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Archive for the ‘Vultos Históricos’ Category

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A cidade de São Jorge dos Ilhéus perdeu mais um filho querido, um homem especial que construiu belas páginas de nossa história.

O ilheense Edmon Darwich era filho de imigrantes libaneses, e nasceu na cidade de Codó, no Maranhão, em 20 de agosto de 1925. Seu pai, como tantos outros, veio para Ilhéus atraído pela riqueza do cacau, trazendo a família, quando o pequeno Edmon tinha apenas oito anos de idade.

Cursou o ensino primário no colégio General Osório e o ginásio no Instituto Municipal de Educação, naquela época Ginásio Municipal. Concluiu os estudos na cidade de Salvador, onde cursou Eletromecânica. Na adolescência havia aprendido o código Morse, incentivado pelo pai, que não gostava de ver seus filhos desocupados nas férias escolares,  dando-lhe oportunidade do primeiro emprego como radiotelegrafista no jornal A Tarde.

De Salvador, Darwich, como era conhecido, retornou para Ilhéus, contraindo matrimônio com D. Irecê, no dia 5 de fevereiro de 1955; tiveram 4 filhos. Construíram uma verdadeira família, daquelas que honram a sociedade ilheense.

Darwich foi comerciante, político, cidadão de atividade intensa e profícua. No livro Minha Ilhéus, José Nazal fala de nossos intendentes e prefeitos. Sobre Darwich, diz o seguinte:

“Na primeira disputa eleitoral entre a ARENA e o MDB, foram candidatos a prefeito Edmon Darwich e Gilberto Fialho Costa, respectivamente. Darwich venceu a eleição para a realização de um mandato tampão de dois anos”.

Mesmo no curto período do governo, conseguiu realizar diversas obras, a exemplo do muro de contenção da Avenida Lomanto Júnior, pavimentação do prolongamento da mesma avenida e pavimentação da Avenida Princesa Isabel; construiu diversas escolas, ampliou as arquibancadas do Estádio Mário Pessoa e retirou os trilhos da antiga estrada de ferro, com recomposição do calçamento.

No seu governo foi inaugurada a primeira etapa do Porto de Ilhéus, com a presença do Ministro Mário Andreazza e do Governador Antonio Carlos Magalhães. Foi um governo marcado pela austeridade e seriedade.

Edmon Darwich voltou à vida pública no período de 1997 a 2004, como Secretário Municipal de Finanças, em dois mandatos do prefeito Jabes Ribeiro (segundo informações de Nazal, no livro citado).

Como cidadão, foi membro fundador do MAMPI (Movimento da Ala Moça pelo Progresso de Ilhéus), Provedor-substituto da Santa Casa de Misericórdia, diretor da Companhia Telefônica Sul Baiana, Membro fundador e primeiro secretário da CODECIL (Comissão do Desenvolvimento Econômico e Industrial de Ilhéus), embrião do Distrito Industrial de Ilhéus.

Foi também administrador da Estância Hidromineral de Olivença, quando a localidade era administrada pelo Estado. Foi presidente do Rotary Club de Ilhéus e da Associação Comercial (ACI). Foi avaliador do Banco do Brasil, de outras instituições bancárias, e dos projetos do PROTERRA (projeto do Governo Federal). Recebeu, com muita justiça, a Comenda em 1° Grau da Ordem de São Jorge dos Ilhéus.

Edmon Darwich foi um cidadão que deixou um nome limpo e honrado, como herança para sua família e seus conterrâneos. Foi um homem de bem e vai deixar muita saudade.

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No último sábado, a Academia de Letras de Ilhéus realizou a sessão da saudade, dedicada ao seu ilustre membro, Manoel Carlos Amorim de Almeida. A palestra foi proferida pela acadêmica Eliane Sabóia Ribeiro e reuniu a viúva Sara, o irmão César, filhos e netos do homenageado, além de muitos amigos. Bonitas e carinhosas as palavras do filho Guilherme, em nome da família. Bonito ver os netos, desde os mais velhos, como Júlia já com o filhinho, como os pequenos, de Renée(zinha), que era como Manoel Carlos a chamava, para diferenciar da tia Renée Albagli Nogueira, também presente, com sua filha Cláudia, menina por quem tenho a maior admiração; educada, inteligente e cortês com os mais velhos. E a pequena de Renéezinha, autografando muito compenetrada? Estava uma graça! Também uma palavra muito especial para o querido primo (que é como nos tratamos) Isaac Albagli Filho, também na mesa, distribuindo autógrafos e mensagens, em nome do avô, objeto das homenagens daquela noite, que contou com a presença de muitos acadêmicos.

A reunião teve dois momentos: o primeiro, já tratado; e o segundo, o lançamento do livro Os Maximilianos e outras histórias, escrito por Manoel Carlos e de conteúdo muito precioso para os historiadores. Foi editado pela Editus, da UESC. Toda a equipe responsável pela editoração, chefiada pela também acadêmica, Baísa Nora, estava presente, com a finalidade de homenagear o autor.

O livro, cujo assunto abordado é muito interessante para o conhecimento de nossa história, teve como prefaciador, o acadêmico e presidente do Instituto Histórico e Geográfico, doutor em História, André Luiz Rosa Ribeiro. Diz André, e nós concordamos: “Manoel Carlos Amorim de Almeida é desses homens cuja maturidade não faz perder o viço da inquietação, quanto a ser útil à sociedade em que nasceu, viveu, casou e criou os seus”. Nós lamentamos muito que tenha partido quando ainda poderia fazer muito por esta cidade que tanto amou. Mas, temos certeza, pelo que conhecemos, de que seus filhos e netos não deixarão morrer o seu trabalho.

