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Posts Tagged ‘Cultura’

GG04

Uma vez assisti a um Globo Repórter que nunca esqueço. O programa mostrava um povo muito diferente de nós, que vive na Floresta Equatorial do Congo. Eles são chamados de “pigmeus bambuti”. No livro “Topofilia” de Yi-fu Tuan, ele diz que este povo é formado por homens e mulheres, cujo ciclo de vida é diferente do nosso, pois chega apenas a 30 anos; para eles “o sentido do tempo é restrito. As lendas revelam falta de interesse pelo passado e é curta a sua memória sobre a genealogia”. A cultura deles não inclui a leitura nem a escrita, e eles fazem questão de se manterem isolados da “civilização”.

E aí? O que este fato tem a ver com arquivo público?

Simplesmente nós somos diferentes. Nós preservamos nosso passado, cultivamos a memória, atribuímos valor à história. Só que ainda não identificamos muito bem o que preservar e como preservar.

Ainda é comum ensinarmos às nossas crianças a história de outros povos, e esquecermos de ensinar a nossa. Continuamos a exigir que nossos alunos, mesmo aqueles da zona rural, decorem fatos longínquos no tempo e no espaço, mas não buscamos interessá-lo no conhecimento da história dos locais que ele conhece.

Apesar de já existir um grande movimento dentro das universidades para que a história local seja conhecida, ainda é pouca a produção e, principalmente, a divulgação nas escolas fundamentais.

Nos anos setenta a direção da Ceplac buscou alguns historiadores da UFBA para escreverem trabalhos sobre esta rica região (também do ponto de vista da história). No ano de 1994, a Universidade Estadual de Santa Cruz, UESC, iniciou um programa de aprofundamento do estudo da história da região cacaueira, pois ainda é pouco o que se conhece dos mais de 450 anos de história desta terra. Todos já aprendemos que Ilhéus foi capitania hereditária, mas sabemos muito mais da história oficial, que trata de Rio e São Paulo, do que da nossa terra. Até muito pouco tempo atrás o cacau não constava como um dos principais produtos econômicos produzidos no Brasil. Falava-se em café, em cana de açúcar, mas nem uma linha sobre o cacau. A história da Bahia trata de Salvador e Recôncavo, quase nada sobre a Região Sul.

Naquele ano de 1994 foi oferecido ao público o primeiro curso de História Regional, que depois de dois anos daria o certificado de especialista lato-sensu aos concluintes. Depois daquele, vários outros já foram concluídos. Inúmeras monografias foram produzidas e estão à disposição do público estudantil, ou mesmo para os interessados no assunto.

Eu fiz parte daquela primeira turma e nossa grande dificuldade para escrever a monografia de final de curso foi encontrar material de pesquisa. Ilhéus não possuía um arquivo público, e nem uma biblioteca decente, à altura de uma cidade que começou praticamente junto com o Brasil, antes mesmo que Salvador, fundada em 1549. No ano de 2002 foi inaugurado o Arquivo Público ao lado da Biblioteca Municipal, no prédio inaugurado em 1915, como primeira escola pública municipal, o General Osório.

Nossa história é pouco conhecida, apesar do que se tem produzido e da lei de 1995, criada pelo ex-vereador Nizan Lima, obrigando o ensino de história local nas escolas da cidade; nosso patrimônio histórico é dilapidado, descuidado, desrespeitado. Não creio que seja por maldade, mas por falta de educação mesmo. Ninguém pode dar aquilo que não tem.

Nosso Arquivo Público está aí, servindo aos pesquisadores, ajudando a resolver a vida de muitos funcionários públicos, que necessitam levantar seu histórico de trabalho, e servindo de apoio aos pesquisadores da história local.

O Arquivo Público João Mangabeira funciona na parte de baixo do prédio onde funcionou durante mais de meio século o Colégio General Osório. É um prédio cuja construção lembra as da Belle Époque francesa. Esta expressão, Belle Époque, está diretamente ligada ao período iniciado em 1871, um período romântico, onde acreditava-se que não haveria mais guerra, as mulheres passaram a ter maior participação social e o mundo melhoraria porque a ciência estava se desenvolvendo para resolver todos os problemas do homem, segundo a filosofia positivista.

A ciência resolve alguns problemas, mas, paradoxalmente, cria outros, ainda maiores. Mas é esta a trajetória que temos escolhido.

