Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘História’

Série Vultos Históricos

sosigenes2

Lá pelos idos de 1926, veio morar em Ilhéus, o belmontense Sosígenes Marinho da Costa, funcionário dos Correios e Telégrafos. Tornou-se amigo de Jorge Amado e tinha o hábito de freqüentar o “palacete” recém construído pelo coronel João Amado de Farias. Posteriormente, se tornou também, secretário da Associação Comercial de Ilhéus. Era um homem taciturno, tímido, de poucos amigos, de poucas palavras, mas de muita leitura. Sem ser um viajante conhecia o mundo inteiro, certamente através do grande contato que tinha com os livros.

Este homem solitário gostava também de escrever e, escrevia seus poemas, para guardar, pois não se preocupava em publicá-los. Não fosse a insistência dos amigos não teria publicado em 1959, seu primeiro livro, de poemas, intitulado Obra Poética. Este livro obteve os prêmios Paula Brito, no Rio, e Jabuti, pela Câmara Brasileira do Livro, em São Paulo.

Este poeta desconhecido teve em Jorge Amado um amigo fiel que lhe reconhecia as qualidades literárias e não media esforços para que suas obras fossem reconhecidas pelo valor que possuem. No livro São Jorge dos Ilhéus existe um personagem, o poeta Sérgio Moura, que trabalhava na Associação Comercial, homem que gostava de se exercitar ao piano, de escrever poesia e namorar mulher casada. A associação do personagem ao poeta valeu a Amado um distanciamento ressentido, pois o poeta não gostava de ser notado. Posteriormente, na reaproximação, Jorge Amado conseguiu que o Partido Comunista financiasse uma viagem para Sosígenes conhecer a China.

Vinte anos depois do lançamento da Obra Poética, o poeta, crítico e ensaísta José Paulo Paes, iniciou um grande movimento para reivindicar um lugar para Sosígenes como um dos grandes poetas do modernismo brasileiro, assim como torná-lo conhecido. Paes o definiu como “o maior poeta da Bahia, depois de Castro Alves”.

A cidade de Ilhéus rendeu grandes homenagens a esse seu filho adotivo, em 2001, por ocasião do centenário de seu nascimento. Na ocasião, o presidente da Fundaci era o escritor Hélio Pólvora, que juntamente com Gerana Damulakis, James Amado, Aleilton Fonseca e muitos outros nomes importantes da literatura baiana, se reuniram para movimentar o cenário literário da Bahia, com o objetivo de tornar o poeta mais conhecido. Foram lançados os seguintes livros: Poesia Completa, com 560 páginas, Crônicas & Poemas Recolhidos, A Sosígenes com afeto, além de um CD com seus poemas, recitados por grandes atores globais, além da revista Iararana.

Naquela ocasião era prefeito de Ilhéus o acadêmico Jabes Ribeiro, também mentor das homenagens porque leitor dos poemas de Sosígenes. Numa homenagem ao poeta, sugeriu que se desse o nome de Iararana, ao parque localizado em Olivença, uma faixa de Mata Atlântica, onde está localizado o Centro Cultural de Olivença.

Mas, afinal o que é Iararana? Em 1934 Sosígenes Costa escreveu um poema épico intitulado Iararana, onde ele conta a saga do cacau e a ocupação da região, pelos portugueses e sua luta com os índios. Este poema, que foi utilizado como título de uma importante revista literária lançada em Salvador, foi tema de pesquisa do Mestrado de Cultura e Turismo, realizado pelo historiador Durval Oliveira. A obra de Sosígenes também tem sido estudada por diversos professores e pesquisadores da nossa língua.

A maior importância de estudarmos (e conhecermos) nossos escritores e poetas está em que, somente dessa forma é possível estabelecermos uma ação efetiva para aumentar nossa auto-estima e reforçar nossa identidade.

