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Posts Tagged ‘História de Ilhéus’

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Uma vez assisti a um Globo Repórter que nunca esqueço. O programa mostrava um povo muito diferente de nós, que vive na Floresta Equatorial do Congo. Eles são chamados de “pigmeus bambuti”. No livro “Topofilia” de Yi-fu Tuan, ele diz que este povo é formado por homens e mulheres, cujo ciclo de vida é diferente do nosso, pois chega apenas a 30 anos; para eles “o sentido do tempo é restrito. As lendas revelam falta de interesse pelo passado e é curta a sua memória sobre a genealogia”. A cultura deles não inclui a leitura nem a escrita, e eles fazem questão de se manterem isolados da “civilização”.

E aí? O que este fato tem a ver com arquivo público?

Simplesmente nós somos diferentes. Nós preservamos nosso passado, cultivamos a memória, atribuímos valor à história. Só que ainda não identificamos muito bem o que preservar e como preservar.

Ainda é comum ensinarmos às nossas crianças a história de outros povos, e esquecermos de ensinar a nossa. Continuamos a exigir que nossos alunos, mesmo aqueles da zona rural, decorem fatos longínquos no tempo e no espaço, mas não buscamos interessá-lo no conhecimento da história dos locais que ele conhece.

Apesar de já existir um grande movimento dentro das universidades para que a história local seja conhecida, ainda é pouca a produção e, principalmente, a divulgação nas escolas fundamentais.

Nos anos setenta a direção da Ceplac buscou alguns historiadores da UFBA para escreverem trabalhos sobre esta rica região (também do ponto de vista da história). No ano de 1994, a Universidade Estadual de Santa Cruz, UESC, iniciou um programa de aprofundamento do estudo da história da região cacaueira, pois ainda é pouco o que se conhece dos mais de 450 anos de história desta terra. Todos já aprendemos que Ilhéus foi capitania hereditária, mas sabemos muito mais da história oficial, que trata de Rio e São Paulo, do que da nossa terra. Até muito pouco tempo atrás o cacau não constava como um dos principais produtos econômicos produzidos no Brasil. Falava-se em café, em cana de açúcar, mas nem uma linha sobre o cacau. A história da Bahia trata de Salvador e Recôncavo, quase nada sobre a Região Sul.

Naquele ano de 1994 foi oferecido ao público o primeiro curso de História Regional, que depois de dois anos daria o certificado de especialista lato-sensu aos concluintes. Depois daquele, vários outros já foram concluídos. Inúmeras monografias foram produzidas e estão à disposição do público estudantil, ou mesmo para os interessados no assunto.

Eu fiz parte daquela primeira turma e nossa grande dificuldade para escrever a monografia de final de curso foi encontrar material de pesquisa. Ilhéus não possuía um arquivo público, e nem uma biblioteca decente, à altura de uma cidade que começou praticamente junto com o Brasil, antes mesmo que Salvador, fundada em 1549. No ano de 2002 foi inaugurado o Arquivo Público ao lado da Biblioteca Municipal, no prédio inaugurado em 1915, como primeira escola pública municipal, o General Osório.

Nossa história é pouco conhecida, apesar do que se tem produzido e da lei de 1995, criada pelo ex-vereador Nizan Lima, obrigando o ensino de história local nas escolas da cidade; nosso patrimônio histórico é dilapidado, descuidado, desrespeitado. Não creio que seja por maldade, mas por falta de educação mesmo. Ninguém pode dar aquilo que não tem.

Nosso Arquivo Público está aí, servindo aos pesquisadores, ajudando a resolver a vida de muitos funcionários públicos, que necessitam levantar seu histórico de trabalho, e servindo de apoio aos pesquisadores da história local.

O Arquivo Público João Mangabeira funciona na parte de baixo do prédio onde funcionou durante mais de meio século o Colégio General Osório. É um prédio cuja construção lembra as da Belle Époque francesa. Esta expressão, Belle Époque, está diretamente ligada ao período iniciado em 1871, um período romântico, onde acreditava-se que não haveria mais guerra, as mulheres passaram a ter maior participação social e o mundo melhoraria porque a ciência estava se desenvolvendo para resolver todos os problemas do homem, segundo a filosofia positivista.

A ciência resolve alguns problemas, mas, paradoxalmente, cria outros, ainda maiores. Mas é esta a trajetória que temos escolhido.

