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Archive for the ‘jorge amado’ Category

Continuo em plena comunicação com Elena Beliakova, pessoa muito amável, tradutora de Jorge Amado na Rússia. Devo pedir-lhe desculpas publicamente por ter publicado seus e-mails na íntegra, o que a deixou um pouco constrangida, pensando que o que escrevera tivesse erros graves em nossa língua, com o que não concordo; se assim fosse, não o teria publicado. Gostaria de contar para vocês que Elena aprendeu a falar e a ler em português em manuais e como autodidata. Tudo pela enorme vontade de conhecer a obra do nosso escritor Jorge Amado.

E, sabendo disso, fico sem entender como é que algumas pessoas, nascidas aqui na região, teimam em não reconhecer nosso escritor maior. Quanto ao português da nossa amiga russa, fico encantada que seja tão bom, até porque ela deve ter aprendido o português falado em Portugal. Enquanto isso, nossos alunos, nascidos, criados e escolarizados aqui, dizem, por exemplo: “se eu tivesse descobrido antes…”. Portanto, minha querida Elena… nenhum erro que você cometa pode nos parecer grave. Será que aprenderíamos o russo da mesma forma que você?

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LIVROS DE AMADO ABRIRAM NOVO MUNDO PARA LEITORES NO LESTE COMUNISTA

(enviado por Elena Beliakova – de Thomas Pappon – BBC Brasil em Londres)

"Como um tornado tropical, a vida desconhecida e misteriosa de um distante Novo Mundo caiu sobre nós, tirando o nosso fôlego com suas tempestades e paixões". Com essas palavras, a filóloga e pesquisadora de literatura latino-americana da antiga União Soviética, Vera Kuteishchikova (URSS) saudou, em um artigo no influente semanário de cultura Literaturnaia Gazeta, o 70º aniversário de Jorge Amado, em 1982.

A frase dá uma boa ideia do impacto da obra do escritor baiano, não apenas na Rússia, mas também em outros países do Leste Europeu nos tempos do comunismo, um fenômeno pouco conhecido do público brasileiro. Vários livros de Amado foram traduzidos e publicados nos países comunistas. Na Rússia, segundo informações levantadas pela pesquisadora e tradutora Elena Beliakova, da Universidade Estatal Tcherepovets, o primeiro foi São Jorge de Ilhéus, lançado pela editora Literatura Estrangeira em 1948, cinco anos antes da morte de Stalin.

Em um primeiro momento, como sugere Beliakova no ensaio "Percepções de Jorge Amado na Rússia", a preocupação dos burocratas que decidiam, em nome do Estado, o que poderia ou não ser distribuído ao ávido público leitor soviético em pleno auge do stalinismo, era com a "mensagem".

São Jorge de Ilhéus, saga que tem o ciclo do cacau, o coronelismo e a exploração extrativista promovida por empresas internacionais como pano de fundo, se encaixava no espírito de denúncia das mazelas do imperialismo americano, tão difundido pela máquina de propaganda soviética na época.

O fato de o autor baiano ter sido um dos mais proeminentes membros do Partido Comunista Brasileiro certamente ajudou na decisão de permitir sua publicação – e a tornar Amado, ao lado de Pablo Neruda e Gabriel García Márquez, em um dos mais populares escritores latino-americanos de todos os tempos na Rússia.

Mas se o humanismo e o senso de justiça em livros como Seara Vermelha e, notadamente, Os Subterrâneos da Liberdade – a maior empreitada de Amado no estilo do realismo socialista e que teria, segundo Beliakova, sido quase que "encomendado" pelos soviéticos, que ansiavam pela primeira obra de um autor latino-americano neste estilo – encantavam as autoridades, Amado acabou conquistando um lugar cativo nos corações de leitores russos por outra razão, justamente por introduzi-los ao tal "Novo Mundo" a que Kuteishchikova se refere acima.

Este veio com dois livros, Gabriela, Cravo e Canela e Dona Flor e Seus Dois Maridos, publicados na URSS, respectivamente, em 1961 e 1970.