Embora nosso poeta só tivesse publicado, em vida, um único livro, ele se utilizava de jornais e revistas para publicar o que escrevia. Assim publicou poemas no Diário da Tarde, de onde era colaborador. Também foi colaborador das revistas O Momento e Arco & Flexa, ligadas ao modernismo baiano.

A cidade de São Jorge dos Ilhéus, “capital cultural do sul da Bahia”, fez questão de reconhecer, no seu centenário de nascimento, o valor deste poeta que viveu nesta cidade por mais de vinte anos; ele é considerado um ícone da poesia baiana e brasileira, e foi incluído na antologia Os Cem Melhores Poetas do Século XX, organizado por José Nêumanne.

Chuva de ouro (1928)

As begônias estão chovendo ouro,
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai ficando louro
e o bosque inteiro redourado fica.

Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas nos galhos da oiticica.

Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.

E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!

sosigenes3

sosigenes4
Anúncios

Read Full Post »

ime1

Há dez anos o Instituto Municipal de Ensino Eusinio Lavigne – IME completou 60 anos de sua inauguração. Naquela época resolvi escrever o livro IME – o sonho de Eusinio Lavigne, que foi publicado pela Editus, e que tem servido de referência para o conhecimento da sua história.

Dez anos se passaram e agora, em 2009, são 70 anos da inauguração. A diretora geral da instituição, Profa. Lidiney Campos de Azevedo mandou celebrar uma missa de ação de graças, para comemorar a data, domingo, 15 de março, na Catedral de São Sebastião.

O IME é uma instituição que deve encher de orgulho cada habitante desta cidade. É uma instituição séria e dedicada à educação, que tem recebido em seus bancos pessoas de todas as classes sociais. Assim é que, pessoas simples tiveram a oportunidade de ascensão social através do conhecimento adquirido na instituição; pessoas consideradas importantes na escala social, também estudaram no IME e chegaram a lugares de destaque em nossa República.

O ginásio municipal foi um sonho de Eusínio Lavigne, prefeito no período de 1930 a 1937, que foi destituído do cargo por motivos políticos. Este sonho só pode ser realizado dois anos depois, em 1939, pelo prefeito Mário Pessoa.

O primeiro diretor da instituição foi o advogado e professor de português, Dr. Heitor Dias, que mais tarde foi prefeito de Salvador e importante senador da República. Foi a primeira escola pública  a oferecer o curso ginasial no interior da Bahia, e foi criado nos moldes do Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro, e do Colégio da Bahia, em Salvador, ambos colégios modelo. Seus professores foram os melhores que já passaram por Ilhéus e, até a década de 90, foi a escola pública de Ilhéus que mais aprovou em vestibular, pois trabalhava com o ensino médio.

É da maior importância o papel desempenhado pelo Instituto Municipal de Ensino Eusinio Lavigne (IME) na educação e na vida da comunidade ilheense, não só nos dias de hoje, mas no decorrer de toda a sua história.

O jornal “O Diário da Tarde”, em matéria publicada no dia 10 de fevereiro de 1939, inicia um artigo de página inteira dizendo o seguinte: “O ginásio municipal de Ilhéus é uma dessas obras portentosas que valem, por si só, um atestado do progresso, da riqueza e da civilização de uma cidade. Ilhéus muito se deve honrar de o possuir, porque, já pelas suas linhas arquitetônicas originais e imponentes, já pelas suas divisões internas, tecnicamente dispostas, já pela sua finalidade altamente patriótica, constitui o ginásio de Ilhéus, o melhor monumento da cidade e uma das mais belas, das mais grandiosas, das mais respeitáveis realizações públicas em Ilhéus e no Estado”.

PARABÉNS AO IME E À CIDADE DE ILHÉUS!