Ainda assim, continuo insistindo: precisamos preservar nossa memória e divulgar nossa história, pois é assim que se constrói a cidadania. As pessoas precisam ser ensinadas a amar nossa cidade, com tudo que ela possui, com seu patrimônio cultural e sua história; afinal – não somos pigmeus bambuti.

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UM PREFEITO ARROJADO

(Série Vultos Históricos)

Este mês perdemos mais uma figura histórica, Henriquinho Cardoso. Um homem que nunca foi “morno”, que sempre se posicionou diante dos acontecimentos, que agradava e desagradava aos políticos da cidade com a mesma intensidade.

Para falar sobre ele fui buscar inspiração no livro que lançou em 2004, quando estava perto dos noventa anos de idade, lúcido e com a mesma impetuosidade que lhe marcou a vida. O livro tem um nome sugestivo “50 anos em 4 – Pedaços de Uma Vida ou Uma Vida em Pedaços”.

Henriquinho livro

Henrique Weyll Cardoso e Silva, Henriquinho, como era conhecido, nasceu no dia 31 de dezembro de 1916, pouco antes da festa de Ano Novo. Nasceu à Rua 28 de Junho, atual Jorge Amado, nesta cidade de São Jorge dos Ilhéus, como ele bem gostava de frisar. Em seu livro, ele afirma: “a trajetória do nasciturno não contrariou a festa da sua chegada, pois foi sempre de muita luz, muita festa e também muito barulho”.

Aos sete anos foi para Salvador estudar, em regime de internato, no Colégio Antonio Vieira, de padres jesuítas. Passou lá oito anos, longe da família, como era costume à época. De sua passagem pelo colégio afirma que, “lá foi nossa Universidade do Bem”, pois lá ele aprendeu a se tornar um cidadão, recebendo educação, aprendendo a conviver em sociedade, compreendendo seus direitos, mas também, suas obrigações.

Posteriormente, no Colégio Ypiranga, concluiu o curso de Bacharel em Ciências e Letras e, em dezembro de 1941, se tornou Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. Uma vez formado em Direito retornou para Ilhéus, tendo sido nomeado “Delegado de Polícia do Termo e Comarca de Ilhéus”, pelo prefeito Mário Pessoa; tomou posse em 1942, ano em que se casou com Olga Lapa Manso, que todos conheceram como D. Olguinha. Do casamento teve dois filhos: Eduardo Henrique e Maria do Carmo.

No livro, diz Henriquinho: “Procurou servir à população, em um combate sério contra os malfeitores, com ação pessoal, em muitos casos, principalmente nas áreas de aglomeração humana (cinema e futebol), festas de rua e violências criminosas”. Com meus botões fiquei pensando que, diante da violência de hoje, os tais “malfeitores” seriam considerados pessoas de bem.

A seguir o autor narra uma passagem que pode ser considerada hilária, quando conta que ele prendeu os onze jogadores de um clube, porque desrespeitaram os torcedores.

Henriquinho afastou-se da delegacia em 1943, no auge da Segunda Guerra, para servir à Força Expedicionária Brasileira, como soldado da 6ª Companhia do 3° Regimento de Infantaria. Após o fim da guerra ingressou na política partidária, através da União Democrática Nacional (UDN), onde militavam os adeptos do Brigadeiro Eduardo Gomes. Eram seus companheiros de partido Pedro Vilas Boas Catalão, Demósthenes Vinháes, Carlos Pereira Filho, João Adonias Aguiar, dentre outros.

Na primeira eleição a que concorreu foi eleito vereador, tendo sido reeleito na segunda. No governo Catalão foi eleito presidente da Câmara de Vereadores. Em 1953 candidatou-se a prefeito, tendo ficado em terceiro lugar. Na eleição seguinte, em 1958, conseguiu se eleger. A seguir elegeu-se deputado estadual por dois mandatos seguidos e deputado federal em seguida. Ele acredita que perdeu a reeleição para deputado federal por causa da sua luta pela criação do Estado de Santa Cruz.

Como prefeito suas obras foram muitas. Como deputado lutou bravamente pela região que o elegera. Participou ativamente na criação da Faculdade de Direito de Ilhéus, da Ponte do Pontal, do Porto Internacional do Cacau, construiu a ponte da Barra ao Savóia.

Em seu livro podemos encontrar um homem apaixonado até o final da vida. Apaixonado pela cidade onde nascera, pelas causas em que acreditava, pelos filhos, pelos netos e, principalmente pela esposa, a quem dedica um poema, logo no início. Era um poeta, que disse (sobre a esposa):

A musa heróica dos meus sonhos, que não se apagarão jamais, pois continuarão a dominar meu ser, na eternidade dos meus desejos.