"Os leitores não queriam apenas ler sobre o amor trágico, não correspondido, não realizado, (temas) que dominavam as obras de autores soviéticos e russos", diz Beliakova. "Mas também sobre o amor que vence, supera tudo e, o que não é menos importante, sensual." A "alegria de viver" na obra de Amado era uma coisa "estranha à literatura russa", escreve Beliakova em seu ensaio. "Nós russos encaramos a vida muito tragicamente e nos cansamos de nós mesmos nessa tragédia cotidiana. É difícil ser otimista quando se tem diante dos olhos, ao longo de sete meses do ano, uma planície infinita coberta de gelo sob um céu cinzento e sem um único dia de sol."

"Em situações como essas, os romances de Amado, como uma dose reforçada de vitamina C, regeneram a vida, nos dando a leveza e harmonia com o mundo de que tanto precisamos." Segundo a autora, o mesmo aconteceu na antiga Alemanha Oriental, onde, entre 1950 e 1990 – ano da queda do Muro de Berlim – foram lançados 20 livros de Amado. Na URSS ele foi agraciado com o prestigioso Prêmio Stalin, em 1951; na Berlim Oriental ele recebeu, no mesmo ano, o não menos ressonante Prêmio Lenin.

Os livros mais populares de Amado na Alemanha Oriental, entretanto, foram obras mais do início de carreira do autor, como Jubiabá e Capitães da Areia.

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JA Elena

A história do meu blog “ilheuscomamor” acho que muitos de vocês conhecem, já falei sobre ele. Agradeço a ideia e criação de Anabel Mascarenhas, que um dia me perguntou por que eu não ampliava o número de leitores, disponibilizando na internet as matérias semanais publicadas neste caderno cultural do Diário de Ilhéus. Assim, o blog nasceu em setembro de 2008, tendo recebido mais de 170 mil visitas para ler cerca de 390 artigos, e enviando perto de 1200 comentários. É uma experiência gratificante que me deixa muito feliz.

Através da Web, rede mundial de comunicação, tenho recebido mensagens de muitas partes do mundo. A maioria quer saber sobre a história de Ilhéus, notícias de parentes, informações sobre famílias daqui. Mas, há alguns dias recebi um e-mail vindo da Rússia dizendo o seguinte:

 

Prezada Maria Luiza!

Chamo-me Elena Beliakova. Moro na Russia. Sou tradutora de Jorge Amado pelo russo e autora do livro "Amado russo".  Em agosto 2012 visitei Ilhéus para participar no centenário de Jorge Amado e, claro, visitei a casa de Amado.
Eu queria saber quantos anos a familia Amado morava nesta casa e o que é que aconteceu depois. O pai de Jorge vendeu a casa? Ou aconteceu uma outra coisa? O guia disse que o pai de Jorge ganhou dinheiro jogando cartas. Quem tem razão?

Um abraço cordial,

Elena.

Em 31 de março de 2013.

 

Coloquei o texto na íntegra porque não achei justo corrigi-lo. Ao responder, enviei um texto contando tudo que pesquisei sobre a casa e sobre a história da família de Jorge em Ilhéus.

Prezada Elena,

Sinto-me honrada e feliz com sua mensagem. Lamento não tê-la conhecido pessoalmente quando aqui esteve.

Veja bem, estou enviando o texto que escrevi sobre a casa, em 2004, quando concluí minha dissertação de mestrado.

Aqui na Bahia não é só Jorge Amado que inventa histórias, os guias de turismo também gostam de inventá-las. Dizem, eu não tenho certeza, que o pai de Jorge ganhou o prêmio máximo da loteria, uma forma de jogo legalizada no Brasil e em outros países, em que quem o banca é o próprio governo. Nunca ouvi dizer que o coronel João Amado tivesse ganhado dinheiro em jogo de cartas.

Novamente veio outro e-mail.

 

Cara Maria Luiza,

Muito obrigada pela sua resposta. Sou eu quem lamenta que não conheci você em Ilheus! Poderia conhecer muitas coisas sobre a casa e a vida da família Amado. E porque eles se mudaram para o Rio de Janeiro? Qual foi a situação económica da família nesse periodo?

Um abraço cordial,

Elena.