Sobre o livro, podemos dizer que os ensaios e artigos foram publicados no Caderno Cultural do jornal A Tarde, de Salvador e no Diário de Ilhéus. A ideia de escrever sobre os Maximilianos veio da observação de que havia certa confusão quando se falava sobre um ou outro. Devo confessar que, em certa ocasião, eu também tive esta dúvida, porque falava-se sobre Maximiliano, sem especificar o sobrenome. Lembro bem que certa vez perguntei-lhe sobre este assunto. Afinal Maximiliano esteve em Ilhéus em 1817 ou em 1860? Foi aí que ele me explicou a diferença: não era um, eram dois.

O príncipe alemão Maximiliano de Wied-Neuwied esteve em Ilhéus em 1817. Sobre esta viagem escreveu o livro Viagem ao Brasil, toda feita a pé, a partir do Rio de Janeiro, cuja finalidade foi observar a fauna, a flora e as gentes que habitavam toda esta região. O príncipe enfrentou grandes dificuldades como “estradas péssimas ou inexistentes, chuvas, falta de víveres, cansaço da tropa de burros e dos carregadores”, enfim, uma série de problemas que somente com persistência conseguiu vencer.

O Maximiliano alemão atravessou as terras do Rio de Janeiro, Espírito Santo e extremo sul da Bahia (Alcobaça, Prado, Porto Seguro e Belmonte), chegando às terras de Vila Nova de Olivença, limite do território de Ilhéus. Sobre a vila de Ilhéus o príncipe descreveu o que viu. Dos prédios existentes citou a igreja de N. S. da Vitória, dentro de uma mata próxima, a de São Jorge e a capela de São Sebastião, já demolida.

O príncipe alemão Maximiliano Neuwied pesquisou os índios em Ferradas, foi à Lagoa Encantada e sua viagem demorou certo tempo.

O arquiduque Maximiliano da Áustria esteve em Ilhéus no ano de 1860, numa viagem curta, durou apenas sete dias; seu livro sobre esta viagem recebeu o nome de Mato Virgem e está em vias de ser lançado pela Editus. Ele foi procurar conterrâneos seus que moravam em fazendas próximas. Foram eles, Ferdinand Von Steiger-Mussingen e Henrique Berbert.

Manoel Carlos fala da festa em homenagem a São Sebastião presenciada por Maximiliano, bem diferente da atualidade, bem mais próxima da forma como é realizada em Portugal.

Gostei muito do livro. Vale a pena ler.

Manoel Carlos partiu, não está mais entre nós, mas sua obra permanecerá.

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Esta semana recebi uma mensagem de Waldimiro de Souza, que está sempre me informando sobre trabalhos realizados a respeito do grande geógrafo Milton Santos.

A matéria é do jornalista João Tavares.

A Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados realiza nesta terça-feira, dia 1º de dezembro, às 14 horas, no Plenário 10 do Anexo II da Casa, um Seminário para debater a obra do geógrafo Milton Santos. A autora do requerimento é a Deputada Lídice da Mata (PSB/BA), com o apoio e a subscrição das Deputadas Maria do Rosário (PT/RS) e Alice Portugal (PcdoB/BA) e dos Deputados Emiliano José (PT/BA) e Ruy Pauletti (PSDB/RS).

Eis a programação do Seminário:

Expositores e temas:

1 – Professor Aldo Dantas – UFRN

Milton Santos – Teoria Geográfica, Globalização e Terceiro Mundo

2 – Professor Fernando Conceição – UFBA

Milton Santos – Negro e Intelectual

3 – Professora Amália Inêz Geraiges de Lemos – USP

A Obra Revolucionária de Milton Santos

4 – Professor Edilson Nabarro – UFRGS

Milton Santos e a Negritude.

Perfil:

Apesar de graduado em Direito, Milton Santos é considerado o mais importante geógrafo brasileiro, reconhecimento este que se estende às suas qualidades de intelectual que vão além das fronteiras nacionais.

Natural do município baiano de Brotas de Macaúbas, Milton Santos, aos 13 anos já dava aulas de matemática no ginásio em que estudava, o Instituto Baiano de Ensino. Aos 15, passou a lecionar geografia. Ingressou na faculdade de Direito e atuou no movimento estudantil, chegando a ser eleito vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Em 1948, formou-se pela Universidade Federal da Bahia, mas não deixou de se interessar pela Geografia, tanto que fez concurso para professor catedrático no Ginásio Municipal de Ilhéus com o objetivo de lecionar esta disciplina.

Nesta cidade dedicou-se à atividade jornalística, estreitando sua amizade com políticos de esquerda. Retornou para Salvador e tornou-se professor na Faculdade Católica de Filosofia e foi editorialista do "A Tarde", onde publicou diversos artigos de geografia. Em 1958, concluiu doutorado (com a tese "O Centro da Cidade de Salvador") na Universidade de Estrasburgo (França).

Tendo viajado pela Europa e pela África, publicou em 1960 o estudo "Mariana em Preto e Branco". Defendeu com brilhantismo a tese "Os Estudos Regionais e o Futuro da Geografia" na Universidade Federal da Bahia, da qual foi um dos fundadores do Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais.

Com o golpe militar de 1964, Milton Santos foi preso e depois exilado. Como professor convidado lecionou durante três anos na Universidade de Toulouse (França). Na década de 1970 estudou e trabalhou em universidades no Peru, na Venezuela e nos EUA, onde foi pesquisador no Massachusetts Institute of Technology (MIT).

Retornou ao Brasil em 1977, trazendo consigo a obra "Por uma Geografia Nova". Anos depois galga o posto de professor titular da Universidade de São Paulo (USP). Recebeu, em 1994, o Prêmio Vautrim Lud, considerado "o Nobel da Geografia". Foi consultor da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Milton Santos acrescentou importantes discussões na geografia, como a retomada da leitura de autores clássicos, além de ter sido um dos expoentes do movimento de renovação crítica da disciplina numa perspectiva holística.