Alunos do Ginásio de Ilhéus, no terraço da instituição, no ano de 1942. alunos

Read Full Post »

academia5

 

No ano de 1959, alguns homens, idealistas e sonhadores, imaginaram que Ilhéus poderia ter uma Academia de Letras, já que possuía escritores de primeira linha como Jorge Amado, Adonias Filho e Jorge Medauar, dentre outros. Naquela época nosso Amado Jorge (como gosto de chamá-lo), recebia para uma turnê pelo Brasil, nada menos que Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, o célebre casal francês de escritores existencialistas. Aquele foi o ano da construção de Brasília, foi uma época de grandes mudanças em nosso país.

Os homens que idealizaram a Academia de Letras de Ilhéus – ALI – se chamavam Abel Pereira, o bispo diocesano, D. Caetano, Nelson Schaun, Plínio de Almeida, Wilde de Oliveira Lima e Nilo Pinto. As reuniões eram realizadas na casa de Nelson Schaun, teoricamente, primeira sede da ALI. Aos primeiros se juntaram Francolino Neto, Halil Medauar, e Leopoldo Campos Monteiro, dentre outros.

Segundo o acadêmico, advogado criminalista e brilhante professor Francolino Neto, “o momento histórico vivido no final da década de 50 dos anos novecentos, informava haver, em todos os quadrantes desta Nação Cacaueira, uma profunda disposição para a decolagem cultural” (Estante da Academia).

Ainda de acordo com o mesmo confrade, o grupo de intelectuais de Ilhéus e Itabuna que idealizaram a instituição, tinha como objetivo recolher a produção dos escritores e poetas nascidos ou radicados na região para publicá-los em jornais e em livros. O povo de Ilhéus, os plantadores de cacau disseminaram na sua cultura o gosto pelo belo, pelas artes, pela poesia e literatura.

Durante mais de quarenta anos a Academia de Letras de Ilhéus, a Casa de Abel Pereira se manteve firme, com seu quadro renovado, toda vez que um membro partia para outra dimensão. A Academia se manteve por causa da persistência dos seus membros que, mesmo sem possuir uma sede própria, reunindo-se de “favor”, ora aqui, ora ali, não deixaram que ela se acabasse. E o sonho da sede própria nunca deixou esses homens que, além de escrever, sabiam sonhar.

Eis que entrou no governo o prefeito Jabes Ribeiro, para mais um mandato. E um dos persistentes integrantes da ALI, o ex-prefeito Ariston Cardoso, e então presidente da instituição, entendeu de pedir ao prefeito a sede da Academia. Confesso que imaginei uma pequena sala, talvez um pedaço de uma casa, não sei o que pensei, mas, certamente nenhum de nós teve capacidade para imaginar o que estava por vir. O tempo foi passando e parecia que o sonho não se transformaria em realidade.

Dia 14 de março de 2004, dia da poesia, data de nascimento do grande Castro Alves, a sede da Academia foi entregue aos seus membros, mas principalmente à cidade de Ilhéus. Para quem pensou que ela estava destinada apenas aos acadêmicos, pode mudar de idéia. Esta é mais uma casa a serviço da cultura de Ilhéus, que tem recebido visitas diariamente de pessoas curiosas de ver como ficou, e todos saiam de lá encantados. Os eventos começaram a acontecer, como lançamento de livros, palestras e encontros, e as pessoas saíam encantadas com a certeza de que voltariam, porque a casa das letras pertence ao povo de Ilhéus e está completando cinco anos de existência.

Aconteceram muitos saraus literários que deverão retornar. Pessoas de todas as idades se encontram para ler e declamar poesias.

“O mundo cultural brasileiro passou o drama estampado em Maria Bonita, (1914); soube dos ‘caxixes’ praticados nas matas cortadas pelo Rio de Contas, através dos Rincões dos frutos de ouro, (1928); pasmou-se com a perfeição estética de Sosígenes Costa; o aljofrar romântico de José Bastos e as narrativas de Jorge Amado e Adonias Filho. A criação da Academia de Letras de Ilhéus, estava, pois, justificada, a fim de abrigar autores regionalmente conhecidos, todos trabalhando com a Literatura” (Francolino Neto, 2001).

