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Posts Tagged ‘Academia de Letras de Ilhéus’

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Na semana passada tive a grata surpresa de receber de presente o livro “Boa Viagem de minha infância”, do acadêmico José Cândido de Carvalho Filho. Como estou com certa quantidade de livros para ler, e sem encontrar tempo, não pretendia lê-lo por agora. Mas, por mera curiosidade, dei uma olhada nas fotos, examinei a impressão, que está de excelente qualidade… e li o começo do livro. Livro bom é muito interessante, porque a gente só vai ler uma página e quando se dá conta não consegue largar. Foi assim com a obra citada.

O livro tem uma linguagem simples, “de ordem inteiramente sentimental”, como explica o autor na Breve Explicação, que nos invade e faz descobrir um Brasil totalmente desconhecido, ou talvez esquecido por nós. Hoje o mesmo foi assunto que utilizei em sala de aula, não tanto pela infância do autor, em particular, mas também, porque ao escrever da sua infância, José Cândido nos transporta para um Brasil tão longe e tão perto de nós.

Muitas coisas me impressionaram no livro. Para quem ainda não leu, vale à pena uma explicação. O Ministro José Cândido de Carvalho Filho, aposentado do Superior Tribunal de Justiça (STJ), nasceu no interior do Ceará, na pequena cidade de Boa Viagem, em zona de extrema seca. A angústia de sua mãe, rezando pela chuva, me fez recordar uma situação semelhante, que ainda trago em minhas lembranças. Meu pai, nascido em Rui Barbosa, zona também de muita seca, tinha os mesmos sentimentos em relação à valorização da chuva, e passou isto para mim. A falta de chuva e a seca geram em mim a sensação de angústia e apreensão. E a chegada dela me enche de alegria.

Ele começa a narrativa falando do seu nascimento, filho caçula de uma enorme prole, da qual somente metade conseguiu sobreviver, sendo apenas o menino e suas oito irmãs. Seu pai era comerciante e prefeito da pequena cidade.

O livro mostra o que parece um “baú de recordações”. Tudo é lembrado nos mínimos detalhes, fazendo o leitor mergulhar na narrativa. Ele descreve sua família, os laços de parentesco, casamentos. José Cândido não tem escrúpulos em narrar seus medos, sua fragilidade, as dificuldade passadas pela família, em meio à seca que assolava o Ceará; se mostra como somos todos: essencialmente humano…

Conta também como foram seus primeiros anos de estudo. Como acontecia àquela época, aprendia-se em casa. Ele aprendeu com as irmãs, “sobretudo com a Edite, a mais paciente”. Ela ensinou-lhe as primeiras orações.

O capítulo destinado à sua mãe é muito comovente. Demonstra o amor de um filho dedicado, certamente, por seu temperamento, mas por ser o caçula, de uma mãe não tão jovem. “Tenho até hoje um imenso amor pela minha mãe”. E, aparece então, um homem dividido. De um lado é grato à família pelo esforço em lhe dar a oportunidade de estudar e mudar de vida: “atendi ao seu pedido para estar hoje onde estou”. E mais, “a cada dia, alegremente, renovo minha saudade e os agradecimentos por tudo que ela fez pelo seu filho”.

Por outro lado, lamenta que este esforço tenha custado a convivência com os mesmos. “Ainda assim, a despeito de todas as vantagens da instrução que tive, sinto amargamente haver-me afastado tão cedo, e por tanto tempo, do convívio da minha família”. As lembranças chegam a doer. “Hoje, tenho a convicção de que é um castigo inominável, retirar uma criança do seio dos seus entes queridos e interná-lo num ambiente estranho e quase sempre hostil aos seus hábitos de vida”.

José Cândido encerra o livro com o capítulo A Saga do Canindé, onde narra sua saída de casa para estudar em colégio interno, com padres alemães, aos doze anos de idade. Sobre o assunto, afirma que o capítulo “reflete as dificuldades quase lendárias sofridas por uma criança para completar seus estudos, vivendo numa cidade quase afastada do mundo”.

Sua viagem, desde Boa Viagem até Canindé, é algo comovente. Três dias montado em jumento, com um sobrinho de idade parecida, acompanhado de um antigo funcionário de seu pai, debaixo de um sol causticante. Para se alimentar utilizavam paçoca com rapadura, pouca água para beber, e o coração apertado pela imensa saudade da família. A chegada ao colégio foi de muito sofrimento, pela diversidade do ambiente.

