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Posts Tagged ‘Ilhéus’

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Uma vez assisti a um Globo Repórter que nunca esqueço. O programa mostrava um povo muito diferente de nós, que vive na Floresta Equatorial do Congo. Eles são chamados de “pigmeus bambuti”. No livro “Topofilia” de Yi-fu Tuan, ele diz que este povo é formado por homens e mulheres, cujo ciclo de vida é diferente do nosso, pois chega apenas a 30 anos; para eles “o sentido do tempo é restrito. As lendas revelam falta de interesse pelo passado e é curta a sua memória sobre a genealogia”. A cultura deles não inclui a leitura nem a escrita, e eles fazem questão de se manterem isolados da “civilização”.

E aí? O que este fato tem a ver com arquivo público?

Simplesmente nós somos diferentes. Nós preservamos nosso passado, cultivamos a memória, atribuímos valor à história. Só que ainda não identificamos muito bem o que preservar e como preservar.

Ainda é comum ensinarmos às nossas crianças a história de outros povos, e esquecermos de ensinar a nossa. Continuamos a exigir que nossos alunos, mesmo aqueles da zona rural, decorem fatos longínquos no tempo e no espaço, mas não buscamos interessá-lo no conhecimento da história dos locais que ele conhece.

Apesar de já existir um grande movimento dentro das universidades para que a história local seja conhecida, ainda é pouca a produção e, principalmente, a divulgação nas escolas fundamentais.

Nos anos setenta a direção da Ceplac buscou alguns historiadores da UFBA para escreverem trabalhos sobre esta rica região (também do ponto de vista da história). No ano de 1994, a Universidade Estadual de Santa Cruz, UESC, iniciou um programa de aprofundamento do estudo da história da região cacaueira, pois ainda é pouco o que se conhece dos mais de 450 anos de história desta terra. Todos já aprendemos que Ilhéus foi capitania hereditária, mas sabemos muito mais da história oficial, que trata de Rio e São Paulo, do que da nossa terra. Até muito pouco tempo atrás o cacau não constava como um dos principais produtos econômicos produzidos no Brasil. Falava-se em café, em cana de açúcar, mas nem uma linha sobre o cacau. A história da Bahia trata de Salvador e Recôncavo, quase nada sobre a Região Sul.

Naquele ano de 1994 foi oferecido ao público o primeiro curso de História Regional, que depois de dois anos daria o certificado de especialista lato-sensu aos concluintes. Depois daquele, vários outros já foram concluídos. Inúmeras monografias foram produzidas e estão à disposição do público estudantil, ou mesmo para os interessados no assunto.

Eu fiz parte daquela primeira turma e nossa grande dificuldade para escrever a monografia de final de curso foi encontrar material de pesquisa. Ilhéus não possuía um arquivo público, e nem uma biblioteca decente, à altura de uma cidade que começou praticamente junto com o Brasil, antes mesmo que Salvador, fundada em 1549. No ano de 2002 foi inaugurado o Arquivo Público ao lado da Biblioteca Municipal, no prédio inaugurado em 1915, como primeira escola pública municipal, o General Osório.

Nossa história é pouco conhecida, apesar do que se tem produzido e da lei de 1995, criada pelo ex-vereador Nizan Lima, obrigando o ensino de história local nas escolas da cidade; nosso patrimônio histórico é dilapidado, descuidado, desrespeitado. Não creio que seja por maldade, mas por falta de educação mesmo. Ninguém pode dar aquilo que não tem.

Nosso Arquivo Público está aí, servindo aos pesquisadores, ajudando a resolver a vida de muitos funcionários públicos, que necessitam levantar seu histórico de trabalho, e servindo de apoio aos pesquisadores da história local.

O Arquivo Público João Mangabeira funciona na parte de baixo do prédio onde funcionou durante mais de meio século o Colégio General Osório. É um prédio cuja construção lembra as da Belle Époque francesa. Esta expressão, Belle Époque, está diretamente ligada ao período iniciado em 1871, um período romântico, onde acreditava-se que não haveria mais guerra, as mulheres passaram a ter maior participação social e o mundo melhoraria porque a ciência estava se desenvolvendo para resolver todos os problemas do homem, segundo a filosofia positivista.

