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Archive for the ‘O começo’ Category

Uma relação de amor

Em 1982, no Rio de Janeiro, li pela primeira vez São Jorge dos Ilhéus, de Jorge Amado. Após concluir a leitura do livro, viajei para Ilhéus e, ao chegar à cidade, de avião, lembrei do início do livro, sentei e escrevi, das coisas mais bonitas que já fiz, uma crônica sobre minha relação de amor com esta cidade. Baseada no que escrevi àquela época, passo a relatar o que aconteceu naquele dia e como está este sentimento hoje, mais de vinte anos depois.

Naquele dia, comecei a escrever o seguinte: pela enésima vez em minha vida chego a Ilhéus. Cidade pequena no sul da Bahia, lugar onde vive a família da minha mãe e onde nasceram minhas duas filhas. Terra que vive em função da cultura do cacau, fruto da semente de ouro, e onde moro há alguns anos. Talvez os mais felizes da minha vida, porque foi neste espaço de tempo que me descobri, que me encontrei, que iniciei a caminhada para minha realização pessoal.

Como no livro de Jorge, resolvi descrever o que via pela janela do avião. Estou sentada à janela, e acompanho no dia ensolarado, luminoso e sem nuvens, a mudança de paisagens tão familiar aos meus olhos. Percebo o rio Jequitinhonha com suas águas barrentas e suas bancas de areia. Olho para o relógio e marco o tempo, sei que dentro de vinte minutos estaremos chegando. A esta altura o barulho das turbinas muda de tom, e sinto, num movimento suave o nariz do avião se deslocar para baixo. Iniciamos o processo de descida. Fico mais atenta e vejo as cidades próximas a Ilhéus.Vejo Belmonte e Canavieiras e, entre uma e outra, o Rio Pardo, de águas também barrentas e as matas, em grande abundância, tomando conta de tudo, significando a presença das roças de cacau. A esta altura o avião já desceu bastante e posso ver a estrada Ilhéus-Una, que como na música de Sidney Müller “parece um cordão sem ponta pelo chão desenrolado”.

Mil coisas se passam na minha cabeça nestes momentos. Penso nos que me esperam com alegria e nos que me deixaram no aeroporto querendo com ansiedade me ver de novo. Penso também nas vezes em que passei na BR-101, que corta aquele trecho, apesar de não poder vê-la.

Agora algumas casinhas e a igreja, sim é a igrejinha branca e secular da vila de Olivença; a água é escura, é medicinal, faz bem à saúde; o local é ponto de encontro entre turistas locais e vindos de longe no verão, atraídos pelas praias lindíssimas.

Nestes dezoito quilômetros que se seguem, conheço cada palmo de praia e de estrada. Olho tudo atentamente como se quisesse rever um velho amigo. Tudo se passa muito rapidamente, mas há tempo para que me lembre de fatos que se sucederam em cada canto daqueles. Ah! o Cururupe, o riacho onde tantas vezes me banhei, quando ía aos domingos comer caranguejo e tomar cerveja. A reta da Embratel, a fazenda de Serralheiro, criador de gado holandês, linda, com uma casa belíssima numa colina que descortina o mar. O avião já está pronto para aterrissar, então tudo é muito visível, os carros que passam, o movimento nas praias e as primeiras casas do Loteamento Jardim Atlântico, minha primeira morada na cidade. Posso ver até os detalhes criados pelo novo dono como a piscina, a quadra poli-valente e fico pensando nos tempos em que morei ali – sete anos. Quando fomos morar na Praia do Sul, éramos pioneiros. Não havia asfalto e a estrada era péssima devido às chuvas que não param nunca de cair na região. O que tínhamos era muita lama ou muita poeira, tanta, que em dias de muito movimento não se enxergava nada. Não havia ainda luz da Coelba, a que tínhamos era de gerador.

Telefone era um sonho longínquo, quase impossível que só se realizaria alguns meses antes de deixarmos a casa. Como mudou a fisionomia do lugar nestes anos passados, quantas casas foram construídas! Água também era artigo de luxo, em abundância só a do Oceano Atlântico que enfeitava as nossas janelas. A segurança, entretanto, era completa e muitas vezes dormíamos com as portas sem trancar e nunca aconteceu nada. Era maravilhoso, não havia o que temer. Apesar das dificuldades terem sido muitas, penso que aquele tempo era muito mais fácil e acessível.

Já podemos ver a pista do aeroporto, a foz do Cachoeira, rio que já pregou tantos sustos aos itabunenses e a toda população ribeirinha; o Cristo, situado na entrada da barra, a cidade bonita, que apesar de tão conhecida enche de alegria os meus olhos.

Vejo tudo, cada detalhe é fixado em minha retina, e como de tantas outras vezes, sinto uma emoção suave tomando conta do meu coração. Um nó se instala em minha garganta, um pouco de água toma conta dos meus olhos, aumentando-lhe o brilho. É sempre assim. Sempre que o avião se aproxima desta cidade, a sua beleza me emociona; é como se fosse a volta de uma longa viagem. Não sei a que atribuir isto, talvez aqui eu tenha vivido mais, porque aqui gastei mais a minha vida.