Вы писали 31 марта 2013 г., 22:09:13:

Minha resposta:

Prezada,

O ano de 1936 corresponde ao final do período em que houve a quebra da Bolsa de Nova York. Ilhéus vivia do mercado internacional do cacau e sofreu as consequências negativas desse período. Por outro lado, as pessoas abastadas tinham uma ligação muito mais forte com o Rio de Janeiro, capital da República, do que com Salvador. Nessa época Jorge já morava lá, já era conhecido no mundo das letras, e seus irmãos precisavam estudar. Acredito que, por estes motivos, não havia mais por que eles viverem aqui. Devem ter vendido bem o palacete e com o dinheiro compraram um apartamento no Rio. E nunca mais voltaram a viver em Ilhéus.

 

Querida Maria Luiza,

Em primeiro lugar muito obrigada pela resposta sua. O pai de Jorge vendeu tambem a plantação de cacau? 

Moro na cidade de Tcherepovets situada no Nordeste da parte europeu da Russia. A região é bastante fria, especialmente neste ano.

Vou mandar os meus artigos e os textos das palestras sobre Jorge. Tudo foi preparado para o centenário de Amado.

O abraço de amiga,

Elena.

Recebi os textos, ainda não tive tempo para lê-los. Breve estarei dividindo com vocês esta comunicação vinda da Rússia.

JA russo1

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jorge livro

Em agosto de 2011 recebi uma mensagem da Academia de Letras da Bahia, informando sobre a realização do I Colóquio sobre Jorge Amado, numa parceria com a Fundação Casa de Jorge Amado, e sob a direção do escritor e acadêmico Aleilton Fonseca. Escrevi então um artigo sobre os coronéis do cacau na obra de Jorge Amado, e enviei para apreciação. O artigo foi aprovado e apresentado em agosto do ano passado.

Posteriormente recebi um e-mail comunicando que seria publicado um livro contendo os artigos e as conferências daquele I Colóquio. Na última sexta-feira, 17 de agosto, participei, em Salvador, do lançamento do livro “Jorge Amado nos terreiros da ficção”. A impressão foi assinada pela Editora Casa de Palavras em conjunto com a Via Literarum. O professor Agenor Gaspareto estava lá. A festa foi linda! Fui muito bem recebida pelos anfitriões, Miriam, Aleilton e João Jorge Amado. O filho de Jorge Amado e a esposa elogiaram o festival oferecido pela cidade de Ilhéus, estão encantados.

O livro lançado pela Casa das Palavras apresenta dez conferências proferidas durante o Colóquio e sete comunicações, dentre as quais, aquela por mim escrita: “Jorge Amado e os coronéis do cacau: uma abordagem histórica”. Fiquei muito feliz, pois o que escrevo está rompendo as fronteiras de nossa cidade.

As orelhas do livro são assinadas pela poeta Myriam Fraga, diretora da Fundação Casa de Jorge Amado e grande amiga do escritor. Diz ela “Jorge Amado não foi apenas um grande escritor da Bahia, mas um cidadão do mundo, com obras traduzidas e publicadas em vários países, mais precisamente em 49 idiomas. Sua abrangência e sua participação em diversas frentes de atuação no Brasil e no exterior permitem-nos citá-lo como um escritor brasileiro de alcance mundial.

Myriam afirma que a criação de um curso permanente de estudos sobre Jorge Amado, com a chancela da Academia de Letras da Bahia, veio oficializar uma parceria estabelecida desde a criação da Fundação Casa de Jorge Amado, instituição que tem como intuito primordial preservar, estudar e divulgar a obra do escritor e, por extensão, a cultura e a literatura da Bahia. Como parte integrante de seus estatutos consta ainda, a luta contra a discriminação racial e o reconhecimento da importância do centro Histórico de Salvador, como patrimônio cultural da humanidade. Como se vê, é um projeto ambicioso que temos procurado cumprir segundo o desejo de nosso patrono.

A poeta diz também que, a Academia de Letras da Bahia tornou-se uma parceira natural de propostas e ações no campo da cultura. A Fundação Casa de Jorge Amado tem contado também, neste assunto, com a parceria do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Diversidade Cultural, da Universidade Estadual de Feira de Santana, além da contribuição do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia.