A ciência resolve alguns problemas, mas, paradoxalmente, cria outros, ainda maiores. Mas é esta a trajetória que temos escolhido.

Ainda assim, continuo insistindo: precisamos preservar nossa memória e divulgar nossa história, pois é assim que se constrói a cidadania. As pessoas precisam ser ensinadas a amar nossa cidade, com tudo que ela possui, com seu patrimônio cultural e sua história; afinal – não somos pigmeus bambuti.

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UM PREFEITO ARROJADO

(Série Vultos Históricos)

Este mês perdemos mais uma figura histórica, Henriquinho Cardoso. Um homem que nunca foi “morno”, que sempre se posicionou diante dos acontecimentos, que agradava e desagradava aos políticos da cidade com a mesma intensidade.

Para falar sobre ele fui buscar inspiração no livro que lançou em 2004, quando estava perto dos noventa anos de idade, lúcido e com a mesma impetuosidade que lhe marcou a vida. O livro tem um nome sugestivo “50 anos em 4 – Pedaços de Uma Vida ou Uma Vida em Pedaços”.

Henriquinho livro

Henrique Weyll Cardoso e Silva, Henriquinho, como era conhecido, nasceu no dia 31 de dezembro de 1916, pouco antes da festa de Ano Novo. Nasceu à Rua 28 de Junho, atual Jorge Amado, nesta cidade de São Jorge dos Ilhéus, como ele bem gostava de frisar. Em seu livro, ele afirma: “a trajetória do nasciturno não contrariou a festa da sua chegada, pois foi sempre de muita luz, muita festa e também muito barulho”.

Aos sete anos foi para Salvador estudar, em regime de internato, no Colégio Antonio Vieira, de padres jesuítas. Passou lá oito anos, longe da família, como era costume à época. De sua passagem pelo colégio afirma que, “lá foi nossa Universidade do Bem”, pois lá ele aprendeu a se tornar um cidadão, recebendo educação, aprendendo a conviver em sociedade, compreendendo seus direitos, mas também, suas obrigações.

Posteriormente, no Colégio Ypiranga, concluiu o curso de Bacharel em Ciências e Letras e, em dezembro de 1941, se tornou Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. Uma vez formado em Direito retornou para Ilhéus, tendo sido nomeado “Delegado de Polícia do Termo e Comarca de Ilhéus”, pelo prefeito Mário Pessoa; tomou posse em 1942, ano em que se casou com Olga Lapa Manso, que todos conheceram como D. Olguinha. Do casamento teve dois filhos: Eduardo Henrique e Maria do Carmo.

No livro, diz Henriquinho: “Procurou servir à população, em um combate sério contra os malfeitores, com ação pessoal, em muitos casos, principalmente nas áreas de aglomeração humana (cinema e futebol), festas de rua e violências criminosas”. Com meus botões fiquei pensando que, diante da violência de hoje, os tais “malfeitores” seriam considerados pessoas de bem.

A seguir o autor narra uma passagem que pode ser considerada hilária, quando conta que ele prendeu os onze jogadores de um clube, porque desrespeitaram os torcedores.

Henriquinho afastou-se da delegacia em 1943, no auge da Segunda Guerra, para servir à Força Expedicionária Brasileira, como soldado da 6ª Companhia do 3° Regimento de Infantaria. Após o fim da guerra ingressou na política partidária, através da União Democrática Nacional (UDN), onde militavam os adeptos do Brigadeiro Eduardo Gomes. Eram seus companheiros de partido Pedro Vilas Boas Catalão, Demósthenes Vinháes, Carlos Pereira Filho, João Adonias Aguiar, dentre outros.