“Nasci… Vivi. Sorri, Chorei. Amei e fui amado”. Henrique Cardoso foi um homem público que deixou grandes marcas em sua passagem por esta terra. Merece nossa homenagem e nosso respeito.

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Há trinta e nove anos Mariângela Montalvão mantém a Escola Clave de Sol, no eixo Ilhéus/Itabuna, com alunado particular. Mas o trabalho da Profa. Mariângela, que conta atualmente com o apoio direto da ex-aluna Indira Vita Pessoa, vai muito além do seu alunado; ela promove, também, atividades de cunho social, contemplando creches e menores carentes.

Mariângela Montalvão Sousa Oliveira, filha da professora de música e pianista Wanda Montalvão Oliveira iniciou seus estudos de música em Ilhéus, com sua mãe, que lecionou durante muitos anos nesta cidade. Dentre seus inúmeros alunos, destacam-se o pianista Henrique Cezar Ribeiro e o maestro Eric Vasconcelos.

Mariângela assumiu a direção da Escola Clave de Sol em 1970. É educadora, pianista, regente e compositora. Durante estes 39 anos mais de mil alunos de Ilhéus e Itabuna passaram pela Escola, destacando-se as cantoras Juliana Aquino e Constança Magno Baptista, o baterista Thiago Nogueira e a flautista Indira Vita Pessoa, que atualmente é professora e coordenadora da Escola.

A Escola Clave de Sol, em várias oportunidades, se apresentou em algumas cidades brasileiras, como Brasília, São Paulo, Salvador, Curitiba e Blumenau; atuou, também, para diversos artistas e personalidades, tais como Jorge Amado, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gilberto Gil, o então presidente Fernando Henrique Cardoso e Ivan Lins.

Na Clave de Sol são ministradas aulas de Iniciação Musical, Flauta Doce, Flauta Transversal, Piano, Teclado, Violão, Guitarra, Coral Infantil, Coral Adulto, Musicalização para bebês, Cantoterapia e Bateria. Indira Pessoa começou como aluna, transformou-se em flautista e cantora, trabalhando, na atualidade, diretamente com Mariângela. A escola conta também com os professores Claudenilson Chaves (Cacau), Jaqueline Oliveira e Damião.

Anualmente a Escola Clave de Sol apresenta os “Flautinhas de Ouro” nos palcos das duas maiores cidades grapiúnas, privilegiando sempre o compositor brasileiro.

No espetáculo deste final de semana o ritmo contemplado é a Bossa Nova, como comemoração do cinqüentenário de existência da mesma. O espetáculo é destinado a todas as faixas etárias; todos saem de lá encantados. Como convidados e participantes especiais deste espetáculo, irão se apresentar Ludymille Araújo, a “Banda Encontro”, os mestres Sabará (bateria) e Dinho (capoeira); também estarão presentes o Coral “Amigos da Clave de Sol”, do compositor e intérprete, Marcelo Ganem, com apresentação de Lucia Netto e Louise Lopes.

Com participação e apoio do grande flautista brasileiro Altamiro Carrilho e do músico Guilherme Dias Gomes, os “Flautinhas de Ouro” lançaram o CD comemorativo de seus 30 anos de fundação. Em 2005 celebraram os 35 anos com o CD “Nunca pare de sonhar!” Carrilho ratifica o seu apoio, mais uma vez, bem como, Nelson Ayres e Nando Cordel.

Apesar dos tantos anos de existência, a Escola Clave de Sol é uma “jovem senhora” encantadora, que nunca perde a jovialidade e a pureza das crianças. Vale à pena conferir.

FICHA TÉCNICA DO ESPETÁCULO:

Direção Musical e Regência: Mariângela Montalvão

Direção Artística: Rita Brandi

Coordenação Geral: Indira Vita Pessoa

Assistentes de Palco: Elaine Bela Vista e Marquinhos Nô

Sonorização: Mário Som

Iluminação: Paulo Rosário

Cenografia: Déri e Elaine Bela Vista

Cenotécnica: Du Moura

Figurino: Bel e Ceiça.

(Colaboração de Eliane Sabóia)

4 Clave de Sol Patinhos 299 k 1 Clave Cartaz 274 kb

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(POR SUA FILHA NONÔ)

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Sobre meu pai, eu só tenho palavras de admiração e respeito. Talvez eu não tenha a capacidade de relatar a riqueza de seu espírito e sua sensibilidade diante do mundo e dos fatos da vida. Mas é o que eu pretendo mostrar aqui.