Se alguém chegou a pensar que seria perda de tempo criar o espaço da Academia de Letras, pode mudar de pensamento. É promovendo a cultura e a arte que teremos escritores, poetas e artistas. E, graças a Deus, São Jorge dos Ilhéus tem a bênção de produzir, entre outras coisas, como já dizia Adonias, escritores.

 

academia1

Read Full Post »

– O BAIANO DE ILHÉUS –

manoel carlos

Esta semana fomos surpreendidos com a triste notícia da partida de Manoel Carlos, o Baiano de Ilhéus (para seus amigos internautas).

Manoel foi um amigo muito querido, um companheiro que falava a mesma língua da paixão por Ilhéus e o gosto pelo seu patrimônio histórico e cultural. Assim que soube da notícia, pensei que minha matéria de hoje teria que ser sobre ele. E aí me lembrei do dia em que ele ingressou na Academia de Letras e fui convocada a fazer sua saudação. As palavras a seguir foram retiradas desta matéria publicada em 2006.

Existem coisas que acontecem quando somos crianças, que a memória insiste em guardar. Dentre estas, estão minhas vindas a Ilhéus, quando ainda muito pequena, ia visitar os parentes mais velhos, tio Virgilio e tia Duzinha, tio Afrânio, tia Alice, mãe do ilustre confrade. E eu gostava de fazer estas visitas, gostava de rever os parentes mais idosos. É desta época que lembro de Manoel Carlos e seus irmãos, seus filhos que, mesmo tendo um vínculo sanguíneo mais distante, sempre nos tratamos como “primos”.

Não lembro exatamente quando nos aproximamos mais de perto, pois a sensação é de que sempre estivemos por perto já que, temos algo muito forte em comum, que é nosso amor pela história de Ilhéus. Com a aproximação veio a admiração pelo homem que não mediu esforços para lutar e defender a cidade em que nasceu e que amou. O presidente do Instituto Histórico que não se conformou com o fato de que a toponímia da cidade fosse tratada de qualquer maneira e exigiu que este assunto fosse encarado com seriedade. Assim formou uma comissão para pesquisar o nome verdadeiro da Capitania e de sua vila capital. Preocupado com o monumento ao Dois de Julho, data da maior importância para nosso Estado, publicou artigos exigindo do poder público respeito ao único monumento da cidade alusivo à Independência da Bahia.

Foi este homem, apaixonado e valente, lutador pelas causas de sua região, que a Academia de Letras de Ilhéus recebeu naquele dia, como mais um de seus membros, ocupando a cadeira de número 33, ocupada pelo escritor Jorge Medauar.

Manoel Carlos Amorim de Almeida escreveu por mais de sessenta para jornais locais e de Salvador e, em 1995, publicou, pela GRD Editora, o livro Porto de Ilhéus e etc., etc. etc., uma coletânea das crônicas publicadas em jornais. Em um futuro muito próximo vai ser publicado um livro seu pela Editus. Pena que ele não esperou para vê-lo pronto.

Lutou pela manutenção do nome de Ilhéus na denominação do Porto Internacional. “O que não podemos e nem devemos aceitar é que o nome de Ilhéus seja eliminado da denominação de seu porto, que tanto representa para a região e para o país, quando os demais portos nacionais, sem uma exceção sequer, dos grandes aos pequenos, têm os nomes de suas respectivas cidades”.

Ele foi (palavras suas), um intransigente defensor do Estado de Santa Cruz, por entender que a junção das capitanias de Porto Seguro, dos Ilhéus, de Itaparica, com a da Bahia, beneficiou apenas a capital e o Recôncavo. Ele partiu sem perder a esperança de que esta região tivesse o desenvolvimento que merece.