Na primeira eleição a que concorreu foi eleito vereador, tendo sido reeleito na segunda. No governo Catalão foi eleito presidente da Câmara de Vereadores. Em 1953 candidatou-se a prefeito, tendo ficado em terceiro lugar. Na eleição seguinte, em 1958, conseguiu se eleger. A seguir elegeu-se deputado estadual por dois mandatos seguidos e deputado federal em seguida. Ele acredita que perdeu a reeleição para deputado federal por causa da sua luta pela criação do Estado de Santa Cruz.

Como prefeito suas obras foram muitas. Como deputado lutou bravamente pela região que o elegera. Participou ativamente na criação da Faculdade de Direito de Ilhéus, da Ponte do Pontal, do Porto Internacional do Cacau, construiu a ponte da Barra ao Savóia.

Em seu livro podemos encontrar um homem apaixonado até o final da vida. Apaixonado pela cidade onde nascera, pelas causas em que acreditava, pelos filhos, pelos netos e, principalmente pela esposa, a quem dedica um poema, logo no início. Era um poeta, que disse (sobre a esposa):

A musa heróica dos meus sonhos, que não se apagarão jamais, pois continuarão a dominar meu ser, na eternidade dos meus desejos.

“Nasci… Vivi. Sorri, Chorei. Amei e fui amado”. Henrique Cardoso foi um homem público que deixou grandes marcas em sua passagem por esta terra. Merece nossa homenagem e nosso respeito.

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(POR SUA FILHA NONÔ)

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Sobre meu pai, eu só tenho palavras de admiração e respeito. Talvez eu não tenha a capacidade de relatar a riqueza de seu espírito e sua sensibilidade diante do mundo e dos fatos da vida. Mas é o que eu pretendo mostrar aqui.

Quem teve algum contato com ele pode perceber que ele prezava pela delicadeza, pela correção e pelo bom senso. Eu nunca o vi maltratar ou maldizer qualquer pessoa. JAMAIS. Desconheço qualquer ato de violência que tenha feito ou palavra agressiva que tenha dito. E isso me deixa muito orgulhosa. Meu pai, para mim, era um sentimental, com uma percepção muito esclarecida da vida e das pessoas.

É a seguinte sua biografia:

Nasceu em 17 de outubro de 1942, em Salvador. Três dias depois já estava em Ilhéus. Ele contava que quando o avô Senô veio conhecer o primeiro netinho, que era ele, disse a minha avó Cora: “vou levar Ton para morar comigo no Rosário (a fazenda)”. E minha avó nervosa, porque era seu primeiro filho, disse: “mas seu Senô, eu tenho que amamentá-lo!”. E o velho disse: “não se preocupe, eu tenho minhas cabras.” E levou-o, realmente. Morou na fazenda até os sete anos, ouvindo muitas estórias, observando o avô, adquirindo valores do homem rural e cultivando o gosto pela terra. Uma história dessa época que ele gostava de contar é a que, nas diversas vezes que ele atravessou o rio Almada de canoa com o avô para ver os coqueirais, o avô partia um coco verde e entornava sobre sua cabeça, dizendo: “aqui é para quando você crescer, ficar gostoso”. Ah, ele adorava.

Então, aos sete anos voltou para a cidade a fim de cursar a escola primária. Ainda no primário, até concluir o ginásio, estudou também em Salvador, sendo interno no Colégio Maristas e depois no Antônio Vieira. Foi na adolescência que começou a se dedicar à leitura. Como não gostava da Cidade do Salvador, decidiu retornar a Ilhéus para cursar o Científico. Nessa ocasião foi seduzido pelos ideais revolucionários opostos à Ditadura Militar. A partir de então, foi travada em suas idéias e em sua personalidade a convicção de ser a LIBERDADE o maior bem do homem. E até o fim repetiu Carlos Drummond de Andrade – “tenho duas mãos e o sentimento do mundo” – me ensinando que, com a liberdade e o entendimento do que seja o mundo, eu poderia construir o que quisesse.