O Ministro José Cândido de Carvalho Filho estudou em Canindé e Fortaleza. Transferiu-se para Salvador onde fez bacharelado em Direito e licenciatura em História. Foi quando veio ensinar História Geral, como professor catedrático do IME, ao lado de Milton Santos. Fez doutorado em Direito Penal.

Esse ilheense de coração, membro da Academia de Letras de Ilhéus, casado com uma ilheense tem seu coração ainda atrelado ao chão da sua infância.

É uma pessoa que ajuda a construir a história de São Jorge dos Ilhéus e merece nossa homenagem.

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AMILTON IGNÁCIO DE CASTRO

(Série Vultos Históricos)

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“Permaneci entre vós, docendo dicitur, ensinando e aprendendo. Aprendendo mais, na minha ignorância, do que ensinando, na minha singela vocação de servir”. (Amilton Ignácio de Castro)

Neste 17 de abril de 2009, a Universidade Estadual de Santa Cruz, a Academia de Letras de Ilhéus, a Ordem dos Advogados do Brasil – subseção de Ilhéus, a Câmara Municipal de Ilhéus e a família Castro realizam, no Centro de Arte e Cultura Paulo Souto, na UESC, a solenidade do centenário de nascimento do grande ilheense, Professor Amilton Ignácio de Castro.

Sobre ele escreveu o professor Soane Nazaré de Andrade: “A educação haveria de constituir uma preocupação constante ao longo de toda a vida de Amilton. Para ele, sempre devotado à cultura, nenhuma maneira de servi-la traria mais dividendos à sociedade do que os resultantes do empenho na educação em todos os seus níveis”.

E disse mais: “Quando, portanto, trouxemos a Ilhéus a idéia de criação de uma universidade de âmbito regional, a partir da instalação de uma Faculdade de Direito, a presença de Amilton foi constante em todos os encontros e reuniões que passamos a promover. A sua participação era sempre séria, leal, criativa e pronta”.

Segundo conta o Prof. Soane, desde o primeiro encontro que tiveram para pensar a Faculdade de Direito de Ilhéus, um núcleo foi formado. Dele faziam parte, Amilton Ignácio de Castro, Francolino Neto, Henrique Cardoso e Silva, José Cândido de Carvalho Filho e Alves de Macedo. Os três últimos formavam a força política necessária para dar suporte ao projeto. “Henrique – ou Henriquinho, como o chamavam todos os ilheenses – era o prefeito eleito no último pleito; José Cândido era o deputado estadual, e Alves de Macedo o deputado federal. Todos eram meus amigos e estavam comprometidos com a idéia de criação da universidade regional”.

Para dar andamento ao processo foi criada a Sociedade Sul-Baiana de Cultura, sob a presidência do bispo diocesano Dom Frei Caetano Antônio Lima dos Santos.

No dia dois de março de 1961 foi realizada a aula inaugural, proferida pelo professor Soane Nazaré, com a presença do Governador Juracy Magalhães e no dia onze de dezembro de 1965, diplomou-se a primeira turma de Bacharéis em Direito, em solenidade realizada no Instituto Nossa Senhora da Piedade.

Na Política. “Homem público por natureza, Amilton Ignácio de Castro haveria de participar dos embates políticos da cidade e emprestar o seu nome às disputas eleitorais. Não era dado à violência verbal nem às explosões de ódio que tanto alimentam as paixões partidárias. Sereno, mas firme, escolhia a sua trincheira e se entregava ao combate sem vacilações. Era um democrata.

Em abril de 1967 tomou posse como vereador eleito. Voltaria à Câmara Municipal para a legislatura nos períodos de 1971 a 1974, tendo sido eleito pelos seus pares como presidente da Câmara. Foi reeleito no período de 1973 a 1976.

“A atuação eleitoral de Amilton espelhava o seu perfil. Não saía a pedir votos em proveito próprio. Em sua casa, recebia amigos e eleitores e conversava sobre as coisas da cidade. E agradecia cavalheirescamente a promessa do apoio”. Foi vereador numa época em que estes não recebiam proventos.

A Literatura. Amilton amava os historiadores, a literatura ficcional e a poesia. Lia e, no pouco tempo que lhe sobrava, escrevia crônicas e contos, deixando tudo inédito e de difícil consulta. Um de seus romances tem o nome de Maria Bonita. “O espírito gregário e o gosto pelas belas letras fizeram-no imortal, membro que era da Academia de Letras de Ilhéus”. Ocupou a cadeira 31, da qual é patrono Napoleão Level.

A homenagem realizada é um justo tributo a quem muito honrou sua passagem pela terra dos homens.