Ainda assim, continuo insistindo: precisamos preservar nossa memória e divulgar nossa história, pois é assim que se constrói a cidadania. As pessoas precisam ser ensinadas a amar nossa cidade, com tudo que ela possui, com seu patrimônio cultural e sua história; afinal – não somos pigmeus bambuti.

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Há trinta e nove anos Mariângela Montalvão mantém a Escola Clave de Sol, no eixo Ilhéus/Itabuna, com alunado particular. Mas o trabalho da Profa. Mariângela, que conta atualmente com o apoio direto da ex-aluna Indira Vita Pessoa, vai muito além do seu alunado; ela promove, também, atividades de cunho social, contemplando creches e menores carentes.

Mariângela Montalvão Sousa Oliveira, filha da professora de música e pianista Wanda Montalvão Oliveira iniciou seus estudos de música em Ilhéus, com sua mãe, que lecionou durante muitos anos nesta cidade. Dentre seus inúmeros alunos, destacam-se o pianista Henrique Cezar Ribeiro e o maestro Eric Vasconcelos.

Mariângela assumiu a direção da Escola Clave de Sol em 1970. É educadora, pianista, regente e compositora. Durante estes 39 anos mais de mil alunos de Ilhéus e Itabuna passaram pela Escola, destacando-se as cantoras Juliana Aquino e Constança Magno Baptista, o baterista Thiago Nogueira e a flautista Indira Vita Pessoa, que atualmente é professora e coordenadora da Escola.

A Escola Clave de Sol, em várias oportunidades, se apresentou em algumas cidades brasileiras, como Brasília, São Paulo, Salvador, Curitiba e Blumenau; atuou, também, para diversos artistas e personalidades, tais como Jorge Amado, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gilberto Gil, o então presidente Fernando Henrique Cardoso e Ivan Lins.

Na Clave de Sol são ministradas aulas de Iniciação Musical, Flauta Doce, Flauta Transversal, Piano, Teclado, Violão, Guitarra, Coral Infantil, Coral Adulto, Musicalização para bebês, Cantoterapia e Bateria. Indira Pessoa começou como aluna, transformou-se em flautista e cantora, trabalhando, na atualidade, diretamente com Mariângela. A escola conta também com os professores Claudenilson Chaves (Cacau), Jaqueline Oliveira e Damião.

Anualmente a Escola Clave de Sol apresenta os “Flautinhas de Ouro” nos palcos das duas maiores cidades grapiúnas, privilegiando sempre o compositor brasileiro.

No espetáculo deste final de semana o ritmo contemplado é a Bossa Nova, como comemoração do cinqüentenário de existência da mesma. O espetáculo é destinado a todas as faixas etárias; todos saem de lá encantados. Como convidados e participantes especiais deste espetáculo, irão se apresentar Ludymille Araújo, a “Banda Encontro”, os mestres Sabará (bateria) e Dinho (capoeira); também estarão presentes o Coral “Amigos da Clave de Sol”, do compositor e intérprete, Marcelo Ganem, com apresentação de Lucia Netto e Louise Lopes.

Com participação e apoio do grande flautista brasileiro Altamiro Carrilho e do músico Guilherme Dias Gomes, os “Flautinhas de Ouro” lançaram o CD comemorativo de seus 30 anos de fundação. Em 2005 celebraram os 35 anos com o CD “Nunca pare de sonhar!” Carrilho ratifica o seu apoio, mais uma vez, bem como, Nelson Ayres e Nando Cordel.

Apesar dos tantos anos de existência, a Escola Clave de Sol é uma “jovem senhora” encantadora, que nunca perde a jovialidade e a pureza das crianças. Vale à pena conferir.

FICHA TÉCNICA DO ESPETÁCULO:

Direção Musical e Regência: Mariângela Montalvão

Direção Artística: Rita Brandi

Coordenação Geral: Indira Vita Pessoa

Assistentes de Palco: Elaine Bela Vista e Marquinhos Nô

Sonorização: Mário Som

Iluminação: Paulo Rosário

Cenografia: Déri e Elaine Bela Vista

Cenotécnica: Du Moura

Figurino: Bel e Ceiça.