Debater e estudar a obra deste que é um dos mais importantes intelectuais do Brasil, homem que não só superou preconceitos de cor e de classe social, mas que também foi pioneiro na análise crítica da globalização e suas consequências desiguais para grande parcela da população mundial, é um dever da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados que, com essa iniciativa, visa resgatar e difundir uma obra tão importante e grandiosa.

A CIDADE DE SÃO JORGE DOS ILHÉUS

TEM UMA DÍVIDA COM O PROFESSOR MILTON SANTOS

51anos 1977

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CASTRO ALVES

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A Academia de Letras de Ilhéus foi fundada em 14 de março de 1959, dizia eu na semana passada. Por que a escolha desta data? Porque este dia é considerado o dia da poesia; porque foi em 14 de março, no ano de 1847, que nasceu um dos maiores poetas brasileiros: Antonio Frederico de Castro Alves.

Os patronos da nossa Academia de Letras de Ilhéus são: Castro Alves e Rui Barbosa. Todo mundo já ouviu falar em Castro Alves, o poeta dos escravos, que empresta seu nome a ruas e praças em muitas cidades, sobretudo na Bahia. Quem não sabe que “a Praça Castro Alves é do povo”? (Caetano Veloso). Mas, resolvi falar sobre ele, porque se o conhecemos, certamente ainda há muito por conhecer.

Castro Alves nasceu na fazenda Cabaceiras, localizada a 42 quilômetros da vila de Nossa Senhora de “Curralinho”, hoje Castro Alves. Cedo perdeu sua mãe; sempre conviveu com pessoas que cultivavam o hábito de ler poesias. Era um tempo em que os saraus estavam na moda e, tanto em casa como na escola, o costume de declamar poesias era comum.

Aos 17 anos escreveu suas primeiras poesias. Em 1862, quando seu pai se casou pela segunda vez, partiu para o Recife com o irmão Antonio José. Em maio daquele ano submeteu-se à prova de admissão para ingressar na Faculdade de Direito, e foi reprovado. Mas logo se tornou conhecido, sendo um poeta requisitado nas sessões públicas da Faculdade, nas sociedades estudantis, na platéia dos teatros, onde quer que houvesse oportunidade.

Muito cedo também aconteceram os romances. Em 1863, conheceu a atriz portuguesa Eugênia Câmara que se apresentou no teatro em Recife. Ela teria enorme influência sobre o jovem e brilhante poeta. Neste mesmo ano já se manifestava a tuberculose, enfermidade que o levaria deste mundo. No ano seguinte conseguiu se matricular na Faculdade de Direito do Recife. Posteriormente se alistou no Batalhão Acadêmico de Voluntários, para lutar na Guerra do Paraguai.

Em 1866, Castro Alves voltou ao Recife, matriculou-se no segundo ano da faculdade; fundou, juntamente com Rui Barbosa e outros amigos, uma sociedade abolicionista.

Nesta época passou por uma fase de intensa produção literária, cujo trabalho foi voltado para duas grandes causas: a abolição da escravatura e a proclamação da República. Neste mesmo ano ligou-se afetivamente a Eugênia Câmara.

Esteve em São Paulo representando o drama Gonzaga ou a Revolução de Minas, partindo depois para o Rio. Onde esteve foi reconhecido e ovacionado pelo seu trabalho; contava pouco mais de vinte anos. No Rio foi recebido por José de Alencar e visitado por Machado de Assis.

Foi reconhecido em vida, por seus poemas líricos e heróicos, escrevendo seu nome, mais do que na poesia, na história da poesia no Brasil. Seus poemas foram publicados nos jornais do Rio e de São Paulo e recitados nas festas literárias. Causavam enorme impressão. Foi contemporâneo dos maiores talentos da literatura brasileira: Fagundes Varela, Ruy Barbosa, Joaquim Nabuco, Afonso Pena e muitos outros. Era um dos grandes, e por eles, respeitado.

Segundo Euclides da Cunha, Castro Alves pregava o advento de uma era nova. Constâncio Alves afirmou que sua poesia possuía “a magnificência de versos que até então ninguém dissera, numa voz que nunca se ouvira”.

Suas principais obras são: A canção do africano, O Sábio, A Revolução de Minas, já citada, Tragédia no Mar, que passou a se chamar O navio negreiro; A cachoeira de Paulo Afonso, Espumas flutuantes, Os escravos, Hinos do Equador e muitas outras.

Por causa da tuberculose e, após separar-se de Eugênia Câmara, decidiu passar uns dias em Caetité (Bahia), para se recuperar. Durante uma caçada deu um tiro no pé, que lhe rendeu triste conseqüência, pois acabou tendo que amputá-lo. Turberculoso e mutilado, teve que se render à tragédia pessoal. Conheceu o apogeu e o reconhecimento do público e dos contemporâneos ilustres. Apareceu em público pela última vez em 10 de fevereiro de 1871, numa récita beneficente. Morreu aos 24 anos, em 10 de julho de 1871 na cidade do Salvador, deixando uma grande produção literária que atravessou os séculos.

Por tudo isso foi escolhido patrono da cadeira número 7 da Academia Brasileira de Letras. E patrono, juntamente com Ruy Barbosa, da Academia de Letras de Ilhéus.

