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Posts Tagged ‘Economia’

Toda vez que penso em estrada, lembro de uma música muito antiga, chamada “A estrada e o violeiro”, de Sidney Muller, que diz assim: parece um cordão sem ponta pelo chão desenrolado / rasgando tudo que encontra / a terra de lado a lado… não lembro do final, os mais jovens nem a conhecem. Foi de um festival de música daqueles que, quem viveu aquela época, não vai esquecer nunca.

Sempre que vejo uma estrada do alto, lembro desta música; ela já fez parte de uma crônica sobre meu amor por esta cidade, escrita lá por volta de 1982. Pois bem, ontem voltei a lembrar dela. Nos meus sonhos de integração, de “desenvolvimento equilibrado”, a rodovia Jorge Amado, que tem, em uma ponta, a cidade de Ilhéus, na outra a de Itabuna, passará a ser uma longa avenida, destas que vemos em cidades grandes, que deixaram de ser estradas, que se transformaram em avenidas. Algo que une e não que separa.

Nossa belíssima rodovia representa a luta dos cacauicultores da época, dos coronéis do cacau, pelo desenvolvimento e integração desta região, em certos momentos, inóspita, posto que, cheia de empecilhos como muita chuva e acidentes geográficos com dificuldades de transposição. Os nomes de peso daquela época, se não estou errada lá pela década de trinta, lutaram para abrir a primeira “estrada de rodagem” unindo as duas importantes cidades, pois até a sua abertura, o transporte de pessoas era feito por trem ou no lombo de burro, ou ainda a pé, como bem me lembrou uma ouvinte do programa Espaço Cultural, que fiz, durante certo tempo, na rádio Santa Cruz. O coronel Virgilio Amorim, irmão de minha avó Maria Luiza, foi um dos batalhadores para que a estrada fosse construída.

Lembro-me, muito bem, de quando na década de cinqüenta, ela foi melhorada, não sei se asfaltada, mas lembro quando foram plantadas as acácias e bougainvilles, que lhe dão um ar de cartão postal e a torna belíssima na primavera.

Infelizmente, ela não é só beleza, não é só poesia; ela esconde, em cada curva, que acompanha as curvas do rio, onde, uma delas inspirou o acadêmico José Cândido de Carvalho Filho a escrever um romance chamado “A curva do rio”, ela esconde uma traição. Cada dia que passa ela vai ficando mais perigosa, já que o tráfego vai ficando mais intenso, com o aumento de carros em circulação, e com a chegada de tráfego pesado, com caminhões carregados, andando em alta velocidade para lá e para cá; cada dia que passa, ela vai cortando o sonho de muitas pessoas ceifando vidas, disseminando dor. E, quando uma vida se vai, deixa em estado de choque toda a cidade, como se cada um de nós fosse atingido pessoalmente naquela perda.

Quantas pessoas já perdemos de forma absurda? Há como reparar a dor de tantas mães, e filhos, e primos, e sobrinhos – e amigos? A cada ano que passa, pessoas de uma mesma família, ou de famílias diferentes vão morrendo de forma estúpida. Outro dia foi a dor da família de Siomara e dos Zugaib que bateu à nossa porta. E a gente fica sem ter o que dizer, quando as pontas do cordão do poeta se enroscam, não para dar um abraço, mas para cortar vidas cheias de esperança.

Particularmente, reflito muito sobre nossas leis de trânsito, mais punitivas que educativas. Um país deve ser feito com escolas e não com multas e prisões. Um país deve ser construído em cima de alicerces fortes, como o de se ter consciência de que o carro pode ser uma arma, se não for utilizado com muito cuidado. De que adianta se colocar armadilhas para pegar pessoas que infringem as leis, quando se deveria ensinar, desde cedo, o respeito às leis e, principalmente ao bom senso?

Cada caso é um caso e a pessoa consciente deve estar preparada para decidir certo, com prudência, no momento exato de tomar uma atitude ao volante. Eu não conhecia Marcela Zugaib, mas conheço seus pais. Independente disso me causou muita tristeza e mal estar, chegar à Faculdade de Ilhéus e encontrar seu nome na lista de chamada.

Todos nós sabemos que a última viagem que cada ser humano faz é com destino à eternidade. Nem sempre estamos preparados para enfrentar esta situação, principalmente quando a sensação é de que nunca mais veremos aquela pessoa. Esse nunca mais é tão sofrido, que só aqueles que já passaram por isso, sabem do que estou falando. A morte é o destino final da vida, mas não dá para encarar com naturalidade que uma pessoa saia de casa para passear em Itabuna e não volte mais.

É muito triste, é muito doloroso. Esta crônica pretende ser uma homenagem a todos aqueles que se foram desta forma. E um pedido às instituições que lutem pela duplicação da rodovia Jorge Amado.