(Colaboração de Eliane Sabóia)

4 Clave de Sol Patinhos 299 k 1 Clave Cartaz 274 kb

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(POR SUA FILHA NONÔ)

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Sobre meu pai, eu só tenho palavras de admiração e respeito. Talvez eu não tenha a capacidade de relatar a riqueza de seu espírito e sua sensibilidade diante do mundo e dos fatos da vida. Mas é o que eu pretendo mostrar aqui.

Quem teve algum contato com ele pode perceber que ele prezava pela delicadeza, pela correção e pelo bom senso. Eu nunca o vi maltratar ou maldizer qualquer pessoa. JAMAIS. Desconheço qualquer ato de violência que tenha feito ou palavra agressiva que tenha dito. E isso me deixa muito orgulhosa. Meu pai, para mim, era um sentimental, com uma percepção muito esclarecida da vida e das pessoas.

É a seguinte sua biografia:

Nasceu em 17 de outubro de 1942, em Salvador. Três dias depois já estava em Ilhéus. Ele contava que quando o avô Senô veio conhecer o primeiro netinho, que era ele, disse a minha avó Cora: “vou levar Ton para morar comigo no Rosário (a fazenda)”. E minha avó nervosa, porque era seu primeiro filho, disse: “mas seu Senô, eu tenho que amamentá-lo!”. E o velho disse: “não se preocupe, eu tenho minhas cabras.” E levou-o, realmente. Morou na fazenda até os sete anos, ouvindo muitas estórias, observando o avô, adquirindo valores do homem rural e cultivando o gosto pela terra. Uma história dessa época que ele gostava de contar é a que, nas diversas vezes que ele atravessou o rio Almada de canoa com o avô para ver os coqueirais, o avô partia um coco verde e entornava sobre sua cabeça, dizendo: “aqui é para quando você crescer, ficar gostoso”. Ah, ele adorava.

Então, aos sete anos voltou para a cidade a fim de cursar a escola primária. Ainda no primário, até concluir o ginásio, estudou também em Salvador, sendo interno no Colégio Maristas e depois no Antônio Vieira. Foi na adolescência que começou a se dedicar à leitura. Como não gostava da Cidade do Salvador, decidiu retornar a Ilhéus para cursar o Científico. Nessa ocasião foi seduzido pelos ideais revolucionários opostos à Ditadura Militar. A partir de então, foi travada em suas idéias e em sua personalidade a convicção de ser a LIBERDADE o maior bem do homem. E até o fim repetiu Carlos Drummond de Andrade – “tenho duas mãos e o sentimento do mundo” – me ensinando que, com a liberdade e o entendimento do que seja o mundo, eu poderia construir o que quisesse.

Embaixo do vidro de sua mesa de trabalho, no Cartório, está um recorte de jornal com a seguinte frase anarquista: “aquele que tentar por a mão sobre mim para me governar é meu inimigo”.

Assim amadureceu o homem de caráter singular, com características em sua personalidade próprias da boa índole. Vale dizer, foi um homem íntegro, de natureza serena e espírito libertário.

Mas, de fato, ele não concluiu o Científico. Não lhe agradou a matemática. Iniciou, então, o curso Clássico. Ao término deste, foi aprovado no concurso da Petrobrás. Fazia planos de mudar para Fortaleza, quando adveio a inesperada e prematura morte de seu pai, Chico. Contava apenas vinte anos de idade e teve de voltar-se completamente à família: à mãe Cora, e aos seis irmãos. Nesta época já havia escrito alguns versos.

Em pouco mais de um ano ingressaria na faculdade de Direito, e, ainda estudante, teve a oportunidade de assumir a titularidade do Cartório de Registro de Imóveis da Comarca de Ilhéus. Assim concursado, laborou no Serviço Público com honestidade e competência até os últimos dias de vida. Digo isto, porque, da UTI ele ligava pelo celular para o Cartório a fim de saber como iam os serviços.

Estudando e trabalhando no Cartório, ele pôde começar a organizar sua vida e a de sua família.

E foi levando a vida de forma simples. Gostava de uma amizade sincera, gostava de ler, de escrever, de namorar, gostava da noite, de uma Brahma gelada e de uma moqueca de aratu bem feita. Cantava a lua e o mar em seus versos. Sempre foi muito solícito e procurou ajudar quem precisou dele. Era louco por Ilhéus (Ele brincava com minha mãe dizendo que só se casou com ela porque o nome dela é Ilhéus ao contrário). Mas, o que lhe dava enorme prazer era caminhar dentro da roça de cacau. Ele achava linda demais!