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Na semana passada tive a grata surpresa de receber de presente o livro “Boa Viagem de minha infância”, do acadêmico José Cândido de Carvalho Filho. Como estou com certa quantidade de livros para ler, e sem encontrar tempo, não pretendia lê-lo por agora. Mas, por mera curiosidade, dei uma olhada nas fotos, examinei a impressão, que está de excelente qualidade… e li o começo do livro. Livro bom é muito interessante, porque a gente só vai ler uma página e quando se dá conta não consegue largar. Foi assim com a obra citada.

O livro tem uma linguagem simples, “de ordem inteiramente sentimental”, como explica o autor na Breve Explicação, que nos invade e faz descobrir um Brasil totalmente desconhecido, ou talvez esquecido por nós. Hoje o mesmo foi assunto que utilizei em sala de aula, não tanto pela infância do autor, em particular, mas também, porque ao escrever da sua infância, José Cândido nos transporta para um Brasil tão longe e tão perto de nós.

Muitas coisas me impressionaram no livro. Para quem ainda não leu, vale à pena uma explicação. O Ministro José Cândido de Carvalho Filho, aposentado do Superior Tribunal de Justiça (STJ), nasceu no interior do Ceará, na pequena cidade de Boa Viagem, em zona de extrema seca. A angústia de sua mãe, rezando pela chuva, me fez recordar uma situação semelhante, que ainda trago em minhas lembranças. Meu pai, nascido em Rui Barbosa, zona também de muita seca, tinha os mesmos sentimentos em relação à valorização da chuva, e passou isto para mim. A falta de chuva e a seca geram em mim a sensação de angústia e apreensão. E a chegada dela me enche de alegria.

Ele começa a narrativa falando do seu nascimento, filho caçula de uma enorme prole, da qual somente metade conseguiu sobreviver, sendo apenas o menino e suas oito irmãs. Seu pai era comerciante e prefeito da pequena cidade.

O livro mostra o que parece um “baú de recordações”. Tudo é lembrado nos mínimos detalhes, fazendo o leitor mergulhar na narrativa. Ele descreve sua família, os laços de parentesco, casamentos. José Cândido não tem escrúpulos em narrar seus medos, sua fragilidade, as dificuldade passadas pela família, em meio à seca que assolava o Ceará; se mostra como somos todos: essencialmente humano…

Conta também como foram seus primeiros anos de estudo. Como acontecia àquela época, aprendia-se em casa. Ele aprendeu com as irmãs, “sobretudo com a Edite, a mais paciente”. Ela ensinou-lhe as primeiras orações.

O capítulo destinado à sua mãe é muito comovente. Demonstra o amor de um filho dedicado, certamente, por seu temperamento, mas por ser o caçula, de uma mãe não tão jovem. “Tenho até hoje um imenso amor pela minha mãe”. E, aparece então, um homem dividido. De um lado é grato à família pelo esforço em lhe dar a oportunidade de estudar e mudar de vida: “atendi ao seu pedido para estar hoje onde estou”. E mais, “a cada dia, alegremente, renovo minha saudade e os agradecimentos por tudo que ela fez pelo seu filho”.

Por outro lado, lamenta que este esforço tenha custado a convivência com os mesmos. “Ainda assim, a despeito de todas as vantagens da instrução que tive, sinto amargamente haver-me afastado tão cedo, e por tanto tempo, do convívio da minha família”. As lembranças chegam a doer. “Hoje, tenho a convicção de que é um castigo inominável, retirar uma criança do seio dos seus entes queridos e interná-lo num ambiente estranho e quase sempre hostil aos seus hábitos de vida”.

José Cândido encerra o livro com o capítulo A Saga do Canindé, onde narra sua saída de casa para estudar em colégio interno, com padres alemães, aos doze anos de idade. Sobre o assunto, afirma que o capítulo “reflete as dificuldades quase lendárias sofridas por uma criança para completar seus estudos, vivendo numa cidade quase afastada do mundo”.

Sua viagem, desde Boa Viagem até Canindé, é algo comovente. Três dias montado em jumento, com um sobrinho de idade parecida, acompanhado de um antigo funcionário de seu pai, debaixo de um sol causticante. Para se alimentar utilizavam paçoca com rapadura, pouca água para beber, e o coração apertado pela imensa saudade da família. A chegada ao colégio foi de muito sofrimento, pela diversidade do ambiente.

O Ministro José Cândido de Carvalho Filho estudou em Canindé e Fortaleza. Transferiu-se para Salvador onde fez bacharelado em Direito e licenciatura em História. Foi quando veio ensinar História Geral, como professor catedrático do IME, ao lado de Milton Santos. Fez doutorado em Direito Penal.

Esse ilheense de coração, membro da Academia de Letras de Ilhéus, casado com uma ilheense tem seu coração ainda atrelado ao chão da sua infância.

É uma pessoa que ajuda a construir a história de São Jorge dos Ilhéus e merece nossa homenagem.

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AMILTON IGNÁCIO DE CASTRO

(Série Vultos Históricos)

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“Permaneci entre vós, docendo dicitur, ensinando e aprendendo. Aprendendo mais, na minha ignorância, do que ensinando, na minha singela vocação de servir”. (Amilton Ignácio de Castro)

Neste 17 de abril de 2009, a Universidade Estadual de Santa Cruz, a Academia de Letras de Ilhéus, a Ordem dos Advogados do Brasil – subseção de Ilhéus, a Câmara Municipal de Ilhéus e a família Castro realizam, no Centro de Arte e Cultura Paulo Souto, na UESC, a solenidade do centenário de nascimento do grande ilheense, Professor Amilton Ignácio de Castro.

Sobre ele escreveu o professor Soane Nazaré de Andrade: “A educação haveria de constituir uma preocupação constante ao longo de toda a vida de Amilton. Para ele, sempre devotado à cultura, nenhuma maneira de servi-la traria mais dividendos à sociedade do que os resultantes do empenho na educação em todos os seus níveis”.