Aleilton assina o prefácio afirmando que “Jorge Amado chega ao seu centenário como um escritor que continua despertando grande interesse no Brasil e no exterior, em virtude dos temas e dos valores literários e humanos de sua obra de ficção”. O autor do texto faz uma breve análise da obra de Jorge Amado.

Começa analisando o primeiro romance de Jorge, O país do carnaval (1931) e afirma que o autor logo se compromete com o projeto de uma ficção social, trazendo à tona as classes populares, trabalhadores e proletários, que o escritor procura agregar à cena social e literária do país. Mais adiante se atira à luta pela afirmação cultural popular e pela resistência coletiva aos preconceitos sociais, quando as personagens do povo ganham voz para afirmar e defender seus próprios valores simbólicos, contra a repressão imposta pela cultura oficial. Essas situações são encontradas em Jubiabá (1935) e Tenda dos Milagres (1969). Passa pela análise das obras chamadas do ciclo romanesco do cacau, composto por Cacau (1933) e Terras do sem fim (1943), além dos outros. Fonseca afirma que os romances do cacau se constituem uma verdadeira sociologia literária da região grapiúna.

E o mais importante, Fonseca coloca o romance Gabriela Cravo e Canela (1958) como aquele que inaugura a série de perfis de mulher, uma das mais fortes vertentes da ficção amadiana, ampliada com D. Flor e seus dois maridos (1966), Tereza Batista Cansada de Guerra (1972) e Tieta do Agreste (1977). Afirma que Jorge Amado apresenta perfis femininos das camadas populares, no primeiro plano romanesco, daí suscitando discussões em torno da tradição patriarcal de submissão da mulher.

O livro apresenta a importância dos temas abordados, demonstrando a riqueza contida na obra do escritor grapiúna, cujos estudos estão longe de esgotá-los.

É um livro que vale à pena ser lido.

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Com Myriam Fraga, diretora da Casa de Jorge Amado

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O IMENSO JORGE

por Carlos Heitor Cony

jorge no bonfim

Ele foi o único habitante deste planeta que conseguiu acreditar com a mesma sinceridade em Marx e na Menininha do Gantois. Muitos não admitem essa intimidade de Jorge com o marxismo, ao qual aderiu mais com o coração do que com a cabeça. E sua literatura também foi assim. Nada de papo cabeça. Papo coração.

Suando baianidade, melado pelo ouro do cacau, ele foi uma mistura de pai de santo e pajé, um pajé que sabia contar histórias bonitas para a imensa taba global onde à noite, se alguém era capaz de duvidar, ele repetia com astúcia: "Meninos, eu vi!".

Se o poeta é o fingidor, o romancista é o mentiroso. No caso da poesia, quanto mais finge, mais o poeta é sincero.

No romance, quanto mais se mente, mais se é verdadeiro. E nada mais verdadeiro do que o universo de saveiros e moleques, de mulatas cadeirudas e operários perseguidos, de xangôs e iemanjás, de cabarés e velórios, de doutores de borla e capelo e capitães de longo curso, de quituteiras e babalaôs que povoaram suas noites enfeitiçadas, seus terreiros de suor e milagres –que a carne sofre inteira e precisa sentir prazer por inteiro, pois ninguém é de ferro.

Jorge Amado conseguiu o absurdo de ser cético e de ser crente. Só na Bahia podia nascer um sujeito assim. Por isso mesmo ele tinha um gosto de azeite e de sono espreguiçado, de cafuné e de mulata tombada nos fundos da cozinha.

Espiou o mundo com o olho treinado nas fechaduras da vida: compreendeu tudo. Leitores que ele teve em todo o mundo não sabem o que perderam: a pessoa humana que só deu a conhecer uma parte de si mesma. Uma parte que constitui um dos maiores todos da literatura moderna.

E este Jorge começou a se mostrar de mansinho, escrevendo "Lenita", uma novela em parceria com Dias da Costa e Edson Carneiro. Tinha 15 anos. O trabalho em equipe geralmente não figura na lista de suas obras, mas não deixou de ser uma ameaça. Ele queria escrever.

O seu aprendizado não seria feito nos laboratórios da gramática ou nos alambiques da linguística. Como a cozinheira se faz no fogão, prevendo e provendo panelas e frigideiras, Jorge se fez na vida, vivendo e escrevendo. Lenita teria sucessoras: Gabriela, Dona Flor, Tereza Batista, Tieta do Agreste.

