se chamar prefeito.
Um grande abraço para você.
Maria Luiza Heine
Prezada Sra.: Me chamo André Sellmann Victal e Castro. Sou a
quarta geração de Bernardo (Bernard) Sellmann, imigrante alemão que
viveu em Castelo Novo, Ilhéus, à primeira metade do século XIX.
Tento, há muito tempo, descobrir o nome dos pais dele, ou seja, o
nome dos pais do meu tetravô e, após muito esforço, recebi de uns
alemães radicados em Santa catarina, a informação que no livro A
crônica da Capitania de São Jorge dos Ilhéus, de João da Silva
Campos, à página 325, um SELLMANN é associado a Pedro Weyll e a
Saueracker. Lendo o seu artigo intitulado Ilhéus no Império, pude
ver que em alguns momento s a Sra. cita Pedro Weyll, Saueracker e
Castelo Novo. Os laços de minha família àquela região são tão
fortes que minha mãe, nasceu em uma das fazendas da família em
Castelo Novo, em 1945, ou seja, quase 140 anos após a chegada dos
nossos ancestrais à Bahia. Gostaria de saber se a Sra. tem alguma
referência a Pedro Weyll e se ao nom e dele está associado o
sobrenome SELLMANN ou, ainda, se a Sra. possui alguma informação
acerca de membros desta família, naquele período de formação da
colonia Leopoldina. Muito agradecido, desde já pela atenção,
subscrevo-me mui atenciosamente.
André S.V. Castro