OBS.: Material cedido pela EDITUS (UESC)

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Jorge Amado, o prefeito Antonio Olimpio
e Amilton Ignácio de Castro

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Série Vultos Históricos

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Lá pelos idos de 1926, veio morar em Ilhéus, o belmontense Sosígenes Marinho da Costa, funcionário dos Correios e Telégrafos. Tornou-se amigo de Jorge Amado e tinha o hábito de freqüentar o “palacete” recém construído pelo coronel João Amado de Farias. Posteriormente, se tornou também, secretário da Associação Comercial de Ilhéus. Era um homem taciturno, tímido, de poucos amigos, de poucas palavras, mas de muita leitura. Sem ser um viajante conhecia o mundo inteiro, certamente através do grande contato que tinha com os livros.

Este homem solitário gostava também de escrever e, escrevia seus poemas, para guardar, pois não se preocupava em publicá-los. Não fosse a insistência dos amigos não teria publicado em 1959, seu primeiro livro, de poemas, intitulado Obra Poética. Este livro obteve os prêmios Paula Brito, no Rio, e Jabuti, pela Câmara Brasileira do Livro, em São Paulo.

Este poeta desconhecido teve em Jorge Amado um amigo fiel que lhe reconhecia as qualidades literárias e não media esforços para que suas obras fossem reconhecidas pelo valor que possuem. No livro São Jorge dos Ilhéus existe um personagem, o poeta Sérgio Moura, que trabalhava na Associação Comercial, homem que gostava de se exercitar ao piano, de escrever poesia e namorar mulher casada. A associação do personagem ao poeta valeu a Amado um distanciamento ressentido, pois o poeta não gostava de ser notado. Posteriormente, na reaproximação, Jorge Amado conseguiu que o Partido Comunista financiasse uma viagem para Sosígenes conhecer a China.

Vinte anos depois do lançamento da Obra Poética, o poeta, crítico e ensaísta José Paulo Paes, iniciou um grande movimento para reivindicar um lugar para Sosígenes como um dos grandes poetas do modernismo brasileiro, assim como torná-lo conhecido. Paes o definiu como “o maior poeta da Bahia, depois de Castro Alves”.

A cidade de Ilhéus rendeu grandes homenagens a esse seu filho adotivo, em 2001, por ocasião do centenário de seu nascimento. Na ocasião, o presidente da Fundaci era o escritor Hélio Pólvora, que juntamente com Gerana Damulakis, James Amado, Aleilton Fonseca e muitos outros nomes importantes da literatura baiana, se reuniram para movimentar o cenário literário da Bahia, com o objetivo de tornar o poeta mais conhecido. Foram lançados os seguintes livros: Poesia Completa, com 560 páginas, Crônicas & Poemas Recolhidos, A Sosígenes com afeto, além de um CD com seus poemas, recitados por grandes atores globais, além da revista Iararana.

Naquela ocasião era prefeito de Ilhéus o acadêmico Jabes Ribeiro, também mentor das homenagens porque leitor dos poemas de Sosígenes. Numa homenagem ao poeta, sugeriu que se desse o nome de Iararana, ao parque localizado em Olivença, uma faixa de Mata Atlântica, onde está localizado o Centro Cultural de Olivença.

Mas, afinal o que é Iararana? Em 1934 Sosígenes Costa escreveu um poema épico intitulado Iararana, onde ele conta a saga do cacau e a ocupação da região, pelos portugueses e sua luta com os índios. Este poema, que foi utilizado como título de uma importante revista literária lançada em Salvador, foi tema de pesquisa do Mestrado de Cultura e Turismo, realizado pelo historiador Durval Oliveira. A obra de Sosígenes também tem sido estudada por diversos professores e pesquisadores da nossa língua.

A maior importância de estudarmos (e conhecermos) nossos escritores e poetas está em que, somente dessa forma é possível estabelecermos uma ação efetiva para aumentar nossa auto-estima e reforçar nossa identidade.

Embora nosso poeta só tivesse publicado, em vida, um único livro, ele se utilizava de jornais e revistas para publicar o que escrevia. Assim publicou poemas no Diário da Tarde, de onde era colaborador. Também foi colaborador das revistas O Momento e Arco & Flexa, ligadas ao modernismo baiano.

A cidade de São Jorge dos Ilhéus, “capital cultural do sul da Bahia”, fez questão de reconhecer, no seu centenário de nascimento, o valor deste poeta que viveu nesta cidade por mais de vinte anos; ele é considerado um ícone da poesia baiana e brasileira, e foi incluído na antologia Os Cem Melhores Poetas do Século XX, organizado por José Nêumanne.