E disse mais: “Quando, portanto, trouxemos a Ilhéus a idéia de criação de uma universidade de âmbito regional, a partir da instalação de uma Faculdade de Direito, a presença de Amilton foi constante em todos os encontros e reuniões que passamos a promover. A sua participação era sempre séria, leal, criativa e pronta”.

Segundo conta o Prof. Soane, desde o primeiro encontro que tiveram para pensar a Faculdade de Direito de Ilhéus, um núcleo foi formado. Dele faziam parte, Amilton Ignácio de Castro, Francolino Neto, Henrique Cardoso e Silva, José Cândido de Carvalho Filho e Alves de Macedo. Os três últimos formavam a força política necessária para dar suporte ao projeto. “Henrique – ou Henriquinho, como o chamavam todos os ilheenses – era o prefeito eleito no último pleito; José Cândido era o deputado estadual, e Alves de Macedo o deputado federal. Todos eram meus amigos e estavam comprometidos com a idéia de criação da universidade regional”.

Para dar andamento ao processo foi criada a Sociedade Sul-Baiana de Cultura, sob a presidência do bispo diocesano Dom Frei Caetano Antônio Lima dos Santos.

No dia dois de março de 1961 foi realizada a aula inaugural, proferida pelo professor Soane Nazaré, com a presença do Governador Juracy Magalhães e no dia onze de dezembro de 1965, diplomou-se a primeira turma de Bacharéis em Direito, em solenidade realizada no Instituto Nossa Senhora da Piedade.

Na Política. “Homem público por natureza, Amilton Ignácio de Castro haveria de participar dos embates políticos da cidade e emprestar o seu nome às disputas eleitorais. Não era dado à violência verbal nem às explosões de ódio que tanto alimentam as paixões partidárias. Sereno, mas firme, escolhia a sua trincheira e se entregava ao combate sem vacilações. Era um democrata.

Em abril de 1967 tomou posse como vereador eleito. Voltaria à Câmara Municipal para a legislatura nos períodos de 1971 a 1974, tendo sido eleito pelos seus pares como presidente da Câmara. Foi reeleito no período de 1973 a 1976.

“A atuação eleitoral de Amilton espelhava o seu perfil. Não saía a pedir votos em proveito próprio. Em sua casa, recebia amigos e eleitores e conversava sobre as coisas da cidade. E agradecia cavalheirescamente a promessa do apoio”. Foi vereador numa época em que estes não recebiam proventos.

A Literatura. Amilton amava os historiadores, a literatura ficcional e a poesia. Lia e, no pouco tempo que lhe sobrava, escrevia crônicas e contos, deixando tudo inédito e de difícil consulta. Um de seus romances tem o nome de Maria Bonita. “O espírito gregário e o gosto pelas belas letras fizeram-no imortal, membro que era da Academia de Letras de Ilhéus”. Ocupou a cadeira 31, da qual é patrono Napoleão Level.

A homenagem realizada é um justo tributo a quem muito honrou sua passagem pela terra dos homens.

OBS.: Material cedido pela EDITUS (UESC)

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Jorge Amado, o prefeito Antonio Olimpio
e Amilton Ignácio de Castro

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Série Vultos Históricos

José Lourenço da Fonseca Silva nasceu na cidade de Rio Real, nordeste da Bahia, filho de Claudemiro Manoel da Silva e Ana Fonseca da Silva, no dia 10 de agosto de 1922. Cursou apenas até o terceiro ano primário, mas, àquela época este fato não representava uma grande dificuldade, pois eram poucos os que tinham acesso à escola. Durante o tempo em que viveu na sua cidade natal trabalhou como agricultor na fazenda do pai; trabalhou duro na enxada, catando algodão e ordenhando vacas.

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Já morando em Ilhéus trabalhou como sapateiro na Sapataria Maron; trabalhou também no Figurino Mundial e na Casa Única, onde foi proprietário.

José Lourenço contraiu matrimônio no dia 8 de maio de 1948 com a jovem Odete Calasans da Fonseca. O casal, que iria comemorar 61 anos de casado, teve seis filhos, dos quais dois já são falecidos.

Suas atividades profissionais são inúmeras e cada vez mais relevantes. Foi servidor do Instituto de Aposentadoria dos Industriários – IAPI, como chefe de seção  durante 20 anos. Também atuou na política, tendo sido eleito vereador em duas legislaturas, nos anos de 1955 e 1963, diga-se de passagem, quando vereador não recebia salário. Também foi agente da Previdência Social, em Ilhéus.

Quando estava em sua segunda legislatura foi autor do projeto para a criação da bandeira do município, tendo encomendado ao professor Leopoldo de Campos Monteiro a criação dos símbolos heráldicos (bandeira e brasão).

A bandeira  foi hasteada pela primeira vez  no dia 15 de agosto de 1965, na visita do então presidente, Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco; o presidente recebeu o titulo de cidadão ilheense, outorgado pela Câmara de Vereadores em projeto apresentado pelo Presidente José Lourenço da Fonseca Silva, quando da inauguração da ponte Lomanto Júnior.

Foi eleito presidente da Câmara de Vereadores por três períodos e, no governo de Herval Soledade, foi  Prefeito substituto do titular por 12 vezes.

No ano de 1967 recebeu o título de gratidão da Faculdade de Direito de Ilhéus. Em 1981 foi promovido a fiscal da Previdência.

Recebeu os seguintes diplomas e medalhas:

•    Diploma e medalha de ouro como Produtor Modelo – INCRA 1984, recebido na Prefeitura na gestão Jabes Ribeiro;
•    Diploma amigo da 18º CSM de Ilhéus;
•    Diploma Empresarial Destaque Político de 1988;
•    Titulo de Cidadão de Ilhéus em 21/12/1988;
•    Diploma Amigo da Estiva de Ilhéus – 1993;
•    Escolhido Homem do Ano em 1993;
•    Diploma e Medalha de ouro como amigo da Marinha em 1995.