Era um homem muito ligado à terra. Dizia sempre: “sou GRAPIÚNA!!!”

Aos trinta e sete anos casou-se com minha mãe Suely e construiu sua própria família. Meus pais, meus irmãos e eu sempre fomos e seremos apaixonados uns pelos outros. Tivemos um paizão, que, com nossa mãe, nos deu um lar de amor e afeto, nos deu tudo para crescermos como pessoa e intelectualmente também. Nos ensinou o que é a dignidade, o respeito e a fé; nos abençoava ao anoitecer e ao amanhecer (ele dizia que nunca era demais).

E foi assim que ele viveu, dedicando-se à família e ao trabalho no Cartório e nas roças.

Meu pai foi arrebatado de nós e é nele mesmo que nos espelhamos para suportar a dor da falta. Temos em seu exemplo uma pessoa preocupada com seu semelhante e com a natureza.

Lemos em seus versos a beleza do amor e das coisas simples e também, o olhar crítico de um observador do egoísmo e da capacidade destrutiva do homem. Nada lhe passava despercebido.

Como disse minha mãe: “E ele nos deixou saudades e um vazio imenso para mim, mas sei que hoje ele está enriquecendo o infinito com seus poemas, pois ele está junto da PERFEIÇÃO, onde tudo se traduz em cristalinas nuances de LUZ e de PAZ”.

Pai, eu tenho muito orgulho de ser sua filha.

(Escrito em 28.05.2004)

ANTONIO FRANCISCO LAVIGNE DE LEMOS OCUPOU A CADEIRA N° 18 DA ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS.

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Passei por muitas etapas, ao longo da minha trajetória em busca do conhecimento da história de Ilhéus. Tudo começou com a idéia de transformar minha casa em pousada. Os turistas queriam saber de nossa história e, como eu não tinha nada para contar, por desconhecê-la, resolvi ir em busca deste conhecimento.

A história de Ilhéus é muito rica, afinal foi esta uma das primeiras vilas a ser fundada no Brasil, mas foi o cacau que propiciou o seu desenvolvimento, no período compreendido entre o final do século XIX até o início da década de 1980. Após a grave crise que se abateu sobre a região cacaueira, no final dos anos oitenta, faz-se necessário buscar alternativas econômicas viáveis, tendo uma delas, surgido naturalmente pela própria estrutura da cidade, o turismo. No início dos anos oitenta, Porto Seguro e Ilhéus começaram juntas a promover o turismo, disputando inclusive o posto de segundo pólo do Estado. A primeira possui, atualmente, um número de leitos dos mais significativos do país, uma organização voltada para o turismo bem estruturada, enquanto Ilhéus aparenta ter regredido.

Durante estes 15 últimos anos, em que me dediquei ao estudo da história local, pude encontrar muitos documentos interessantes. Assim é que, fazendo buscas em meus arquivos, encontrei em um Guia Turístico publicado em 1991, edição especial para a Associação Brasileira dos Agentes de Viagens (ABAV), uma matéria sobre o turismo local, dizendo que Ilhéus estava “decidida a se tornar o segundo principal pólo turístico da Bahia, depois de Salvador” e que, para isso, crescia a passos largos. E o artigo diz que: “dona de uma beleza natural deslumbrante, a cidade exibe um cenário urbano onde o novo e o antigo convivem harmoniosamente”. Pois é isso, naquele ano ainda havia uma disputa e, digo mais, não tem sido fácil se manter na disputa, posto que, muitas outras localidades despontaram com grande pujança, como Itacaré e Morro de São Paulo.

Pois bem, nosso grande trunfo é nosso patrimônio cultural. Tem horas que me sinto repetitiva, mas, tenho que dizer muitas vezes para conseguir ser ouvida. Nós temos a combinação perfeita para colocar o turismo em evidência. Praias, a Baía do Pontal, cachoeiras, turismo ecológico; mas nosso grande patrimônio é nossa história e a chamada “civilização do cacau”. Não podemos esquecer que Jorge Amado nos deu um grande “empurrão”, contou para o mundo dessa cidade e dessa história. E nós não estamos aproveitando todo este patrimônio, nem o edificado, nem o imaterial.