Quem teve algum contato com ele pode perceber que ele prezava pela delicadeza, pela correção e pelo bom senso. Eu nunca o vi maltratar ou maldizer qualquer pessoa. JAMAIS. Desconheço qualquer ato de violência que tenha feito ou palavra agressiva que tenha dito. E isso me deixa muito orgulhosa. Meu pai, para mim, era um sentimental, com uma percepção muito esclarecida da vida e das pessoas.

É a seguinte sua biografia:

Nasceu em 17 de outubro de 1942, em Salvador. Três dias depois já estava em Ilhéus. Ele contava que quando o avô Senô veio conhecer o primeiro netinho, que era ele, disse a minha avó Cora: “vou levar Ton para morar comigo no Rosário (a fazenda)”. E minha avó nervosa, porque era seu primeiro filho, disse: “mas seu Senô, eu tenho que amamentá-lo!”. E o velho disse: “não se preocupe, eu tenho minhas cabras.” E levou-o, realmente. Morou na fazenda até os sete anos, ouvindo muitas estórias, observando o avô, adquirindo valores do homem rural e cultivando o gosto pela terra. Uma história dessa época que ele gostava de contar é a que, nas diversas vezes que ele atravessou o rio Almada de canoa com o avô para ver os coqueirais, o avô partia um coco verde e entornava sobre sua cabeça, dizendo: “aqui é para quando você crescer, ficar gostoso”. Ah, ele adorava.

Então, aos sete anos voltou para a cidade a fim de cursar a escola primária. Ainda no primário, até concluir o ginásio, estudou também em Salvador, sendo interno no Colégio Maristas e depois no Antônio Vieira. Foi na adolescência que começou a se dedicar à leitura. Como não gostava da Cidade do Salvador, decidiu retornar a Ilhéus para cursar o Científico. Nessa ocasião foi seduzido pelos ideais revolucionários opostos à Ditadura Militar. A partir de então, foi travada em suas idéias e em sua personalidade a convicção de ser a LIBERDADE o maior bem do homem. E até o fim repetiu Carlos Drummond de Andrade – “tenho duas mãos e o sentimento do mundo” – me ensinando que, com a liberdade e o entendimento do que seja o mundo, eu poderia construir o que quisesse.

Embaixo do vidro de sua mesa de trabalho, no Cartório, está um recorte de jornal com a seguinte frase anarquista: “aquele que tentar por a mão sobre mim para me governar é meu inimigo”.

Assim amadureceu o homem de caráter singular, com características em sua personalidade próprias da boa índole. Vale dizer, foi um homem íntegro, de natureza serena e espírito libertário.

Mas, de fato, ele não concluiu o Científico. Não lhe agradou a matemática. Iniciou, então, o curso Clássico. Ao término deste, foi aprovado no concurso da Petrobrás. Fazia planos de mudar para Fortaleza, quando adveio a inesperada e prematura morte de seu pai, Chico. Contava apenas vinte anos de idade e teve de voltar-se completamente à família: à mãe Cora, e aos seis irmãos. Nesta época já havia escrito alguns versos.

Em pouco mais de um ano ingressaria na faculdade de Direito, e, ainda estudante, teve a oportunidade de assumir a titularidade do Cartório de Registro de Imóveis da Comarca de Ilhéus. Assim concursado, laborou no Serviço Público com honestidade e competência até os últimos dias de vida. Digo isto, porque, da UTI ele ligava pelo celular para o Cartório a fim de saber como iam os serviços.

Estudando e trabalhando no Cartório, ele pôde começar a organizar sua vida e a de sua família.

E foi levando a vida de forma simples. Gostava de uma amizade sincera, gostava de ler, de escrever, de namorar, gostava da noite, de uma Brahma gelada e de uma moqueca de aratu bem feita. Cantava a lua e o mar em seus versos. Sempre foi muito solícito e procurou ajudar quem precisou dele. Era louco por Ilhéus (Ele brincava com minha mãe dizendo que só se casou com ela porque o nome dela é Ilhéus ao contrário). Mas, o que lhe dava enorme prazer era caminhar dentro da roça de cacau. Ele achava linda demais!

Era um homem muito ligado à terra. Dizia sempre: “sou GRAPIÚNA!!!”