Sobre a cacauicultura, ele se declarava um grande conhecedor da região e da formação de suas cidades, a partir dos aglomerados urbanos surgidos ao lado das roças de cacau. Sobre as ações institucionais que mantêm relação com o cacau, elogiou o que deveria ser elogiado e criticou o que achava que estava errado. Nunca se calou e não pode ser considerado um homem “morno” ou indiferente, pois foi sempre atuante e presente na luta por uma região, onde sempre prevaleceu o egoísmo e o egocentrismo.

Por conhecer tão de perto as questões ligadas à cacauicultura, publicou artigos em que reivindicava a construção de estradas, em um município tão extenso. Lutou pela industrialização do cacau em Ilhéus e pela criação do Distrito Industrial. Suas crônicas nos revelam a história recente da região.

Foi um atuante membro do Instituto Histórico de Ilhéus, acrescentando-lhe o Geográfico; preocupado em participar dos acontecimentos, fundou a Ação Solidária Viver Ilhéus – ASVIL, uma associação sem fins lucrativos, cujo único interesse era o de lutar pelas causas da cidade. Buscou companheiros com o entusiasmo de um menino para concretizar seus planos. Assim foi também, mais recentemente, com a SPPHI (Sociedade de Proteção ao Patrimônio Histórico de Ilhéus).

Manoel Carlos foi um homem de bem que plantou amor aos seus e amizade aos amigos. Pertenceu à agremiação de pessoas de quem se diz “imortais”, não porque deixam de morrer, mas, porque ao chegarem ao fim de suas jornadas, permanecerão para sempre, no que escreveram e no que acreditaram.

Manoel Carlos, descanse em paz, com a certeza do dever cumprido…

Read Full Post »

(Série Vultos Históricos)

milton santos

Quem foi Milton Santos?

Será que as gerações mais novas sabem alguma coisa a respeito deste baiano, negro e geógrafo, conhecido em muitas partes do mundo?

Apesar de conhecê-lo pela fama alcançada, foi com surpresa que fiquei sabendo de sua passagem por Ilhéus, quando fiz minha pesquisa sobre o IME. Mas afinal, quem foi Milton Santos? Por que homenageá-lo, qual a sua importância?

Para falar um pouco sobre este brasileiro cidadão no mundo, fui buscar socorro na Internet. Os sites se multiplicam, existe muita informação sobre ele. Mas escolhi aquelas passadas pelo professor Wagner Costa Ribeiro, do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP).

Diz o professor Ribeiro que: “Discutir a obra de um intelectual com as qualidades de Milton Santos exige um esforço coletivo e abrangente. Coletivo dada a diversidade de disciplinas que fazem uso de suas idéias. Abrangente graças aos diversos aspectos que ele abordou durante uma carreira que alcançou mais de 50 anos”.

Milton Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, em 03 de maio de 1926, e ganhou o mundo. Porém, soube manter seus olhos nos arranjos sociais contemporâneos para construir uma teoria original que serve à interpretação do mundo que parte da geografia, do território, envolvendo os habitantes dos lugares. Concluiu o curso de Direito em 1948, mas veio para Ilhéus ministrar aulas de Geografia no ensino médio. Daí seu interesse pela disciplina que o lançou ao mundo das idéias e da reflexão política.

Em 1958 obteve o título de Doutor em Geografia, na Universidade de Strasbourg (França), passando a ensinar na Universidade Católica de Salvador e, depois, na Universidade Federal da Bahia, na década de 1960. Sua habilidade com as palavras e seu texto vigoroso rendeu-lhe a participação em jornais, como A Tarde, em Salvador na década de 1960 e na Folha de São Paulo, em 1990.

Homem de ação política, aceitou o convite para participar de governos no início da década de 1960 que culminou com sua prisão em 1964 por ocasião do golpe de estado implementado pelos militares ao Brasil. Foram 3 meses difíceis. Ao sair da prisão carregava consigo uma decisão: era preciso partir. O geógrafo ganhava o mundo.