Nos oito anos em que exerceu o mandato de vereador, presidente da câmara, e no exercício de prefeito interino, doou seus vencimentos às entidades filantrópicas, como ao Abrigo São Vicente de Paulo, Casa da Criança, Escolas Profissionais de Datilografia e de Corte e Costura, mantidas pelas Ursulinas da Piedade; doou também todas as máquinas dos dois cursos, não usando nenhum recurso da prefeitura, nem freqüentando teatro, cinema e outras vantagens oferecidas pelo cargo.

Foi autor da Lei que fundou o bairro Jardim Savóia; implantou a rede de água e esgoto, assinando convênio com a SUDENE; criou um projeto de lei pagando o 13º salário para os Funcionários Públicos municipais; foi membro do Rotary Club e recebeu o Troféu Leão de Ouro, do Lions Clube de Ilhéus. Foi considerado a personalidade que mais contribuiu com a Arte e Cultura em 1994.

Foi homenageado pelo Centro de Assistência ao paciente Renal em 1994; pela turma de Auxiliar de Enfermagem do CETEB, em 2001, como também pelos formandos de Enfermagem, neste mesmo ano. Foi escolhido Diretor Financeiro da reforma do INSP (Instituto Nossa Senhora da Piedade), fazendo parte da Comissão criada pelo então superintendente da TV Santa Cruz, Dr. Lício Fontes. Foi Presidente do Conselho Fiscal do Colégio da Piedade das Ursulinas e recebeu o Título de Comendador, oferecido  pelo Prefeito Jabes Ribeiro.

Foi eleito Provedor da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Ilhéus, em 1987. Foi reeleito por seis mandatos. Neste período foram construídos a UTI, o Banco de Sangue, os serviços de Oncologia e de Tomografia Computadorizada; construiu uma Maternidade decente para os carentes, o Centro Cirúrgico, o Berçário, a Maternidade Nova, o Centro Obstétrico e equipamentos novos em convênio com o Ministério da Saúde. No ano de 2008 construiu o pavilhão novo com apartamentos e adquiriu um gerador de energia para a instituição.

No último domingo, o Pai o chamou: “chega, você já fez demais, agora precisamos de você aqui”. José Lourenço partiu, mas não morreu; ficará para sempre no coração dos muitos que o amam e nas suas obras. Descanse em paz, amigo!

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José Lourenço com D. Detinha e a filha Ana Virginia

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Série Vultos Históricos

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Lá pelos idos de 1926, veio morar em Ilhéus, o belmontense Sosígenes Marinho da Costa, funcionário dos Correios e Telégrafos. Tornou-se amigo de Jorge Amado e tinha o hábito de freqüentar o “palacete” recém construído pelo coronel João Amado de Farias. Posteriormente, se tornou também, secretário da Associação Comercial de Ilhéus. Era um homem taciturno, tímido, de poucos amigos, de poucas palavras, mas de muita leitura. Sem ser um viajante conhecia o mundo inteiro, certamente através do grande contato que tinha com os livros.

Este homem solitário gostava também de escrever e, escrevia seus poemas, para guardar, pois não se preocupava em publicá-los. Não fosse a insistência dos amigos não teria publicado em 1959, seu primeiro livro, de poemas, intitulado Obra Poética. Este livro obteve os prêmios Paula Brito, no Rio, e Jabuti, pela Câmara Brasileira do Livro, em São Paulo.

Este poeta desconhecido teve em Jorge Amado um amigo fiel que lhe reconhecia as qualidades literárias e não media esforços para que suas obras fossem reconhecidas pelo valor que possuem. No livro São Jorge dos Ilhéus existe um personagem, o poeta Sérgio Moura, que trabalhava na Associação Comercial, homem que gostava de se exercitar ao piano, de escrever poesia e namorar mulher casada. A associação do personagem ao poeta valeu a Amado um distanciamento ressentido, pois o poeta não gostava de ser notado. Posteriormente, na reaproximação, Jorge Amado conseguiu que o Partido Comunista financiasse uma viagem para Sosígenes conhecer a China.

Vinte anos depois do lançamento da Obra Poética, o poeta, crítico e ensaísta José Paulo Paes, iniciou um grande movimento para reivindicar um lugar para Sosígenes como um dos grandes poetas do modernismo brasileiro, assim como torná-lo conhecido. Paes o definiu como “o maior poeta da Bahia, depois de Castro Alves”.

A cidade de Ilhéus rendeu grandes homenagens a esse seu filho adotivo, em 2001, por ocasião do centenário de seu nascimento. Na ocasião, o presidente da Fundaci era o escritor Hélio Pólvora, que juntamente com Gerana Damulakis, James Amado, Aleilton Fonseca e muitos outros nomes importantes da literatura baiana, se reuniram para movimentar o cenário literário da Bahia, com o objetivo de tornar o poeta mais conhecido. Foram lançados os seguintes livros: Poesia Completa, com 560 páginas, Crônicas & Poemas Recolhidos, A Sosígenes com afeto, além de um CD com seus poemas, recitados por grandes atores globais, além da revista Iararana.

Naquela ocasião era prefeito de Ilhéus o acadêmico Jabes Ribeiro, também mentor das homenagens porque leitor dos poemas de Sosígenes. Numa homenagem ao poeta, sugeriu que se desse o nome de Iararana, ao parque localizado em Olivença, uma faixa de Mata Atlântica, onde está localizado o Centro Cultural de Olivença.