(Crônica escrita em 2007)

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Início da construção da Rodovia Ilhéus/Itabuna

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No último dia 1° de novembro, os comerciantes de nossa cidade amanheceram em festa, comemorando os 96 anos da Associação Comercial de Ilhéus. A instituição foi fundada em 1º de novembro de 1912, e teve seus estatutos aprovados no mesmo ano. Em 1921 foi reconhecida de utilidade pública e funcionou durante muito tempo na rua Coronel Paiva.

A partir de 1926, por conta do Decreto 12.982, de abril de 1918, a ACI foi autorizada pelo Ministério da Agricultura a inspecionar todo o cacau exportado. Nessa época fazia parte de seu patrimônio a Usina Vitória, primeira fábrica a processar cacau. São inúmeros os feitos desta Associação, que participou ativamente da vida do município, em todo o tempo que o cacau gerou riqueza. De acordo com Barbosa e Argolo, “A Associação Comercial de Ilhéus resolveu assuntos de alta relevância como exportação direta, crédito bancário, tributação eqüitativa, serviço de fiscalização de gêneros alimentícios de produção nacional destinados ao exterior e tantos outros”.

A instituição demonstrava preocupação com os problemas não só do comércio, mas com os problemas da cidade, de modo geral. Assim é que, em 1914, como a cidade não possuísse uma biblioteca pública, em reunião ordinária, a diretoria decidiu que a instituição deveria fundar uma biblioteca. Durante muitos anos esta biblioteca foi a única fonte de pesquisa não só para os estudantes, como também para os professores e intelectuais da cidade, numa época em que havia dificuldade de acesso aos livros.

No decorrer da maior parte do século XX, a Associação Comercial participou ativamente de projetos que tinham como meta melhorar a vida da população ilheense e o desenvolvimento do município. Ela contribuiu na luta pela construção dos dois portos, o antigo, de 1926, e o atual, da década de setenta, como também pelo alfandegamento do primeiro; inaugurou, na praça Rui Barbosa, um busto em homenagem ao ilustre jurista baiano e foi responsável, sob a inspiração do seu diretor Álvaro Melo Vieira, pela criação da Escola Técnica de Comércio, visando dar melhor condições de trabalho aos comerciários da cidade. Sempre foi uma instituição atuante e quando o coronel Misael Tavares embarcou para a Europa, no final da década de vinte, levou uma mensagem da Associação Comercial dirigida ao embaixador do Brasil na França, solicitando-lhe que fizesse propaganda do cacau da Bahia naquele país.

Segundo os professores Arleo Barbosa e Djaneide Argolo, autores de um livro sobre a instituição, havia grande preocupação com a construção de uma nova sede e, em 1932, o prédio começou a ser construído, tendo sido inaugurado em 1934.

O prédio possui linhas neoclássicas, e pode-se perceber o enorme esmero com que foi tratada sua execução. É uma construção em dois pavimentos, ficando no primeiro, o salão de reuniões da diretoria, que possui mesa com cadeiras de espaldar alto, em jacarandá da Bahia, de grande beleza, como também a biblioteca, bastante desfalcada e desatualizada, mas com obras raras; possui ainda a secretaria e uma sala menor. No primeiro andar há um auditório, onde são realizados cursos, palestras, encontros, estando sempre à disposição da comunidade.

Os grandes destaques do prédio são a bela escadaria imperial que parte do hall de entrada para o primeiro piso, com corrimão em metal dourado, tendo ao fundo um vitral colorido; e o Salão Nobre, com pinturas em afresco, imitando tecido.

Não se pode deixar de comentar que foi secretário da Associação Comercial, durante longo período, um dos maiores poetas da região, Sosígenes Costa. Calado, taciturno, enigmático, amigo de Jorge Amado, deixou uma produção muito rica, resgatada pela Fundação Cultural de Ilhéus, no ano de 2001, centenário do seu nascimento. O poeta foi personagem de Jorge Amado no livro São Jorge dos Ilhéus. Era o secretário Sérgio Moura, da Associação Comercial de Ilhéus.

O prédio da Associação Comercial é, em nossa modesta opinião, um dos mais belos exemplares do nosso patrimônio cultural. O atual presidente da instituição, o comerciante José Leite de Souza concluiu recentemente a restauração do prédio e comemorou a data do aniversário homenageando o engenheiro Emilio Odebrecht, o General Luis Henrique Moura Barreto e o Prefeito Newton Lima.

Nossas congratulações aos associados desta quase centenária instituição, patrimônio de todos os ilheenses.