Criou uma obra torrencial, humana, quente de vida e de pecado, numa prosa que parecia desleixada aos críticos do "ancien régime" literário, mas que o povo ia absorvendo, gostando e consagrando.

Sua obra é inteira, coerente, vívida, caudalosa, formalmente irregular e densamente regular. Não se deve exigir a mediocridade das fórmulas tradicionais de um escritor cuja força humana e literária criou "Jubiabá", "Mar Morto", "A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água".

Suas mulheres de ancas cobiçadas, seus turcos fesceninos cheios de truques, seus marinheiros mentirosos, seus santos e suas senhoras afogadas em mantas e colares coloridos são sempre os mesmos, em qualquer língua ou sob qualquer sintaxe.

Jorge faria hoje, 10 de agosto, cem anos. Fez mais do que isso. Para todo o sempre, ele ficou inteiro em sua obra, e para aqueles que o conheceram foi uma figura humana espetacular. Dele guardo duas lembranças pessoais.

À minha revelia, marcou um encontro com a Menininha do Gantois e foi comigo para ver como me sairia. Garantiu-me que a visita "mal não pode fazer". Filho dileto de outra mãe de santo, ele não podia pedir a bênção de uma rival. Mas pediu e foi abençoado. Para todos os efeitos, ele era filho e devoto de todas as mães de santo da Bahia.

Tancredo Neves foi a um almoço na "Manchete". Quando me viu, o já presidente eleito elogiou crônica publicada naquela semana, aludindo a uma suposta "plasticidade" de estilo. Tive meu minuto de glória. Logo chegou Jorge Amado, blusão com todas as cores, boné de operário russo e capanga pendurada em diagonal no seu largo peito. Tancredo correu para abraçá-lo e elogiou seu último livro: "Que plasticidade!".

Murchei. Fui me queixar com o Jorge, muito mais escolado em situações iguais. Ele comentou: "O Doutor Tancredo errou de profissão. Seria melhor e maior romancista do que todos nós, incluindo o velho Machado".

SP12458-2009_0007.jpg   Carlos Heitor Cony é membro da Academia Brasileira de Letras desde 2000. Sua carreira no jornalismo começou em 1952 no "Jornal do Brasil". É autor de 15 romances e diversas adaptações de clássicos.

 

Disponível em

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/carlosheitorcony/1134562-o-imenso-jorge.shtml (publicado em 10.08.2012)

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Nesses tempos de comemoração dos 100 anos de Jorge Amado, tenho me colocado a procurar coisas a respeito deste escritor grapiúna, que possam ser publicadas. Se não estivesse às voltas com um curso de doutorado, se tivesse mais tempo, iria reler alguns dos seus livros para escrever estas crônicas. Como o tempo é muito curto, resolvi garimpar nos meus arquivos. Foi então que encontrei esta carta escrita por Zélia Gattai, endereçada a Hélio Pólvora, então presidente da Fundação Cultural de Ilhéus.

 

Meu caro Hélio Pólvora,

Nosso menino grapiúna está aniversariando neste 10 de agosto e nos dá alegria saber que a Fundação Cultural de Ilhéus, sob o seu comando, comemora com entusiasmo e amor esses oitenta e oito anos do menino de vossa cidade.

Em toda a longa trajetória de sua vida de viagens e aventuras, onde quer que se encontrasse, na China ou em qualquer outra parte do mundo, Jorge Amado não esqueceu Ilhéus, teve saudades da terra que tanto ama, que o inspirou, que lhe deu personagens fabulosos, tipos que habitam e enriquecem seus romances.

Jorge Amado levou consigo, por esse mundo afora, as praias e os coqueirais de Ilhéus, o Bar Vesúvio com Nacib servindo quibes, levou também os rudes homens da terra e as mais belas e valentes mulheres, mulheres do mais profundo encanto, tornou-os conhecidos e amados, aproximou vários mundos.

Como poderei esquecer aquele menino, numa aldeia de Portugal, a correr atrás do seu gato, que escapara: "Nacib, anda cá…"

— Seu gato é Nacib? — perguntei-lhe admirada.