Mas, afinal o que é Iararana? Em 1934 Sosígenes Costa escreveu um poema épico intitulado Iararana, onde ele conta a saga do cacau e a ocupação da região, pelos portugueses e sua luta com os índios. Este poema, que foi utilizado como título de uma importante revista literária lançada em Salvador, foi tema de pesquisa do Mestrado de Cultura e Turismo, realizado pelo historiador Durval Oliveira. A obra de Sosígenes também tem sido estudada por diversos professores e pesquisadores da nossa língua.

A maior importância de estudarmos (e conhecermos) nossos escritores e poetas está em que, somente dessa forma é possível estabelecermos uma ação efetiva para aumentar nossa auto-estima e reforçar nossa identidade.

Embora nosso poeta só tivesse publicado, em vida, um único livro, ele se utilizava de jornais e revistas para publicar o que escrevia. Assim publicou poemas no Diário da Tarde, de onde era colaborador. Também foi colaborador das revistas O Momento e Arco & Flexa, ligadas ao modernismo baiano.

A cidade de São Jorge dos Ilhéus, “capital cultural do sul da Bahia”, fez questão de reconhecer, no seu centenário de nascimento, o valor deste poeta que viveu nesta cidade por mais de vinte anos; ele é considerado um ícone da poesia baiana e brasileira, e foi incluído na antologia Os Cem Melhores Poetas do Século XX, organizado por José Nêumanne.

Chuva de ouro (1928)

As begônias estão chovendo ouro,
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai ficando louro
e o bosque inteiro redourado fica.

Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas nos galhos da oiticica.

Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.

E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!

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– O BAIANO DE ILHÉUS –

manoel carlos

Esta semana fomos surpreendidos com a triste notícia da partida de Manoel Carlos, o Baiano de Ilhéus (para seus amigos internautas).

Manoel foi um amigo muito querido, um companheiro que falava a mesma língua da paixão por Ilhéus e o gosto pelo seu patrimônio histórico e cultural. Assim que soube da notícia, pensei que minha matéria de hoje teria que ser sobre ele. E aí me lembrei do dia em que ele ingressou na Academia de Letras e fui convocada a fazer sua saudação. As palavras a seguir foram retiradas desta matéria publicada em 2006.

Existem coisas que acontecem quando somos crianças, que a memória insiste em guardar. Dentre estas, estão minhas vindas a Ilhéus, quando ainda muito pequena, ia visitar os parentes mais velhos, tio Virgilio e tia Duzinha, tio Afrânio, tia Alice, mãe do ilustre confrade. E eu gostava de fazer estas visitas, gostava de rever os parentes mais idosos. É desta época que lembro de Manoel Carlos e seus irmãos, seus filhos que, mesmo tendo um vínculo sanguíneo mais distante, sempre nos tratamos como “primos”.

Não lembro exatamente quando nos aproximamos mais de perto, pois a sensação é de que sempre estivemos por perto já que, temos algo muito forte em comum, que é nosso amor pela história de Ilhéus. Com a aproximação veio a admiração pelo homem que não mediu esforços para lutar e defender a cidade em que nasceu e que amou. O presidente do Instituto Histórico que não se conformou com o fato de que a toponímia da cidade fosse tratada de qualquer maneira e exigiu que este assunto fosse encarado com seriedade. Assim formou uma comissão para pesquisar o nome verdadeiro da Capitania e de sua vila capital. Preocupado com o monumento ao Dois de Julho, data da maior importância para nosso Estado, publicou artigos exigindo do poder público respeito ao único monumento da cidade alusivo à Independência da Bahia.

Foi este homem, apaixonado e valente, lutador pelas causas de sua região, que a Academia de Letras de Ilhéus recebeu naquele dia, como mais um de seus membros, ocupando a cadeira de número 33, ocupada pelo escritor Jorge Medauar.

Manoel Carlos Amorim de Almeida escreveu por mais de sessenta para jornais locais e de Salvador e, em 1995, publicou, pela GRD Editora, o livro Porto de Ilhéus e etc., etc. etc., uma coletânea das crônicas publicadas em jornais. Em um futuro muito próximo vai ser publicado um livro seu pela Editus. Pena que ele não esperou para vê-lo pronto.

Lutou pela manutenção do nome de Ilhéus na denominação do Porto Internacional. “O que não podemos e nem devemos aceitar é que o nome de Ilhéus seja eliminado da denominação de seu porto, que tanto representa para a região e para o país, quando os demais portos nacionais, sem uma exceção sequer, dos grandes aos pequenos, têm os nomes de suas respectivas cidades”.

Ele foi (palavras suas), um intransigente defensor do Estado de Santa Cruz, por entender que a junção das capitanias de Porto Seguro, dos Ilhéus, de Itaparica, com a da Bahia, beneficiou apenas a capital e o Recôncavo. Ele partiu sem perder a esperança de que esta região tivesse o desenvolvimento que merece.

Sobre a cacauicultura, ele se declarava um grande conhecedor da região e da formação de suas cidades, a partir dos aglomerados urbanos surgidos ao lado das roças de cacau. Sobre as ações institucionais que mantêm relação com o cacau, elogiou o que deveria ser elogiado e criticou o que achava que estava errado. Nunca se calou e não pode ser considerado um homem “morno” ou indiferente, pois foi sempre atuante e presente na luta por uma região, onde sempre prevaleceu o egoísmo e o egocentrismo.

Por conhecer tão de perto as questões ligadas à cacauicultura, publicou artigos em que reivindicava a construção de estradas, em um município tão extenso. Lutou pela industrialização do cacau em Ilhéus e pela criação do Distrito Industrial. Suas crônicas nos revelam a história recente da região.