Se no início da década de noventa, Ilhéus e Porto Seguro disputavam a preferência dos turistas, havia uma expectativa maior em relação a Ilhéus, pois esta possuía uma boa infra-estrutura com porto, aeroporto, hospitais e, hotéis e pousadas estavam sendo construídos. Porto Seguro, no início dos anos 80, era apenas um vilarejo sem essa organização necessária que requer o turismo. Eunápolis, àquela época, vila que pertencia a Porto Seguro, que se emancipou no final daquela década, possuía população maior que a sede e um considerável comércio. Por estas razões apostava-se, sem medo, no crescimento turístico de Ilhéus, que foi sendo perdido.

Aconteceu em Porto Seguro o mesmo fenômeno observado em Guarujá (SP), Búzios (RJ) e muitas outras cidades no Brasil e no mundo: pessoas de fora se apaixonaram pelo local e se mudaram para lá fazendo grandes investimentos econômicos de forma bastante profissional. Ao passo que em Ilhéus a opção do turismo veio como solução para a grave crise que assolou a região no final dos anos oitenta, por diversas razões, sendo a principal delas, a chegada da vassoura de bruxa.

O turismo chegou como “a grande saída”, mas deparou-se com um problema: as pessoas estavam acostumadas a ser servidas, e turismo é basicamente serviço. Pessoas que estavam acostumadas a receber muito dinheiro sem necessidade de ir às fazendas, não souberam mudar de atitude, como se fazia necessário.

Se, ao longo do século vinte, foi construído um significativo patrimônio, representado pelas belas casas, pelas praças bem planejadas, também muita coisa foi demolida, des-construída, modificada, “modernizada”. A cidade mudou de aspecto. É importante o trabalho fotográfico realizado por José Nazal, quando mostra o antes e o agora, para que possamos compreender a extensão do estrago.

Tenho buscado, através de trabalho intenso, passar para as pessoas a importância de conhecer e proteger nosso patrimônio; minha dissertação de mestrado teve como tema a importância do patrimônio cultural de Ilhéus para o turismo. É um trabalho de formiguinha, mas que tem valido a pena. Muita coisa caminhou nestes 15 anos.

Recentemente, o prefeito Newton Lima determinou a utilização do brasão de Ilhéus, um dos nossos símbolos, portanto patrimônio, em tudo que se refere à prefeitura e às obras municipais. Bem mais importante utilizar o brasão, um trabalho do professor Leopoldo Campos Monteiro, do que motes ou frases que dizem do governo, mas não da cidade.

Tenho buscado comprovar que é viável promover turismo cultural, além do turismo de praia em nossa cidade. Tendo percebido a pouca importância dada ao nosso patrimônio cultural, tenho estudado e divulgado a necessidade de todos conhecerem-no, pois é do nosso olhar que vai acontecer o olhar do turista sobre o patrimônio; isto depende da comunidade. “O turismo cultural, tal qual o concebemos atualmente, implica não apenas a oferta de espetáculos ou eventos, mas também a existência e preservação de um patrimônio cultural representado por museus, monumentos e locais históricos” afirma Rodrigues. E poderia complementar, acrescentando o patrimônio imaterial representado por festas e comemorações.

Por outro lado, não podemos admitir que, no século XXI, se pense em realizar qualquer ação que exclua a idéia da sustentabilidade, pois segundo Salvati, em entrevista concedida ao Jornal Agora em 2002: “o turismo é uma das mais promissoras fontes econômicas do planeta. Ele contribui para o desenvolvimento socioeconômico e cultural de um país, mas se for conduzido apenas com enfoque econômico, sem um planejamento baseado nas características biológicas, físicas, econômicas e sociais das localidades, ele pode gerar um desequilíbrio ecológico e social”.

Portanto minha proposta é que cada ilheense conheça, ame e proteja nosso patrimônio cultural, pois é ele que fala de nossa história, de nossas tradições e dos nossos costumes.

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Igreja de São Jorge (séc. XVII)

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Na semana passada tive a grata surpresa de receber de presente o livro “Boa Viagem de minha infância”, do acadêmico José Cândido de Carvalho Filho. Como estou com certa quantidade de livros para ler, e sem encontrar tempo, não pretendia lê-lo por agora. Mas, por mera curiosidade, dei uma olhada nas fotos, examinei a impressão, que está de excelente qualidade… e li o começo do livro. Livro bom é muito interessante, porque a gente só vai ler uma página e quando se dá conta não consegue largar. Foi assim com a obra citada.