O começo de sua carreira internacional forçada ocorreu na França, onde trabalhou em diversas universidades, como as de Toulouse (1964-1967), de Bourdeaux (1967-1968) e de Paris (1968-1971). Durante esses anos realizou estudos sobre a geografia urbana dos países pobres e produziu vários livros como Dix essais sur les villes des pays-sous-dévelopés (1970), Les villes du Tiers Monde (1971) e L’espace partagé (1975, traduzido como O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana, em 1978). Este último marca a expressão de uma de suas idéias originais: a existência de dois circuitos da economia. O primeiro constituído pelas empresas, pelos bancos e firmas de seguros, ao qual chamava de rico. O segundo expressado pela economia informal, por meio do comércio ambulante e dos demais circuitos pobres da economia.

Da França partiu para vários outros países, vivendo de maneira itinerante e como professor convidado. Atuou em centros universitários, da América do Norte (Canadá, University of Toronto – 1972-1973; Estados Unidos, Massachusetts Institute of Technology, Cambridge – 1971-1972 e Columbia University, Nova York – 1976-1977), da América Latina (Peru, Universidad Politécnica de Lima – 1973; Venezuela, Universidad Central de Caracas – 1975-1976) e da África (Tanzânia, University of Dar-es-Salaam – 1974-1976).

Seu retorno ao Brasil decorreu de um acontecimento especial ao geógrafo baiano: a gravidez de sua segunda esposa, Marie Hélene Santos. Milton queria que seu segundo filho, Rafael dos Santos, nascesse baiano, como seu primogênito, o economista Milton Santos Filho, que faleceu poucos anos antes que o pai.

Em 1978 estava de volta à vida universitária brasileira. Mas trazia na bagagem uma obra que marcou sobretudo aos geógrafos marxistas do país:Por uma geografia nova, que foi traduzida para vários idiomas em diversos países. Neste trabalho Milton Santos preconiza uma geografia voltada para as questões sociais.

Em 1983 ingressou no Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. A produção intensa desenvolvida no Departamento de Geografia da USP resultou na indicação para receber o prêmio Vautrin Lud, que é considerado o Prêmio Nobel no âmbito da Geografia. Em 1994 Milton Santos foi o primeiro intelectual de um país pobre e o primeiro que não tinha o inglês como língua pátria agraciado com tal distinção.

Considero que a cidade de São Jorge dos Ilhéus tem uma grande dívida com este professor que viveu em nossa cidade, como professor catedrático de Geografia, no Ginásio de Ilhéus (atual IME), na década de 1940.

Informações obtidas no site http://www.ub.es/geocrit

Read Full Post »

(SÉRIE VULTOS HISTÓRICOS)

O jurista, político e escritor João Mangabeira nasceu na cidade do Salvador em 26 de junho de 1880. Aos treze anos de idade ingressou na Faculdade de Direito e, apesar de pertencer a uma família numerosa e de poucos recursos, conseguiu concluir seu curso aos 17 anos.

Uma vez formado decidiu se mudar para Ilhéus, cidade que entrava numa fase de grande desenvolvimento, por conta do crescimento da lavoura cacaueira, no início do século XX. A cidade apresentava, àquela época, um desenvolvimento comparável somente, às zonas de mineração, tal era o número de pessoas que para cá se dirigiam, em busca de um futuro melhor.

Foi esta cidade em franco desenvolvimento, que o jovem João Mangabeira escolheu para iniciar sua vida de bacharel em Direito.

De acordo com relato de Paulo Brossard, tudo começou quando a sessão do júri teve início, e entrou em julgamento um réu pobre e sem advogado; o juiz nomeou Dr. Mangabeira como defensor do mesmo. O advogado não sabia nada do processo, mas enquanto ouvia o relatório do magistrado, foi guardando todos os dados: nomes, páginas e outros pormenores. “E, mal o promotor conclui a acusação, o jovem advogado de defesa, minutos antes designado, estraçalha a acusação, apontando-lhe contradições, corrigindo nomes, indicando páginas do processo que ele não chegara a manusear. O réu foi absolvido e o advogado passou a ter sucesso”.