Embaixo do vidro de sua mesa de trabalho, no Cartório, está um recorte de jornal com a seguinte frase anarquista: “aquele que tentar por a mão sobre mim para me governar é meu inimigo”.

Assim amadureceu o homem de caráter singular, com características em sua personalidade próprias da boa índole. Vale dizer, foi um homem íntegro, de natureza serena e espírito libertário.

Mas, de fato, ele não concluiu o Científico. Não lhe agradou a matemática. Iniciou, então, o curso Clássico. Ao término deste, foi aprovado no concurso da Petrobrás. Fazia planos de mudar para Fortaleza, quando adveio a inesperada e prematura morte de seu pai, Chico. Contava apenas vinte anos de idade e teve de voltar-se completamente à família: à mãe Cora, e aos seis irmãos. Nesta época já havia escrito alguns versos.

Em pouco mais de um ano ingressaria na faculdade de Direito, e, ainda estudante, teve a oportunidade de assumir a titularidade do Cartório de Registro de Imóveis da Comarca de Ilhéus. Assim concursado, laborou no Serviço Público com honestidade e competência até os últimos dias de vida. Digo isto, porque, da UTI ele ligava pelo celular para o Cartório a fim de saber como iam os serviços.

Estudando e trabalhando no Cartório, ele pôde começar a organizar sua vida e a de sua família.

E foi levando a vida de forma simples. Gostava de uma amizade sincera, gostava de ler, de escrever, de namorar, gostava da noite, de uma Brahma gelada e de uma moqueca de aratu bem feita. Cantava a lua e o mar em seus versos. Sempre foi muito solícito e procurou ajudar quem precisou dele. Era louco por Ilhéus (Ele brincava com minha mãe dizendo que só se casou com ela porque o nome dela é Ilhéus ao contrário). Mas, o que lhe dava enorme prazer era caminhar dentro da roça de cacau. Ele achava linda demais!

Era um homem muito ligado à terra. Dizia sempre: “sou GRAPIÚNA!!!”

Aos trinta e sete anos casou-se com minha mãe Suely e construiu sua própria família. Meus pais, meus irmãos e eu sempre fomos e seremos apaixonados uns pelos outros. Tivemos um paizão, que, com nossa mãe, nos deu um lar de amor e afeto, nos deu tudo para crescermos como pessoa e intelectualmente também. Nos ensinou o que é a dignidade, o respeito e a fé; nos abençoava ao anoitecer e ao amanhecer (ele dizia que nunca era demais).

E foi assim que ele viveu, dedicando-se à família e ao trabalho no Cartório e nas roças.

Meu pai foi arrebatado de nós e é nele mesmo que nos espelhamos para suportar a dor da falta. Temos em seu exemplo uma pessoa preocupada com seu semelhante e com a natureza.

Lemos em seus versos a beleza do amor e das coisas simples e também, o olhar crítico de um observador do egoísmo e da capacidade destrutiva do homem. Nada lhe passava despercebido.

Como disse minha mãe: “E ele nos deixou saudades e um vazio imenso para mim, mas sei que hoje ele está enriquecendo o infinito com seus poemas, pois ele está junto da PERFEIÇÃO, onde tudo se traduz em cristalinas nuances de LUZ e de PAZ”.

Pai, eu tenho muito orgulho de ser sua filha.

(Escrito em 28.05.2004)

ANTONIO FRANCISCO LAVIGNE DE LEMOS OCUPOU A CADEIRA N° 18 DA ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS.

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Entrevista Diário de Ilhéus

No último dia 29 de março o Diário de Ilhéus publicou uma entrevista, onde além de contar um pouco de sua história pessoal, Maria Luiza Heine falou sobre Cultura. Confira aqui a entrevista na íntegra.

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GG10 Teatro Municipal

Inaugurado em 1932

Foi com grande alegria que passei a ler a matéria publicada na última quinta-feira, dia 2 de abril, pelo Diário de Ilhéus, anunciando a reabertura do Teatro Municipal. Foi realizada uma reforma completa e, finalmente após dois ou três meses o público vai ter oportunidade de revê-lo de “roupa nova”. É preciso entender que estas obras são necessárias e importantes para conservação do nosso patrimônio edificado. Já disse antes e volto a afirmar que, em Ilhéus cidade que chove bastante, a umidade e a maresia danificam qualquer construção. De vez em quando é preciso realizar a conservação dos prédios.