Aos trinta e sete anos casou-se com minha mãe Suely e construiu sua própria família. Meus pais, meus irmãos e eu sempre fomos e seremos apaixonados uns pelos outros. Tivemos um paizão, que, com nossa mãe, nos deu um lar de amor e afeto, nos deu tudo para crescermos como pessoa e intelectualmente também. Nos ensinou o que é a dignidade, o respeito e a fé; nos abençoava ao anoitecer e ao amanhecer (ele dizia que nunca era demais).

E foi assim que ele viveu, dedicando-se à família e ao trabalho no Cartório e nas roças.

Meu pai foi arrebatado de nós e é nele mesmo que nos espelhamos para suportar a dor da falta. Temos em seu exemplo uma pessoa preocupada com seu semelhante e com a natureza.

Lemos em seus versos a beleza do amor e das coisas simples e também, o olhar crítico de um observador do egoísmo e da capacidade destrutiva do homem. Nada lhe passava despercebido.

Como disse minha mãe: “E ele nos deixou saudades e um vazio imenso para mim, mas sei que hoje ele está enriquecendo o infinito com seus poemas, pois ele está junto da PERFEIÇÃO, onde tudo se traduz em cristalinas nuances de LUZ e de PAZ”.

Pai, eu tenho muito orgulho de ser sua filha.

(Escrito em 28.05.2004)

ANTONIO FRANCISCO LAVIGNE DE LEMOS OCUPOU A CADEIRA N° 18 DA ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS.

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Passei por muitas etapas, ao longo da minha trajetória em busca do conhecimento da história de Ilhéus. Tudo começou com a idéia de transformar minha casa em pousada. Os turistas queriam saber de nossa história e, como eu não tinha nada para contar, por desconhecê-la, resolvi ir em busca deste conhecimento.

A história de Ilhéus é muito rica, afinal foi esta uma das primeiras vilas a ser fundada no Brasil, mas foi o cacau que propiciou o seu desenvolvimento, no período compreendido entre o final do século XIX até o início da década de 1980. Após a grave crise que se abateu sobre a região cacaueira, no final dos anos oitenta, faz-se necessário buscar alternativas econômicas viáveis, tendo uma delas, surgido naturalmente pela própria estrutura da cidade, o turismo. No início dos anos oitenta, Porto Seguro e Ilhéus começaram juntas a promover o turismo, disputando inclusive o posto de segundo pólo do Estado. A primeira possui, atualmente, um número de leitos dos mais significativos do país, uma organização voltada para o turismo bem estruturada, enquanto Ilhéus aparenta ter regredido.

Durante estes 15 últimos anos, em que me dediquei ao estudo da história local, pude encontrar muitos documentos interessantes. Assim é que, fazendo buscas em meus arquivos, encontrei em um Guia Turístico publicado em 1991, edição especial para a Associação Brasileira dos Agentes de Viagens (ABAV), uma matéria sobre o turismo local, dizendo que Ilhéus estava “decidida a se tornar o segundo principal pólo turístico da Bahia, depois de Salvador” e que, para isso, crescia a passos largos. E o artigo diz que: “dona de uma beleza natural deslumbrante, a cidade exibe um cenário urbano onde o novo e o antigo convivem harmoniosamente”. Pois é isso, naquele ano ainda havia uma disputa e, digo mais, não tem sido fácil se manter na disputa, posto que, muitas outras localidades despontaram com grande pujança, como Itacaré e Morro de São Paulo.

Pois bem, nosso grande trunfo é nosso patrimônio cultural. Tem horas que me sinto repetitiva, mas, tenho que dizer muitas vezes para conseguir ser ouvida. Nós temos a combinação perfeita para colocar o turismo em evidência. Praias, a Baía do Pontal, cachoeiras, turismo ecológico; mas nosso grande patrimônio é nossa história e a chamada “civilização do cacau”. Não podemos esquecer que Jorge Amado nos deu um grande “empurrão”, contou para o mundo dessa cidade e dessa história. E nós não estamos aproveitando todo este patrimônio, nem o edificado, nem o imaterial.

Se no início da década de noventa, Ilhéus e Porto Seguro disputavam a preferência dos turistas, havia uma expectativa maior em relação a Ilhéus, pois esta possuía uma boa infra-estrutura com porto, aeroporto, hospitais e, hotéis e pousadas estavam sendo construídos. Porto Seguro, no início dos anos 80, era apenas um vilarejo sem essa organização necessária que requer o turismo. Eunápolis, àquela época, vila que pertencia a Porto Seguro, que se emancipou no final daquela década, possuía população maior que a sede e um considerável comércio. Por estas razões apostava-se, sem medo, no crescimento turístico de Ilhéus, que foi sendo perdido.