O livro tem uma linguagem simples, “de ordem inteiramente sentimental”, como explica o autor na Breve Explicação, que nos invade e faz descobrir um Brasil totalmente desconhecido, ou talvez esquecido por nós. Hoje o mesmo foi assunto que utilizei em sala de aula, não tanto pela infância do autor, em particular, mas também, porque ao escrever da sua infância, José Cândido nos transporta para um Brasil tão longe e tão perto de nós.

Muitas coisas me impressionaram no livro. Para quem ainda não leu, vale à pena uma explicação. O Ministro José Cândido de Carvalho Filho, aposentado do Superior Tribunal de Justiça (STJ), nasceu no interior do Ceará, na pequena cidade de Boa Viagem, em zona de extrema seca. A angústia de sua mãe, rezando pela chuva, me fez recordar uma situação semelhante, que ainda trago em minhas lembranças. Meu pai, nascido em Rui Barbosa, zona também de muita seca, tinha os mesmos sentimentos em relação à valorização da chuva, e passou isto para mim. A falta de chuva e a seca geram em mim a sensação de angústia e apreensão. E a chegada dela me enche de alegria.

Ele começa a narrativa falando do seu nascimento, filho caçula de uma enorme prole, da qual somente metade conseguiu sobreviver, sendo apenas o menino e suas oito irmãs. Seu pai era comerciante e prefeito da pequena cidade.

O livro mostra o que parece um “baú de recordações”. Tudo é lembrado nos mínimos detalhes, fazendo o leitor mergulhar na narrativa. Ele descreve sua família, os laços de parentesco, casamentos. José Cândido não tem escrúpulos em narrar seus medos, sua fragilidade, as dificuldade passadas pela família, em meio à seca que assolava o Ceará; se mostra como somos todos: essencialmente humano…

Conta também como foram seus primeiros anos de estudo. Como acontecia àquela época, aprendia-se em casa. Ele aprendeu com as irmãs, “sobretudo com a Edite, a mais paciente”. Ela ensinou-lhe as primeiras orações.

O capítulo destinado à sua mãe é muito comovente. Demonstra o amor de um filho dedicado, certamente, por seu temperamento, mas por ser o caçula, de uma mãe não tão jovem. “Tenho até hoje um imenso amor pela minha mãe”. E, aparece então, um homem dividido. De um lado é grato à família pelo esforço em lhe dar a oportunidade de estudar e mudar de vida: “atendi ao seu pedido para estar hoje onde estou”. E mais, “a cada dia, alegremente, renovo minha saudade e os agradecimentos por tudo que ela fez pelo seu filho”.

Por outro lado, lamenta que este esforço tenha custado a convivência com os mesmos. “Ainda assim, a despeito de todas as vantagens da instrução que tive, sinto amargamente haver-me afastado tão cedo, e por tanto tempo, do convívio da minha família”. As lembranças chegam a doer. “Hoje, tenho a convicção de que é um castigo inominável, retirar uma criança do seio dos seus entes queridos e interná-lo num ambiente estranho e quase sempre hostil aos seus hábitos de vida”.

José Cândido encerra o livro com o capítulo A Saga do Canindé, onde narra sua saída de casa para estudar em colégio interno, com padres alemães, aos doze anos de idade. Sobre o assunto, afirma que o capítulo “reflete as dificuldades quase lendárias sofridas por uma criança para completar seus estudos, vivendo numa cidade quase afastada do mundo”.

Sua viagem, desde Boa Viagem até Canindé, é algo comovente. Três dias montado em jumento, com um sobrinho de idade parecida, acompanhado de um antigo funcionário de seu pai, debaixo de um sol causticante. Para se alimentar utilizavam paçoca com rapadura, pouca água para beber, e o coração apertado pela imensa saudade da família. A chegada ao colégio foi de muito sofrimento, pela diversidade do ambiente.

O Ministro José Cândido de Carvalho Filho estudou em Canindé e Fortaleza. Transferiu-se para Salvador onde fez bacharelado em Direito e licenciatura em História. Foi quando veio ensinar História Geral, como professor catedrático do IME, ao lado de Milton Santos. Fez doutorado em Direito Penal.

Esse ilheense de coração, membro da Academia de Letras de Ilhéus, casado com uma ilheense tem seu coração ainda atrelado ao chão da sua infância.