Foi com esta certeza que, em julho de 2004, preparei um comunicado para enviar ao então prefeito Jabes Ribeiro, dizendo da necessidade de pintarmos o prédio do antigo colégio General Osório, atual Biblioteca e Arquivo Público municipal. A reforma que havia sido concluída dois anos antes estava carecendo de reparos. Foi a última pintura que o prédio recebeu. Está precisando receber uma nova reforma.
Segundo a historiadora Ecléa Bosi, “o passado não é o antecedente do presente, é a sua fonte”. É ele que fala da nossa identidade.

Quanto à nossa história, havia algum movimento de valorização, pois o ilheense tem orgulho de ser um povo especial, formado pela mistura de diversas etnias cujo objetivo comum foi vir para cá em busca de construir um mundo melhor, para si e para sua família. O plantio dos frutos de ouro e a riqueza gerada por ele, permitiu que se formasse nessa região uma cultura singular, única nas terras brasileira, pois formada de índios, negros e brancos, mas vindos de lugares específicos, com objetivos específicos,o de plantar cacau.

Há mais ou menos dez anos começou minha relação com esta história que é muito rica, pois foi escrita com suor e sangue quando se construiu a saga do cacau e os temas que motivaram o grande Jorge Amado a divulgá-la para o mundo.

Acontece que o século XX é um século de grandes transformações em todos os sentidos. Se olharmos o que acontecia em nossas cidades nos seus primeiros anos e compararmos com os últimos, veremos uma enorme distância, um grande abismo.

Na Ilhéus que sonhava com a estrada de ferro e com o progresso, começaram a ser construídos os belos casarões que demonstravam a riqueza que mudaria para sempre a região pouco habitada pelo período de mais de duzentos anos. Dos imponentes e belos casarões construídos nos primeiros vinte anos do século passado, muitos já se foram, como é o caso da casa do coronel Antonio Pessoa, demolida para a construção do prédio onde está localizado o Supermercado Delta. A praça, que era linda, foi transformada em um espaço de comércio de muito mau gosto. Na avenida Soares Lopes muitas casas foram demolidas, outras definitivamente transformadas. A bela Ilhéus transformou-se em um produto híbrido, um misto de antigo e novo, onde, via de regra impera o mau gosto (com exceções, é claro!). Mas o mal que atingiu nossa cidade, atingiu também, a “paulicéia desvairada” de Mário de Andrade e a “antiga cidade maravilhosa” de todos os brasileiros.

Atualmente, com a mentalidade surgida na França e introduzida no Brasil nos anos sessenta, já não se concebe que o patrimônio histórico e cultural de um povo seja destruído, seja ele qual for. Um grupo de idealistas e sonhadores, dentre os quais me incluo, vem lutando, primeiro para fazer nosso patrimônio conhecido, já que, nem isso ele era… ou é. Depois, o que é mais difícil e importante, para que ele seja preservado. Assim, temos lutado e falado e divulgado da importância dessa preservação, até mesmo para desenvolver a atividade turística.

O Teatro Municipal, além de ser um belo exemplar do nosso patrimônio histórico e cultural, é um equipamento artístico de grande importância. Fico satisfeita e, de certa forma aliviada, sabendo que Mauricio Corso está à frente da Fundação Cultural, cuidando do nosso teatro. Lembro perfeitamente do tempo em que ele dirigia as atividades ali realizadas. Foi o tempo em que o teatro mais se movimentou, mais apresentou peças e espetáculos vindos do eixo Rio-São Paulo.