Aconteceu em Porto Seguro o mesmo fenômeno observado em Guarujá (SP), Búzios (RJ) e muitas outras cidades no Brasil e no mundo: pessoas de fora se apaixonaram pelo local e se mudaram para lá fazendo grandes investimentos econômicos de forma bastante profissional. Ao passo que em Ilhéus a opção do turismo veio como solução para a grave crise que assolou a região no final dos anos oitenta, por diversas razões, sendo a principal delas, a chegada da vassoura de bruxa.

O turismo chegou como “a grande saída”, mas deparou-se com um problema: as pessoas estavam acostumadas a ser servidas, e turismo é basicamente serviço. Pessoas que estavam acostumadas a receber muito dinheiro sem necessidade de ir às fazendas, não souberam mudar de atitude, como se fazia necessário.

Se, ao longo do século vinte, foi construído um significativo patrimônio, representado pelas belas casas, pelas praças bem planejadas, também muita coisa foi demolida, des-construída, modificada, “modernizada”. A cidade mudou de aspecto. É importante o trabalho fotográfico realizado por José Nazal, quando mostra o antes e o agora, para que possamos compreender a extensão do estrago.

Tenho buscado, através de trabalho intenso, passar para as pessoas a importância de conhecer e proteger nosso patrimônio; minha dissertação de mestrado teve como tema a importância do patrimônio cultural de Ilhéus para o turismo. É um trabalho de formiguinha, mas que tem valido a pena. Muita coisa caminhou nestes 15 anos.

Recentemente, o prefeito Newton Lima determinou a utilização do brasão de Ilhéus, um dos nossos símbolos, portanto patrimônio, em tudo que se refere à prefeitura e às obras municipais. Bem mais importante utilizar o brasão, um trabalho do professor Leopoldo Campos Monteiro, do que motes ou frases que dizem do governo, mas não da cidade.

Tenho buscado comprovar que é viável promover turismo cultural, além do turismo de praia em nossa cidade. Tendo percebido a pouca importância dada ao nosso patrimônio cultural, tenho estudado e divulgado a necessidade de todos conhecerem-no, pois é do nosso olhar que vai acontecer o olhar do turista sobre o patrimônio; isto depende da comunidade. “O turismo cultural, tal qual o concebemos atualmente, implica não apenas a oferta de espetáculos ou eventos, mas também a existência e preservação de um patrimônio cultural representado por museus, monumentos e locais históricos” afirma Rodrigues. E poderia complementar, acrescentando o patrimônio imaterial representado por festas e comemorações.

Por outro lado, não podemos admitir que, no século XXI, se pense em realizar qualquer ação que exclua a idéia da sustentabilidade, pois segundo Salvati, em entrevista concedida ao Jornal Agora em 2002: “o turismo é uma das mais promissoras fontes econômicas do planeta. Ele contribui para o desenvolvimento socioeconômico e cultural de um país, mas se for conduzido apenas com enfoque econômico, sem um planejamento baseado nas características biológicas, físicas, econômicas e sociais das localidades, ele pode gerar um desequilíbrio ecológico e social”.

Portanto minha proposta é que cada ilheense conheça, ame e proteja nosso patrimônio cultural, pois é ele que fala de nossa história, de nossas tradições e dos nossos costumes.

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Igreja de São Jorge (séc. XVII)

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GG10 Teatro Municipal

Inaugurado em 1932

Foi com grande alegria que passei a ler a matéria publicada na última quinta-feira, dia 2 de abril, pelo Diário de Ilhéus, anunciando a reabertura do Teatro Municipal. Foi realizada uma reforma completa e, finalmente após dois ou três meses o público vai ter oportunidade de revê-lo de “roupa nova”. É preciso entender que estas obras são necessárias e importantes para conservação do nosso patrimônio edificado. Já disse antes e volto a afirmar que, em Ilhéus cidade que chove bastante, a umidade e a maresia danificam qualquer construção. De vez em quando é preciso realizar a conservação dos prédios.

Foi com esta certeza que, em julho de 2004, preparei um comunicado para enviar ao então prefeito Jabes Ribeiro, dizendo da necessidade de pintarmos o prédio do antigo colégio General Osório, atual Biblioteca e Arquivo Público municipal. A reforma que havia sido concluída dois anos antes estava carecendo de reparos. Foi a última pintura que o prédio recebeu. Está precisando receber uma nova reforma.
Segundo a historiadora Ecléa Bosi, “o passado não é o antecedente do presente, é a sua fonte”. É ele que fala da nossa identidade.