No ano de 1907, João Mangabeira concorreu com o Coronel Pessoa à Intendência Municipal da cidade, tornando-se vitorioso. Tomou posse do cargo em 1° de janeiro de 1908 e governou até 1911. Desde que chegou a esta cidade foi correligionário do Coronel Adami de Sá.

Um fato interessante ocorrido com João Mangabeira durante o seu mandato, foi a realização do calçamento da rua Antonio Lavigne de Lemos. As pedras são especiais, diferentes e correm muitas lendas sobre a sua origem. Quando escrevia meu livro Passeio Histórico, tive a oportunidade de entrevistar Raimundo Sá Barreto, que me contou o seguinte: um navio que vinha da Europa com destino ao Rio de Janeiro, encalhou na entrada da barra; as pedras inglesas, que serviam de lastro para o navio e seriam utilizadas como calçamento no mercado de São Sebastião, no Rio, foram retiradas do mesmo e compradas pelo intendente da época, João Mangabeira. Foi ele quem contou este fato a Sá Barreto.

Tendo sido eleito Deputado Estadual, de 1910 a 1912, o governo municipal foi exercido pelo médico Artur Lavigne. Em seguida elegeu-se Deputado Federal. Em pouco tempo tornou-se uma das figuras de maior destaque na Câmara dos Deputados. Bastante conceituado como parlamentar e jurista, passou a figurar entre as altas inteligências do país. Quando teve início a campanha civilista, aproximou-se de Rui Barbosa, a quem haveria de seguir sempre. Quando Rui morreu, em 1923, foi ele quem proferiu o discurso em homenagem ao mestre.

Posteriormente, foi também Senador, Ministro das Minas e Energia e da Justiça.
Sua atuação política foi marcada pela defesa do socialismo. Foi deputado constituinte em 1934 e lutou contra a ditadura do Estado Novo, de Getulio Vargas. Por conta disto ficou preso durante 15 meses, tendo afirmado, em 1936: “prefiro ficar preso por essa ditadura, a ficar livre, pactuando com ela”.

Com o final do Estado Novo, integrou a Esquerda Democrática (ED), grupo que atuava dentro da UDN (União Democrática Nacional). A ED se tornou partido político e passou a se chamar Partido Socialista Brasileiro (PSB), do qual se tornou presidente. Em 1947 foi eleito deputado federal pela Bahia. Foi ainda candidato à Presidente da República, concorrendo com Getulio Vargas, sabendo que não se elegeria, apenas para honrar o partido e não decepcionar seus companheiros.

Era irmão do médico e poeta Francisco Mangabeira e do político Otávio Mangabeira. João Mangabeira faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 27 de abril de 1964.

Read Full Post »

zumbi

No próximo dia 20 de novembro, a nação brasileira comemora o “Dia Nacional da Consciência Negra”. A data foi estabelecida pelo projeto de lei número 10.639, tendo sido promulgado  no dia 9 de janeiro de 2003. A escolha da data se deve ao fato da morte do grande líder negro, Zumbi dos Palmares, ter ocorrido neste dia, no ano de 1695, no famoso Quilombo dos Palmares, estado de Alagoas.

O líder Zumbi dos Palmares personifica a luta do negro contra a escravidão, marco vergonhoso de nossa história colonial. E representa, também, com a formação dos quilombos, uma forma coletiva, que o negro brasileiro encontrou, para manter suas raízes e suas tradições. Zumbi morreu em combate. Lutou até a morte pelo direito à liberdade para o seu povo.

A partir de sua criação, esta data é utilizada como um dia de conscientização e reflexão, sobre a importância da cultura africana na construção da nação brasileira. Na construção da História do Brasil, o negro africano tem importante papel, em diversos aspectos: culturais, políticos, sociais, gastronômicos e religiosos.