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OS CAMINHOS DO CACAU

A vila de São Jorge dos Ilhéus foi fundada quando os portugueses resolveram ocupar definitivamente as terras do Brasil, com a instituição do sistema de capitanias hereditárias, na década de 1530. Em todas as pesquisas que realizei, nunca encontrei a data da fundação da vila, embora saibamos que a mesma foi fundada pelo representante do donatário Jorge de Figueiredo Correia, o loco-tenente Francisco Romero. A vila teve grande importância no século XVI, mas, apesar da cana-de-açúcar e dos oito ou nove engenhos, a verdadeira riqueza da região foi plantada juntamente com os cacauais, que tomaram conta das terras férteis, protegidas pela exuberante Mata Atlântica.

O nome científico do cacaueiro é “Theobroma Cacao” que significa “cacau, manjar dos deuses”. É uma planta da família Sterculacae e recebeu este nome do naturalista sueco Carolus Linneu,que classificou as plantas. No Brasil, o cacau é nativo da Amazônia, tendo constituído por muito tempo um produto do seu extrativismo.

O cacaueiro é planta nativa nas bacias dos rios Orinoco e Amazonas; das Américas Central e do Sul, e antes de Cristo já era cultivado pelas grandes civilizações indígenas do Continente, principalmente pelos maias e astecas. A notícia mais antiga que se tem do cacau trata da árvore “kakawa”, utilizada pelos Olmec, povo que habitava o litoral do Golfo do México que construiu a primeira das grandes civilizações mesoamericanas.

Entre os anos 450 e 500 surgem vasos de cerâmica para chocolate entre os objetos encontrados nos túmulos da nobreza Maia. Os Maias bebiam o chocolate como um líquido espumoso, quase sempre temperado com pimenta e outros condimentos. O consumo do chocolate é um importante símbolo de status. As sementes de cacau também foram utilizadas como objetos de troca, como moeda. Montezuma, imperador asteca, tomava diariamente inúmeras doses de chocolate, mas, nem todos tinham acesso à bebida, só os nobres e os mais abastados.

Os índios torravam e trituravam o cacau entre duas pedras, ferviam em água aromatizada com baunilha, canela, pimenta ou suco de aveia até que ficasse pastosa, quando era servido em taças.

O cacau foi levado para várias partes do mundo. Em 1565 chegavam as primeiras amêndoas a Sevilha. Em 1560 tem-se o primeiro registro do cacau na Ásia, quando foi levado de Caracas, na Venezuela, para Sulawesi na Indonésia. É provável que o cacau tenha chegado à África em 1590, quando levaram uma árvore a Fernando Pó (hoje Bioko), uma ilha no litoral dos Camarões.

Em 1657 é inaugurada a primeira casa de chocolate em Londres, e no começo do século XIX, estas casas, os cafés e tavernas se tornaram centros de lazer, negócios e debates políticos. Em 1765 começa a produção de chocolate na América do Norte, com a implantação de uma fábrica de moagem em Massachusets. Em 1879 na Suíça, o químico Henri Nestlé e o fabricante de chocolate Daniel Peter, encontram uma forma de misturar o chocolate ao leite – um objetivo que havia frustrado os aficionadas do chocolate, durante séculos, e o chocolate ao leite se torna um sucesso de vendas.

O cacau foi introduzido na região sul da Bahia em 1746 quando foram trazidas as primeiras sementes, plantadas em Canavieiras, na fazenda Cubículo, mas o cacau só começou a aparecer como produto gerador de riquezas a partir da década de 1830. As primeiras plantações foram realizadas por estrangeiros, que foram substituindo a cultura da cana-de-açúcar pela do cacau.

Alguns estudiosos afirmam que a plantação de cacau na Bahia sobreviveu a partir de 1822 com a chegada de um grupo de imigrantes alemães chefiados por Pedro Weyll, os “Solitários do Almada” e que a cultura nasceu ao lado dos engenhos de açúcar.
A partir da década de 1890, aconteceu a expansão da lavoura, quando os nordestinos fugidos da seca vinham em busca do eldorado, do dinheiro fácil e abundante, e foi aí que tomou impulso e cresceu de forma definitiva a lavoura cacaueira.

Os rendimentos gerados pelo produto, só começaram a ganhar expressão na segunda metade do século XIX. O mercado internacional estimulava o crescimento da lavoura e, a cultura aumentou a sua contribuição às exportações baianas. A quantidade de cacau exportado elevou-se de mil arrobas em 1851-52 para 2.677 em 1888-89. A partir daí o crescimento foi se acentuando, até atingir seu auge na década de 1920. A produção cresceu de pouco mais de 3 toneladas no final do século XIX para mais de 50 mil toneladas em 1920. A partir de 1904 o produto assumiu a liderança da pauta estadual, posição que conseguiu manter até o final da República Velha.
Os primeiros vinte anos do século XX representaram a consolidação da lavoura cacaueira. Com a acumulação do capital foi construído o patrimônio edificado das cidades produtoras do fruto dourado, que precisa ser conservado.

O que se perdeu é para ser lamentado, mas deve servir de exemplo para que se conserve o que ainda resta. É um patrimônio que vai enriquecer o turismo local.

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