É uma pessoa que ajuda a construir a história de São Jorge dos Ilhéus e merece nossa homenagem.

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São Jorge

Alguns autores afirmam que a vila capital da Capitania dos Ilhéus recebeu o nome de São Jorge dos Ilhéus em homenagem ao donatário Jorge de Figueiredo Correia. Eu também, enquanto pesquisadora, o afirmo. Mas, às vezes, me vem uma grande dúvida. Será que os portugueses não chegaram por aqui num dia 23 de abril, já que era comum dar às localidades o nome do santo do dia?

Afinal, não importa o motivo, mas a verdade é que a cidade homenageia, ano após ano, o seu padroeiro, como também presta homenagens a Nossa Senhora das Vitórias, a outra padroeira. Quem foi São Jorge? Acho que deveríamos saber todas estas informações ligadas à nossa história, como deveríamos ensiná-las às nossas crianças.

Diz a história que, no século III, quando o imperador de Roma era Diocleciano, havia nos domínios daquele Império, um jovem soldado chamado Jorge. Era filho de pais cristãos, que o ensinaram desde cedo a crer em Jesus Cristo como seu salvador e a ser temente a Deus.

Ele nasceu na antiga Capadócia, região onde hoje está a Turquia. De lá, após a morte do pai, mudou-se para a Palestina com sua mãe, onde foi promovido a capitão do exército romano, por conta da sua dedicação e habilidades. O imperador lhe conferiu o título de conde. Aos 23 anos se mudou para a corte imperial, em Roma, exercendo altas funções.

Foi nesta época que o imperador Diocleciano elaborou um plano para matar os cristãos, que já eram muitos e começavam a incomodar. Foi marcado, então, um dia para o senado confirmar o decreto imperial. Jorge levantou-se no meio da reunião, declarando-se surpreso com a decisão, afirmando que os ídolos adorados nos templos pagãos, eram falsos deuses.

Causou espanto à assembléia as palavras proferidas por um importante membro da suprema corte romana. Jorge defendeu com veemência e ousadia a fé que devotava a Jesus Cristo, “como Senhor e salvador dos homens”. Esta afirmativa gerou discussão, e um cônsul o indagou sobre a causa desta ousadia. Jorge então lhe respondeu: “Por causa da Verdade. A Verdade é meu Senhor Jesus Cristo. A quem vós perseguis, e de quem eu sou servo”.

O fato de ter-se mantido fiel a Jesus provocou a ira do imperador, que fez de tudo para vê-lo desistir da fé. Foi submetido a torturas de várias formas. Após cada sessão de tortura era levado diante do imperador, que perguntava se ele renegaria Jesus para adorar os ídolos. Jorge mantinha-se firme na sua resposta: “Não, imperador! Eu sou servo de um Deus vivo! Somente a Ele eu temerei e adorarei”. Por causa desta fé inabalável, diz o texto, muitas pessoas passaram a crer e a confiar em Jesus, numa época em que a igreja de Cristo era perseguida e os cristãos castigados e mortos por defenderem a sua fé.

Diocleciano, então, não conseguindo demovê-lo de sua fidelidade, mandou degolar o jovem e fiel servo de Cristo, no dia 23 de abril do ano 303. Rapidamente criou-se uma devoção ao soldado romano que se transformou em soldado de Cristo. Seu culto se espalhou pelo Oriente e, por ocasião das cruzadas, penetrou no Ocidente. Segundo a tradição, ele venceu grandes batalhas contra Satanás, por isso sua imagem mais conhecida é a de um jovem guerreiro montado em um cavalo branco, vencendo um grande dragão.

Na igreja matriz de São Jorge, uma obra do século XVI, segundo o IPAC, existe uma imagem do santo guerreiro sem o cavalo. Imagem não muito comum, pois estamos acostumados a vê-lo sempre, montado em seu cavalo branco e lutando contra o dragão. Quando era criança me ensinaram a vê-lo na lua. Ainda hoje posso vê-lo nas noites de lua cheia.

São Jorge é o santo patrono dos seguintes países e cidades: Inglaterra, Portugal, Geórgia, Catalunha, Lituânia, Moscou e, mais recentemente, da cidade e do estado do Rio de Janeiro, além, é claro, da nossa São Jorge dos Ilhéus. É o padroeiro dos escoteiros e do Corinthias, clube de futebol. Tem uma semelhança, também, com a figura de Sigurd, o caçador de dragões da mitologia nórdica. No sincretismo religioso recebe o nome de Oxóssi.