O jornal já publicou uma vasta agenda de espetáculos que estão programados, sem contar que a reabertura conta com a apresentação do Balé do Teatro Castro Alves. Estão de parabéns Pawlo Cidade, um incansável batalhador pelo teatro em nossa cidade, dando continuidade ao trabalho de Pedro Matos, o prefeito Newton Lima, que tem se mostrado sensível à cultura e Mauricio Corso que, com certeza chegou para alavancar os movimentos culturais da cidade.

“Defender nosso patrimônio histórico e artístico é alfabetização” (Mário de Andrade).

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Série Vultos Históricos

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Lá pelos idos de 1926, veio morar em Ilhéus, o belmontense Sosígenes Marinho da Costa, funcionário dos Correios e Telégrafos. Tornou-se amigo de Jorge Amado e tinha o hábito de freqüentar o “palacete” recém construído pelo coronel João Amado de Farias. Posteriormente, se tornou também, secretário da Associação Comercial de Ilhéus. Era um homem taciturno, tímido, de poucos amigos, de poucas palavras, mas de muita leitura. Sem ser um viajante conhecia o mundo inteiro, certamente através do grande contato que tinha com os livros.

Este homem solitário gostava também de escrever e, escrevia seus poemas, para guardar, pois não se preocupava em publicá-los. Não fosse a insistência dos amigos não teria publicado em 1959, seu primeiro livro, de poemas, intitulado Obra Poética. Este livro obteve os prêmios Paula Brito, no Rio, e Jabuti, pela Câmara Brasileira do Livro, em São Paulo.

Este poeta desconhecido teve em Jorge Amado um amigo fiel que lhe reconhecia as qualidades literárias e não media esforços para que suas obras fossem reconhecidas pelo valor que possuem. No livro São Jorge dos Ilhéus existe um personagem, o poeta Sérgio Moura, que trabalhava na Associação Comercial, homem que gostava de se exercitar ao piano, de escrever poesia e namorar mulher casada. A associação do personagem ao poeta valeu a Amado um distanciamento ressentido, pois o poeta não gostava de ser notado. Posteriormente, na reaproximação, Jorge Amado conseguiu que o Partido Comunista financiasse uma viagem para Sosígenes conhecer a China.

Vinte anos depois do lançamento da Obra Poética, o poeta, crítico e ensaísta José Paulo Paes, iniciou um grande movimento para reivindicar um lugar para Sosígenes como um dos grandes poetas do modernismo brasileiro, assim como torná-lo conhecido. Paes o definiu como “o maior poeta da Bahia, depois de Castro Alves”.

A cidade de Ilhéus rendeu grandes homenagens a esse seu filho adotivo, em 2001, por ocasião do centenário de seu nascimento. Na ocasião, o presidente da Fundaci era o escritor Hélio Pólvora, que juntamente com Gerana Damulakis, James Amado, Aleilton Fonseca e muitos outros nomes importantes da literatura baiana, se reuniram para movimentar o cenário literário da Bahia, com o objetivo de tornar o poeta mais conhecido. Foram lançados os seguintes livros: Poesia Completa, com 560 páginas, Crônicas & Poemas Recolhidos, A Sosígenes com afeto, além de um CD com seus poemas, recitados por grandes atores globais, além da revista Iararana.

Naquela ocasião era prefeito de Ilhéus o acadêmico Jabes Ribeiro, também mentor das homenagens porque leitor dos poemas de Sosígenes. Numa homenagem ao poeta, sugeriu que se desse o nome de Iararana, ao parque localizado em Olivença, uma faixa de Mata Atlântica, onde está localizado o Centro Cultural de Olivença.

Mas, afinal o que é Iararana? Em 1934 Sosígenes Costa escreveu um poema épico intitulado Iararana, onde ele conta a saga do cacau e a ocupação da região, pelos portugueses e sua luta com os índios. Este poema, que foi utilizado como título de uma importante revista literária lançada em Salvador, foi tema de pesquisa do Mestrado de Cultura e Turismo, realizado pelo historiador Durval Oliveira. A obra de Sosígenes também tem sido estudada por diversos professores e pesquisadores da nossa língua.