Quanto à nossa história, havia algum movimento de valorização, pois o ilheense tem orgulho de ser um povo especial, formado pela mistura de diversas etnias cujo objetivo comum foi vir para cá em busca de construir um mundo melhor, para si e para sua família. O plantio dos frutos de ouro e a riqueza gerada por ele, permitiu que se formasse nessa região uma cultura singular, única nas terras brasileira, pois formada de índios, negros e brancos, mas vindos de lugares específicos, com objetivos específicos,o de plantar cacau.

Há mais ou menos dez anos começou minha relação com esta história que é muito rica, pois foi escrita com suor e sangue quando se construiu a saga do cacau e os temas que motivaram o grande Jorge Amado a divulgá-la para o mundo.

Acontece que o século XX é um século de grandes transformações em todos os sentidos. Se olharmos o que acontecia em nossas cidades nos seus primeiros anos e compararmos com os últimos, veremos uma enorme distância, um grande abismo.

Na Ilhéus que sonhava com a estrada de ferro e com o progresso, começaram a ser construídos os belos casarões que demonstravam a riqueza que mudaria para sempre a região pouco habitada pelo período de mais de duzentos anos. Dos imponentes e belos casarões construídos nos primeiros vinte anos do século passado, muitos já se foram, como é o caso da casa do coronel Antonio Pessoa, demolida para a construção do prédio onde está localizado o Supermercado Delta. A praça, que era linda, foi transformada em um espaço de comércio de muito mau gosto. Na avenida Soares Lopes muitas casas foram demolidas, outras definitivamente transformadas. A bela Ilhéus transformou-se em um produto híbrido, um misto de antigo e novo, onde, via de regra impera o mau gosto (com exceções, é claro!). Mas o mal que atingiu nossa cidade, atingiu também, a “paulicéia desvairada” de Mário de Andrade e a “antiga cidade maravilhosa” de todos os brasileiros.

Atualmente, com a mentalidade surgida na França e introduzida no Brasil nos anos sessenta, já não se concebe que o patrimônio histórico e cultural de um povo seja destruído, seja ele qual for. Um grupo de idealistas e sonhadores, dentre os quais me incluo, vem lutando, primeiro para fazer nosso patrimônio conhecido, já que, nem isso ele era… ou é. Depois, o que é mais difícil e importante, para que ele seja preservado. Assim, temos lutado e falado e divulgado da importância dessa preservação, até mesmo para desenvolver a atividade turística.

O Teatro Municipal, além de ser um belo exemplar do nosso patrimônio histórico e cultural, é um equipamento artístico de grande importância. Fico satisfeita e, de certa forma aliviada, sabendo que Mauricio Corso está à frente da Fundação Cultural, cuidando do nosso teatro. Lembro perfeitamente do tempo em que ele dirigia as atividades ali realizadas. Foi o tempo em que o teatro mais se movimentou, mais apresentou peças e espetáculos vindos do eixo Rio-São Paulo.

O jornal já publicou uma vasta agenda de espetáculos que estão programados, sem contar que a reabertura conta com a apresentação do Balé do Teatro Castro Alves. Estão de parabéns Pawlo Cidade, um incansável batalhador pelo teatro em nossa cidade, dando continuidade ao trabalho de Pedro Matos, o prefeito Newton Lima, que tem se mostrado sensível à cultura e Mauricio Corso que, com certeza chegou para alavancar os movimentos culturais da cidade.

“Defender nosso patrimônio histórico e artístico é alfabetização” (Mário de Andrade).

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Série Vultos Históricos

José Lourenço da Fonseca Silva nasceu na cidade de Rio Real, nordeste da Bahia, filho de Claudemiro Manoel da Silva e Ana Fonseca da Silva, no dia 10 de agosto de 1922. Cursou apenas até o terceiro ano primário, mas, àquela época este fato não representava uma grande dificuldade, pois eram poucos os que tinham acesso à escola. Durante o tempo em que viveu na sua cidade natal trabalhou como agricultor na fazenda do pai; trabalhou duro na enxada, catando algodão e ordenhando vacas.

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Já morando em Ilhéus trabalhou como sapateiro na Sapataria Maron; trabalhou também no Figurino Mundial e na Casa Única, onde foi proprietário.