(Informações retiradas da Internet)

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AMILTON IGNÁCIO DE CASTRO

(Série Vultos Históricos)

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“Permaneci entre vós, docendo dicitur, ensinando e aprendendo. Aprendendo mais, na minha ignorância, do que ensinando, na minha singela vocação de servir”. (Amilton Ignácio de Castro)

Neste 17 de abril de 2009, a Universidade Estadual de Santa Cruz, a Academia de Letras de Ilhéus, a Ordem dos Advogados do Brasil – subseção de Ilhéus, a Câmara Municipal de Ilhéus e a família Castro realizam, no Centro de Arte e Cultura Paulo Souto, na UESC, a solenidade do centenário de nascimento do grande ilheense, Professor Amilton Ignácio de Castro.

Sobre ele escreveu o professor Soane Nazaré de Andrade: “A educação haveria de constituir uma preocupação constante ao longo de toda a vida de Amilton. Para ele, sempre devotado à cultura, nenhuma maneira de servi-la traria mais dividendos à sociedade do que os resultantes do empenho na educação em todos os seus níveis”.

E disse mais: “Quando, portanto, trouxemos a Ilhéus a idéia de criação de uma universidade de âmbito regional, a partir da instalação de uma Faculdade de Direito, a presença de Amilton foi constante em todos os encontros e reuniões que passamos a promover. A sua participação era sempre séria, leal, criativa e pronta”.

Segundo conta o Prof. Soane, desde o primeiro encontro que tiveram para pensar a Faculdade de Direito de Ilhéus, um núcleo foi formado. Dele faziam parte, Amilton Ignácio de Castro, Francolino Neto, Henrique Cardoso e Silva, José Cândido de Carvalho Filho e Alves de Macedo. Os três últimos formavam a força política necessária para dar suporte ao projeto. “Henrique – ou Henriquinho, como o chamavam todos os ilheenses – era o prefeito eleito no último pleito; José Cândido era o deputado estadual, e Alves de Macedo o deputado federal. Todos eram meus amigos e estavam comprometidos com a idéia de criação da universidade regional”.

Para dar andamento ao processo foi criada a Sociedade Sul-Baiana de Cultura, sob a presidência do bispo diocesano Dom Frei Caetano Antônio Lima dos Santos.

No dia dois de março de 1961 foi realizada a aula inaugural, proferida pelo professor Soane Nazaré, com a presença do Governador Juracy Magalhães e no dia onze de dezembro de 1965, diplomou-se a primeira turma de Bacharéis em Direito, em solenidade realizada no Instituto Nossa Senhora da Piedade.

Na Política. “Homem público por natureza, Amilton Ignácio de Castro haveria de participar dos embates políticos da cidade e emprestar o seu nome às disputas eleitorais. Não era dado à violência verbal nem às explosões de ódio que tanto alimentam as paixões partidárias. Sereno, mas firme, escolhia a sua trincheira e se entregava ao combate sem vacilações. Era um democrata.

Em abril de 1967 tomou posse como vereador eleito. Voltaria à Câmara Municipal para a legislatura nos períodos de 1971 a 1974, tendo sido eleito pelos seus pares como presidente da Câmara. Foi reeleito no período de 1973 a 1976.

“A atuação eleitoral de Amilton espelhava o seu perfil. Não saía a pedir votos em proveito próprio. Em sua casa, recebia amigos e eleitores e conversava sobre as coisas da cidade. E agradecia cavalheirescamente a promessa do apoio”. Foi vereador numa época em que estes não recebiam proventos.

A Literatura. Amilton amava os historiadores, a literatura ficcional e a poesia. Lia e, no pouco tempo que lhe sobrava, escrevia crônicas e contos, deixando tudo inédito e de difícil consulta. Um de seus romances tem o nome de Maria Bonita. “O espírito gregário e o gosto pelas belas letras fizeram-no imortal, membro que era da Academia de Letras de Ilhéus”. Ocupou a cadeira 31, da qual é patrono Napoleão Level.

A homenagem realizada é um justo tributo a quem muito honrou sua passagem pela terra dos homens.

OBS.: Material cedido pela EDITUS (UESC)

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Jorge Amado, o prefeito Antonio Olimpio
e Amilton Ignácio de Castro

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