Chuva de ouro (1928)

As begônias estão chovendo ouro,
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai ficando louro
e o bosque inteiro redourado fica.

Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas nos galhos da oiticica.

Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.

E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!

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No ano de 1959, alguns homens, idealistas e sonhadores, imaginaram que Ilhéus poderia ter uma Academia de Letras, já que possuía escritores de primeira linha como Jorge Amado, Adonias Filho e Jorge Medauar, dentre outros. Naquela época nosso Amado Jorge (como gosto de chamá-lo), recebia para uma turnê pelo Brasil, nada menos que Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, o célebre casal francês de escritores existencialistas. Aquele foi o ano da construção de Brasília, foi uma época de grandes mudanças em nosso país.

Os homens que idealizaram a Academia de Letras de Ilhéus – ALI – se chamavam Abel Pereira, o bispo diocesano, D. Caetano, Nelson Schaun, Plínio de Almeida, Wilde de Oliveira Lima e Nilo Pinto. As reuniões eram realizadas na casa de Nelson Schaun, teoricamente, primeira sede da ALI. Aos primeiros se juntaram Francolino Neto, Halil Medauar, e Leopoldo Campos Monteiro, dentre outros.

Segundo o acadêmico, advogado criminalista e brilhante professor Francolino Neto, “o momento histórico vivido no final da década de 50 dos anos novecentos, informava haver, em todos os quadrantes desta Nação Cacaueira, uma profunda disposição para a decolagem cultural” (Estante da Academia).

Ainda de acordo com o mesmo confrade, o grupo de intelectuais de Ilhéus e Itabuna que idealizaram a instituição, tinha como objetivo recolher a produção dos escritores e poetas nascidos ou radicados na região para publicá-los em jornais e em livros. O povo de Ilhéus, os plantadores de cacau disseminaram na sua cultura o gosto pelo belo, pelas artes, pela poesia e literatura.

Durante mais de quarenta anos a Academia de Letras de Ilhéus, a Casa de Abel Pereira se manteve firme, com seu quadro renovado, toda vez que um membro partia para outra dimensão. A Academia se manteve por causa da persistência dos seus membros que, mesmo sem possuir uma sede própria, reunindo-se de “favor”, ora aqui, ora ali, não deixaram que ela se acabasse. E o sonho da sede própria nunca deixou esses homens que, além de escrever, sabiam sonhar.

Eis que entrou no governo o prefeito Jabes Ribeiro, para mais um mandato. E um dos persistentes integrantes da ALI, o ex-prefeito Ariston Cardoso, e então presidente da instituição, entendeu de pedir ao prefeito a sede da Academia. Confesso que imaginei uma pequena sala, talvez um pedaço de uma casa, não sei o que pensei, mas, certamente nenhum de nós teve capacidade para imaginar o que estava por vir. O tempo foi passando e parecia que o sonho não se transformaria em realidade.

Dia 14 de março de 2004, dia da poesia, data de nascimento do grande Castro Alves, a sede da Academia foi entregue aos seus membros, mas principalmente à cidade de Ilhéus. Para quem pensou que ela estava destinada apenas aos acadêmicos, pode mudar de idéia. Esta é mais uma casa a serviço da cultura de Ilhéus, que tem recebido visitas diariamente de pessoas curiosas de ver como ficou, e todos saiam de lá encantados. Os eventos começaram a acontecer, como lançamento de livros, palestras e encontros, e as pessoas saíam encantadas com a certeza de que voltariam, porque a casa das letras pertence ao povo de Ilhéus e está completando cinco anos de existência.

Aconteceram muitos saraus literários que deverão retornar. Pessoas de todas as idades se encontram para ler e declamar poesias.

“O mundo cultural brasileiro passou o drama estampado em Maria Bonita, (1914); soube dos ‘caxixes’ praticados nas matas cortadas pelo Rio de Contas, através dos Rincões dos frutos de ouro, (1928); pasmou-se com a perfeição estética de Sosígenes Costa; o aljofrar romântico de José Bastos e as narrativas de Jorge Amado e Adonias Filho. A criação da Academia de Letras de Ilhéus, estava, pois, justificada, a fim de abrigar autores regionalmente conhecidos, todos trabalhando com a Literatura” (Francolino Neto, 2001).

Se alguém chegou a pensar que seria perda de tempo criar o espaço da Academia de Letras, pode mudar de pensamento. É promovendo a cultura e a arte que teremos escritores, poetas e artistas. E, graças a Deus, São Jorge dos Ilhéus tem a bênção de produzir, entre outras coisas, como já dizia Adonias, escritores.

 

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