Apesar de ter nascido carioca, e de ter passado meus primeiros vinte anos de vida no Rio, foi em Ilhéus que tive meu primeiro namorado, minha primeira paixão de adolescente em férias; ainda me lembro quando me arrumava toda para ir para a “avenida” encontrá-lo, apavorada que meu pai descobrisse e me repreendesse. É uma cidade, ou melhor, é um lugar que fala muito das experiências fundamentais na minha vida, daquelas que marcam a vida de uma pessoa. Aqui conheci o amor, aqui fui mãe duas vezes; aqui me formei, um grande sonho que me perseguiu por tanto tempo. Posso dizer que em Ilhéus aconteceu quase tudo de mais importante em minha vida. É mais do que justificável que aconteça esta emoção que domina uma alma sensível. Às vezes fico me perguntando se o que vejo é o que ela é, se não são meus olhos que por gostarem da cidade, fazem com que eu a perceba bonita. Gosto daqui, gosto muito! E digo sempre que tenho oportunidade, que sou carioca de nascimento, mas baiana por opção. Meu coração é, sem dúvida, muito mais baiano que carioca.

Um barulho duro de ferros denuncia que foi abaixado o trem de aterrissagem, o som das turbinas muda de tom, o flap é arriado um pouco mais, passamos ao largo da praia da Avenida Soares Lopes tendo uma visão geral de tudo; vemos a Pedra de Ilhéus, o Porto do Malhado, o espigão de pedras que avança para o mar, o morro da Boavista e, mais distante o Convento da Piedade, onde já ensinei Religião – meu primeiro emprego como professora.

O comissário toma o microfone e anuncia que dentro de instantes estaremos aterrissando, dá as últimas instruções e a temperatura local. Passamos por cima da estrada que vai para Itabuna, vemos muita água pertencente aos vários rios que desembocam naquele trecho, fazemos a última curva, entramos na reta final. O avião perde altura rapidamente, balança um pouco como se fosse uma folha levada pelo vento, e vai se aproximando das águas do rio e da pista. Temos a sensação que vai descer na água, mas não, é só impressão, a faixa larga e branca já é ultrapassada, os reatores são cortados, o avião toca o solo e é rapidamente freado.

Aqui estamos de novo em Ilhéus! Só resta esperar que os reatores parem, que a porta seja aberta e pisaremos novamente o seu solo. Cada qual que aqui desce traz um motivo diferente, um objetivo diferente. Da minha parte sinto-me como os personagens de Jorge Amado em “Terras do Sem Fim”, que vinham por pouco tempo, e eu bem me lembro que não queria vir para morar, mas, uma vez aqui instalados, já não podiam deixar a região por causa do mel do cacau que ficava preso aos pés. Acho que o mel grudou nos meus pés definitivamente.

A população da cidade é formada por muita gente que vem de fora; a cidade atrai de maneira definitiva quem aqui chega. Quem tem noção de universalidade, quem acredita no livre direito de escolha do homem, não pode negar que cada pessoa tenha o direito de se sentir cidadão do mundo. A terra que ele escolhe é, na verdade, a sua terra.

… e eu escolhi as terras do sem fim.

Maria Luiza Heine.

(Reescrita em 2002)

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A PROPOSTA DESTE BLOG

Desde 1994 escrevo sobre a história de Ilhéus. Fui me interessando aos poucos, à medida que os turistas me perguntavam sobre o assunto. Minha curiosidade foi crescendo, fui fazendo descobertas, publiquei muitas crônicas e alguns livros. Adquiri muitos livros, li-os todos; e li outros que não consegui comprar.

O fato mais interessante que me aconteceu, foi quando meus pais se desfizeram do apartamento que possuíam no Rio de Janeiro, com a intenção de se mudarem para Ilhéus. Minha mãe me ligou perguntando o que deveria fazer com seus livros velhos, já que minha irmã sugeria que os jogasse no lixo. Eu não tinha a menor idéia de que livros poderiam ser, mas disse, sem pestanejar: “Encaixote-os e mande para mim”. Parte, daqueles mais de 500 exemplares tratava da história de Ilhéus. O tão cobiçado livro de João da Silva Campos, ponto de partida de muitos historiadores, estava naquele lote. Tem sido de grande valia para o meu trabalho.

Quando terminei o Mestrado, em 2004, propus-me a intensificar esta escrita. Criei um site que ficou no ar por algum tempo, mas que se tornou impossível de alimentar. Agora recebi a proposta de Anabel Cavalcanti, uma ex-aluna, que me incentivou a divulgar meu trabalho, através da criação de um blog. Entre o dia que tivemos nossa primeira conversa e hoje, data de sua publicação, apenas alguns dias se passaram.

O objetivo deste blog é divulgar meu trabalho e minhas pesquisas sobre a História de Ilhéus, uma paixão que surgiu e cresceu, quando entendi da importância do conhecimento desta história para que o turismo local possa “deslanchar” e dar maior qualidade de vida aos seus habitantes.

Ilhéus, outubro de 2008.

Maria Luiza Heine

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