— Sim senhora, respondeu.

— E por que deu esse nome?

— Porque ele é macho… se fosse fêmea seria Gabriela.

E a moça de Angola, a querer notícias da “camarada Gabriela”, a indagar se era verdade que Luanda se parecia com Ilhéus.

Em Palermo, na Itália, nos procuraram três casais, as moças baianas, os maridos italianos. Entusiasmados com a personagem do romance que acabavam de ler, não vacilaram, atravessaram o oceano em busca de sua Gabriela, haveriam de encontrá-la. Lá estavam eles, três famílias, felizes da vida. Homenagearam com um jantar o responsável pela felicidade encontrada. Histórias parecidas a essas, se repetem, temos visto por toda a parte.

Jorge estaria presente, com grande alegria, caro Hélio, à festa que Ilhéus lhe oferece neste 10 de agosto, mas ainda não pode. O tratamento que segue não lhe permite fatigar-se, muito menos emocionar-se. Ele se junta a mim nesta mensagem, desculpando-se e agradecendo de todo o coração, o carinho que lhe dedicam.

Zélia Gattai Amado

Salvador, 10 de agosto do ano 2000.

Menos de um ano depois, em seis de agosto de 2001 Jorge faleceu, quatro dias antes de completar 89 anos. O maior legado que nos deixou foi ter levado o nome de Ilhéus a todos os cantos do mundo. Não é só o Brasil que o homenageia, mas os mais longínquos recantos desta terra dos homens.

Neste 10 de agosto de 2012, quando completaria 100 anos do nascimento, na Fazenda Auricídia, em Ferradas, município de Itabuna, prestamos homenagem ao Amado Jorge; insistimos em afirmar que Jorge foi cidadão do mundo, mas, antes de tudo, é e será sempre – o Jorge Amado de Ilhéus.

AXÉ, AMADO JORGE!

 

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Jorge e Zelia

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O Museu da Piedade, celebrando o centenário do amigo e escritor Jorge Amado, expõe parte da sua trajetória de vida através de registros em jornais e revistas das décadas de 1960 a 1990, além de correspondência inédita: cartas trocadas com o amigo Raymundo Sá Barreto. Cartas, cartões em datas comemorativas, cartões-postais de diversas partes do mundo, onde iam, Jorge Amado e Zélia Gattai, nunca esqueciam os amigos e fiéis companheiros de boas horas, comida farta e muita, muita conversa, histórias e ‘causos’.

Cumprindo o seu papel disseminador de cultura e arte, o Museu da Piedade tem a responsabilidade de transmitir o legado da Educação Patrimonial à região. Mantenedor de uma exposição de longa duração, mobiliário e arte sacra do início do século XX, o Museu dinamiza suas ações realizando Mostras de curta duração, mas nem por isso de menor importância para a transmissão da história regional, revitalizando a memória e a identidade do homem sul-baiano.

Especialmente em agosto, ao celebrar o centenário do nascimento de Jorge Amado, a Exposição “Jorge Amado: registros de uma vida.”, revela ao público documentos pela primeira vez expostos, como a certidão de nascimento do escritor. “Aguçar a curiosidade dos estudantes e público visitante é o nosso maior objetivo. Poder compartilhar cartas que revelam um Jorge por trás dos bastidores, um pouco da sua vida pessoal, das suas relações mais íntimas com ilheenses natos é muito gratificante e permite transmitir aos mais novos parte da nossa história” é o que afirma a curadora da Exposição, Anarleide Menezes. “Essas cartas estão sob a guarda de Raymundo Sá Barreto Neto, que ora inicia o trabalho de coleta e catalogação desse rico material, o qual exposto pela primeira vez. Também integra a Exposição parte do acervo documental do Professor Ramayana Vargens referente à trajetória de vida do autor que descreveu o sul da Bahia e encantou o mundo” completa a curadora..

Vale a pena conferir!

Abertura: 03 de agosto de 2012 às 17h

Duração: De 04 a 30 de agosto de 2012. Das 8 às 18h

Para grupos, agendamos horário pelo e-mail museu@piedade.org.br

Local: Museu da Piedade

Entrada Franca

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Não tenho assistido a todos os capítulos do remake de Gabriela, mas vejo muitos deles. O autor da versão atual dá muita ênfase ao Bataclan e às suas prostitutas, às “quengas”.