Foi um atuante membro do Instituto Histórico de Ilhéus, acrescentando-lhe o Geográfico; preocupado em participar dos acontecimentos, fundou a Ação Solidária Viver Ilhéus – ASVIL, uma associação sem fins lucrativos, cujo único interesse era o de lutar pelas causas da cidade. Buscou companheiros com o entusiasmo de um menino para concretizar seus planos. Assim foi também, mais recentemente, com a SPPHI (Sociedade de Proteção ao Patrimônio Histórico de Ilhéus).

Manoel Carlos foi um homem de bem que plantou amor aos seus e amizade aos amigos. Pertenceu à agremiação de pessoas de quem se diz “imortais”, não porque deixam de morrer, mas, porque ao chegarem ao fim de suas jornadas, permanecerão para sempre, no que escreveram e no que acreditaram.

Manoel Carlos, descanse em paz, com a certeza do dever cumprido…

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(Série Vultos Históricos)

milton santos

Quem foi Milton Santos?

Será que as gerações mais novas sabem alguma coisa a respeito deste baiano, negro e geógrafo, conhecido em muitas partes do mundo?

Apesar de conhecê-lo pela fama alcançada, foi com surpresa que fiquei sabendo de sua passagem por Ilhéus, quando fiz minha pesquisa sobre o IME. Mas afinal, quem foi Milton Santos? Por que homenageá-lo, qual a sua importância?

Para falar um pouco sobre este brasileiro cidadão no mundo, fui buscar socorro na Internet. Os sites se multiplicam, existe muita informação sobre ele. Mas escolhi aquelas passadas pelo professor Wagner Costa Ribeiro, do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP).

Diz o professor Ribeiro que: “Discutir a obra de um intelectual com as qualidades de Milton Santos exige um esforço coletivo e abrangente. Coletivo dada a diversidade de disciplinas que fazem uso de suas idéias. Abrangente graças aos diversos aspectos que ele abordou durante uma carreira que alcançou mais de 50 anos”.

Milton Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, em 03 de maio de 1926, e ganhou o mundo. Porém, soube manter seus olhos nos arranjos sociais contemporâneos para construir uma teoria original que serve à interpretação do mundo que parte da geografia, do território, envolvendo os habitantes dos lugares. Concluiu o curso de Direito em 1948, mas veio para Ilhéus ministrar aulas de Geografia no ensino médio. Daí seu interesse pela disciplina que o lançou ao mundo das idéias e da reflexão política.

Em 1958 obteve o título de Doutor em Geografia, na Universidade de Strasbourg (França), passando a ensinar na Universidade Católica de Salvador e, depois, na Universidade Federal da Bahia, na década de 1960. Sua habilidade com as palavras e seu texto vigoroso rendeu-lhe a participação em jornais, como A Tarde, em Salvador na década de 1960 e na Folha de São Paulo, em 1990.

Homem de ação política, aceitou o convite para participar de governos no início da década de 1960 que culminou com sua prisão em 1964 por ocasião do golpe de estado implementado pelos militares ao Brasil. Foram 3 meses difíceis. Ao sair da prisão carregava consigo uma decisão: era preciso partir. O geógrafo ganhava o mundo.

O começo de sua carreira internacional forçada ocorreu na França, onde trabalhou em diversas universidades, como as de Toulouse (1964-1967), de Bourdeaux (1967-1968) e de Paris (1968-1971). Durante esses anos realizou estudos sobre a geografia urbana dos países pobres e produziu vários livros como Dix essais sur les villes des pays-sous-dévelopés (1970), Les villes du Tiers Monde (1971) e L’espace partagé (1975, traduzido como O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana, em 1978). Este último marca a expressão de uma de suas idéias originais: a existência de dois circuitos da economia. O primeiro constituído pelas empresas, pelos bancos e firmas de seguros, ao qual chamava de rico. O segundo expressado pela economia informal, por meio do comércio ambulante e dos demais circuitos pobres da economia.

Da França partiu para vários outros países, vivendo de maneira itinerante e como professor convidado. Atuou em centros universitários, da América do Norte (Canadá, University of Toronto – 1972-1973; Estados Unidos, Massachusetts Institute of Technology, Cambridge – 1971-1972 e Columbia University, Nova York – 1976-1977), da América Latina (Peru, Universidad Politécnica de Lima – 1973; Venezuela, Universidad Central de Caracas – 1975-1976) e da África (Tanzânia, University of Dar-es-Salaam – 1974-1976).

Seu retorno ao Brasil decorreu de um acontecimento especial ao geógrafo baiano: a gravidez de sua segunda esposa, Marie Hélene Santos. Milton queria que seu segundo filho, Rafael dos Santos, nascesse baiano, como seu primogênito, o economista Milton Santos Filho, que faleceu poucos anos antes que o pai.

Em 1978 estava de volta à vida universitária brasileira. Mas trazia na bagagem uma obra que marcou sobretudo aos geógrafos marxistas do país:Por uma geografia nova, que foi traduzida para vários idiomas em diversos países. Neste trabalho Milton Santos preconiza uma geografia voltada para as questões sociais.

Em 1983 ingressou no Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. A produção intensa desenvolvida no Departamento de Geografia da USP resultou na indicação para receber o prêmio Vautrin Lud, que é considerado o Prêmio Nobel no âmbito da Geografia. Em 1994 Milton Santos foi o primeiro intelectual de um país pobre e o primeiro que não tinha o inglês como língua pátria agraciado com tal distinção.

Considero que a cidade de São Jorge dos Ilhéus tem uma grande dívida com este professor que viveu em nossa cidade, como professor catedrático de Geografia, no Ginásio de Ilhéus (atual IME), na década de 1940.

Informações obtidas no site http://www.ub.es/geocrit

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