José Lourenço contraiu matrimônio no dia 8 de maio de 1948 com a jovem Odete Calasans da Fonseca. O casal, que iria comemorar 61 anos de casado, teve seis filhos, dos quais dois já são falecidos.

Suas atividades profissionais são inúmeras e cada vez mais relevantes. Foi servidor do Instituto de Aposentadoria dos Industriários – IAPI, como chefe de seção  durante 20 anos. Também atuou na política, tendo sido eleito vereador em duas legislaturas, nos anos de 1955 e 1963, diga-se de passagem, quando vereador não recebia salário. Também foi agente da Previdência Social, em Ilhéus.

Quando estava em sua segunda legislatura foi autor do projeto para a criação da bandeira do município, tendo encomendado ao professor Leopoldo de Campos Monteiro a criação dos símbolos heráldicos (bandeira e brasão).

A bandeira  foi hasteada pela primeira vez  no dia 15 de agosto de 1965, na visita do então presidente, Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco; o presidente recebeu o titulo de cidadão ilheense, outorgado pela Câmara de Vereadores em projeto apresentado pelo Presidente José Lourenço da Fonseca Silva, quando da inauguração da ponte Lomanto Júnior.

Foi eleito presidente da Câmara de Vereadores por três períodos e, no governo de Herval Soledade, foi  Prefeito substituto do titular por 12 vezes.

No ano de 1967 recebeu o título de gratidão da Faculdade de Direito de Ilhéus. Em 1981 foi promovido a fiscal da Previdência.

Recebeu os seguintes diplomas e medalhas:

•    Diploma e medalha de ouro como Produtor Modelo – INCRA 1984, recebido na Prefeitura na gestão Jabes Ribeiro;
•    Diploma amigo da 18º CSM de Ilhéus;
•    Diploma Empresarial Destaque Político de 1988;
•    Titulo de Cidadão de Ilhéus em 21/12/1988;
•    Diploma Amigo da Estiva de Ilhéus – 1993;
•    Escolhido Homem do Ano em 1993;
•    Diploma e Medalha de ouro como amigo da Marinha em 1995.

Nos oito anos em que exerceu o mandato de vereador, presidente da câmara, e no exercício de prefeito interino, doou seus vencimentos às entidades filantrópicas, como ao Abrigo São Vicente de Paulo, Casa da Criança, Escolas Profissionais de Datilografia e de Corte e Costura, mantidas pelas Ursulinas da Piedade; doou também todas as máquinas dos dois cursos, não usando nenhum recurso da prefeitura, nem freqüentando teatro, cinema e outras vantagens oferecidas pelo cargo.

Foi autor da Lei que fundou o bairro Jardim Savóia; implantou a rede de água e esgoto, assinando convênio com a SUDENE; criou um projeto de lei pagando o 13º salário para os Funcionários Públicos municipais; foi membro do Rotary Club e recebeu o Troféu Leão de Ouro, do Lions Clube de Ilhéus. Foi considerado a personalidade que mais contribuiu com a Arte e Cultura em 1994.

Foi homenageado pelo Centro de Assistência ao paciente Renal em 1994; pela turma de Auxiliar de Enfermagem do CETEB, em 2001, como também pelos formandos de Enfermagem, neste mesmo ano. Foi escolhido Diretor Financeiro da reforma do INSP (Instituto Nossa Senhora da Piedade), fazendo parte da Comissão criada pelo então superintendente da TV Santa Cruz, Dr. Lício Fontes. Foi Presidente do Conselho Fiscal do Colégio da Piedade das Ursulinas e recebeu o Título de Comendador, oferecido  pelo Prefeito Jabes Ribeiro.

Foi eleito Provedor da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Ilhéus, em 1987. Foi reeleito por seis mandatos. Neste período foram construídos a UTI, o Banco de Sangue, os serviços de Oncologia e de Tomografia Computadorizada; construiu uma Maternidade decente para os carentes, o Centro Cirúrgico, o Berçário, a Maternidade Nova, o Centro Obstétrico e equipamentos novos em convênio com o Ministério da Saúde. No ano de 2008 construiu o pavilhão novo com apartamentos e adquiriu um gerador de energia para a instituição.

No último domingo, o Pai o chamou: “chega, você já fez demais, agora precisamos de você aqui”. José Lourenço partiu, mas não morreu; ficará para sempre no coração dos muitos que o amam e nas suas obras. Descanse em paz, amigo!

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José Lourenço com D. Detinha e a filha Ana Virginia

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