Os negros chegaram ao Brasil assim que Portugal iniciou sua ocupação de forma definitiva, já que, nos primeiros trinta anos vieram apenas expedições exploratórias. Posteriormente, foi criado o sistema de Capitanias Hereditárias, que também não deu certo. Foi o plantio da cana-de-açúcar que, verdadeiramente, possibilitou a ocupação destas terras, que dão ao nosso país uma dimensão continental.

Segundo Coelho Filho (2000, p. 132),  “No dia 29 de março de 1559, exatamente dez anos depois do desembarque de Tomé de Souza no Brasil, três importantes alvarás foram assinados. O primeiro proibiu o embarque de degredados para o Brasil contra a vontade dos mestres, senhores e pilotos dos navios. O segundo autorizou o resgate no rio do Congo, África, de escravos, até o limite de 120 peças, destinados aos engenhos de açúcar do Brasil. Esse ato é reputado como o marco inicial do comércio de escravos negros para a Costa do Brasil”.

O trabalho com o açúcar demandava mão-de-obra considerável, num tipo de atividade agrícola e manufatureira intensa. A grande plantação requeria a constituição de nova forma de organização do trabalho, sem parâmetros na Europa. A única maneira de garantir trabalhadores na intensidade e na quantidade exigida pelo fabrico do açúcar era a compulsão, fosse pela servidão, fosse pela escravidão, segundo a Dra. Vera Ferlini.

Com a construção do Engenho de Santana, na localidade do Rio do Engenho, eles também vieram para a região. Existem muitos marcos da presença negra na antiga Vila de São Jorge dos Ilhéus.

No Engenho de Santana eles se revoltaram e formaram um quilombo, dizem alguns estudiosos. No ano de 1789 fizeram uma rebelião, fugiram e escreveram uma carta exigindo negociação para o retorno ao trabalho. Eles reivindicavam os dias de sexta e sábado para o trabalho próprio, poder plantar em terras apropriadas e uma barca grande para que pudessem transportar seus produtos até a Bahia (Salvador), sem pagar frete. Este documento tem uma importância muito grande, pois representa a primeira representação trabalhista efetuada pelos negros. As negociações duraram dois anos e, quando chegou ao fim, seus líderes foram mortos. Mas eles resistiram, pois sempre foram fortes.

Atualmente, muitos dos seus descendentes fazem parte da sociedade ilheense, na política, no magistério, no seio da população, prestando serviços relevantes, onde quer que estejam. Muitos grupos estudam a cultura africana dos seus antepassados.

Um deles já foi motivo de matéria escrita por nós, não faz muito tempo. O Unzó de Matamba Tombenci Neto, terreiro de candomblé de nação angola, que tem uma longa tradição nesta cidade de Ilhéus. Dirigido hoje por Mameto Mukalê (Ilza Rodrigues), a casa já possui 123 anos. Sua história teve início ainda no século XIX, mais precisamente no ano de 1885, quando Tiodolina Félix Rodrigues, a Nêngua de Inkice Iyá Tidú, avó de Mameto Mukalê, fundou o Terreiro Aldeia de Angorô.

O Terreiro se firmou, cresceu e criou raízes. Os descendentes dos seus fundadores continuam trabalhando para manter viva esta rica cultura.

A Associação Beneficente e Cultural Matamba Tombenci Neto, a Organização Gongombira e o Grupo Cultural Dilazenze apresentam a 1ª Mostra de Vídeos Étnico–Raciais de Ilhéus, como parte da programação do NOVEMBRO NEGRO. Será desenvolvido um conjunto de atividades destinadas à comunidade e aos estudantes das escolas públicas e particulares de Ilhéus, em comemoração ao dia 20 de Novembro, Dia Nacional da Consciência Negra.

Desejamos muito sucesso!

acarajé

Read Full Post »

Older Posts »