A maior importância de estudarmos (e conhecermos) nossos escritores e poetas está em que, somente dessa forma é possível estabelecermos uma ação efetiva para aumentar nossa auto-estima e reforçar nossa identidade.

Embora nosso poeta só tivesse publicado, em vida, um único livro, ele se utilizava de jornais e revistas para publicar o que escrevia. Assim publicou poemas no Diário da Tarde, de onde era colaborador. Também foi colaborador das revistas O Momento e Arco & Flexa, ligadas ao modernismo baiano.

A cidade de São Jorge dos Ilhéus, “capital cultural do sul da Bahia”, fez questão de reconhecer, no seu centenário de nascimento, o valor deste poeta que viveu nesta cidade por mais de vinte anos; ele é considerado um ícone da poesia baiana e brasileira, e foi incluído na antologia Os Cem Melhores Poetas do Século XX, organizado por José Nêumanne.

Chuva de ouro (1928)

As begônias estão chovendo ouro,
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai ficando louro
e o bosque inteiro redourado fica.

Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas nos galhos da oiticica.

Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.

E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!

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Há dez anos o Instituto Municipal de Ensino Eusinio Lavigne – IME completou 60 anos de sua inauguração. Naquela época resolvi escrever o livro IME – o sonho de Eusinio Lavigne, que foi publicado pela Editus, e que tem servido de referência para o conhecimento da sua história.

Dez anos se passaram e agora, em 2009, são 70 anos da inauguração. A diretora geral da instituição, Profa. Lidiney Campos de Azevedo mandou celebrar uma missa de ação de graças, para comemorar a data, domingo, 15 de março, na Catedral de São Sebastião.

O IME é uma instituição que deve encher de orgulho cada habitante desta cidade. É uma instituição séria e dedicada à educação, que tem recebido em seus bancos pessoas de todas as classes sociais. Assim é que, pessoas simples tiveram a oportunidade de ascensão social através do conhecimento adquirido na instituição; pessoas consideradas importantes na escala social, também estudaram no IME e chegaram a lugares de destaque em nossa República.

O ginásio municipal foi um sonho de Eusínio Lavigne, prefeito no período de 1930 a 1937, que foi destituído do cargo por motivos políticos. Este sonho só pode ser realizado dois anos depois, em 1939, pelo prefeito Mário Pessoa.

O primeiro diretor da instituição foi o advogado e professor de português, Dr. Heitor Dias, que mais tarde foi prefeito de Salvador e importante senador da República. Foi a primeira escola pública  a oferecer o curso ginasial no interior da Bahia, e foi criado nos moldes do Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro, e do Colégio da Bahia, em Salvador, ambos colégios modelo. Seus professores foram os melhores que já passaram por Ilhéus e, até a década de 90, foi a escola pública de Ilhéus que mais aprovou em vestibular, pois trabalhava com o ensino médio.

É da maior importância o papel desempenhado pelo Instituto Municipal de Ensino Eusinio Lavigne (IME) na educação e na vida da comunidade ilheense, não só nos dias de hoje, mas no decorrer de toda a sua história.

O jornal “O Diário da Tarde”, em matéria publicada no dia 10 de fevereiro de 1939, inicia um artigo de página inteira dizendo o seguinte: “O ginásio municipal de Ilhéus é uma dessas obras portentosas que valem, por si só, um atestado do progresso, da riqueza e da civilização de uma cidade. Ilhéus muito se deve honrar de o possuir, porque, já pelas suas linhas arquitetônicas originais e imponentes, já pelas suas divisões internas, tecnicamente dispostas, já pela sua finalidade altamente patriótica, constitui o ginásio de Ilhéus, o melhor monumento da cidade e uma das mais belas, das mais grandiosas, das mais respeitáveis realizações públicas em Ilhéus e no Estado”.

PARABÉNS AO IME E À CIDADE DE ILHÉUS!

Alunos do Ginásio de Ilhéus, no terraço da instituição, no ano de 1942. alunos

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