Vejo o escritor Jorge Amado como um grande crítico da sociedade, da falsidade das pessoas, do falso moralismo, tão comum entre as pessoas, desde sempre: desde que a sociedade existe, muito antes dos coronéis e até os dias atuais.

Vale lembrar que a instituição do coronelismo não é uma característica das terras do cacau, mas de todo o Brasil, desde 1831, quando o Regente Feijó deu início a uma instituição que perdurou por mais de cem anos. Se os coronéis do cacau são tão famosos, é por conta do que Jorge Amado escreveu em seus romances.

Como já afirmei em outra crônica, Jorge retratava a vida de uma cidade; “por acaso” as de Ilhéus e Salvador, locais onde viveu na infância e adolescência.

As prostitutas não foram inventadas por ele, existem desde os primórdios da história. E representam a mulher desvalorizada, usada como objeto, da forma mais absurda, que pode ser possível; desprovidas de tudo, principalmente em sua dignidade de seres humanos.

O escritor Jorge Amado mostra este aspecto da humanidade, de forma muito clara. Ele conta, em Navegação de Cabotagem, que seu respeito pelas prostitutas, vem do contato que teve com elas, quando criança. Um tio seu costumava ir às casas de prostituição e levava-o junto. Lá, enquanto o tio namorava, as moças tratavam-no com o carinho e respeito que uma criança merece. E ofereciam-lhe doce. Assim, ele aprendeu a respeitá-las.

Na novela atual assisti duas cenas que me comoveram e mostraram o que Jorge pensava de tudo isso.

A primeira delas é aquela em que uma moça de família, que perdeu os pais em um acidente, foi desrespeitada pelo noivo em tudo que é mais sagrado. Ele utilizou a força física e psicológica para obrigá-la a ter relacionamento sexual com ele. A partir deste fato, perdeu o interesse por ela, rompeu o noivado e, fugindo, deixou-a na rua da amargura. Ela não teve outra saída, virou “quenga”. Aí eu pergunto: quem terá sido esta pessoa – ela existiu? Não é isso que importa, mas, com certeza isso aconteceu inúmeras vezes, não só em Ilhéus, mas em muitas cidades do Brasil e do mundo. Até na Bíblia existem narrativas que falam de prostitutas. O que importa é a narrativa, a crueldade imposta às mulheres. Eu não vivi no tempo de Gabriela, nasci bem depois, mas lembro perfeitamente de colegas que perderam o respeito das pessoas por terem perdido a virgindade, com namorados e noivos. A cena narrada por Jorge me chocou e me fez refletir sobre o assunto. Não foi algo bonito de se ver, como também muitas outras cenas mostrando o desrespeito imposto às mulheres.

Por outro lado, a novela mostra outra cena que se passa entre um rapaz novo, “amedrontado” por ter que se relacionar com a “quenga”, obrigado pelo pai machão, numa iniciação sexual que ele não desejava e a forma como a prostituta o tratou: passou o tempo jogando cartas, deixando o rapaz aliviado. Embora não tenha participado do início da vida sexual de nenhum rapaz, pois não tive nem irmãos, nem filhos, sei de muitos casos em que havia muito medo por parte dos rapazes, em um momento tão difícil para os jovens. E o respeito que a prostituta teve pelo jovem demonstra o que Jorge sentia em relação às prostitutas.

Jorge Amado, em minha modesta opinião, foi um grande escritor. Porque escrevia de forma muito agradável de ler, mas principalmente, porque sabia descrever a alma humana. E o ser humano tal qual é, nem mais nem menos, em toda a sua grandeza, mas em toda sua mesquinhez. No homem Jorge outra coisa me impressiona: foi filho de coronel, viveu a época do coronelismo no Brasil, viveu a época do Estado Novo, mas tinha enorme sensibilidade para compreender a alma feminina e suas agruras, se colocou ao lado das minorias e, em suas obras, valorizou o ser humano em toda sua plenitude. Não foi pouco o que fez. Foi um grande homem e merece todo o nosso respeito.

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