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Posts Tagged ‘Vultos Históricos’

UM PREFEITO ARROJADO

(Série Vultos Históricos)

Este mês perdemos mais uma figura histórica, Henriquinho Cardoso. Um homem que nunca foi “morno”, que sempre se posicionou diante dos acontecimentos, que agradava e desagradava aos políticos da cidade com a mesma intensidade.

Para falar sobre ele fui buscar inspiração no livro que lançou em 2004, quando estava perto dos noventa anos de idade, lúcido e com a mesma impetuosidade que lhe marcou a vida. O livro tem um nome sugestivo “50 anos em 4 – Pedaços de Uma Vida ou Uma Vida em Pedaços”.

Henriquinho livro

Henrique Weyll Cardoso e Silva, Henriquinho, como era conhecido, nasceu no dia 31 de dezembro de 1916, pouco antes da festa de Ano Novo. Nasceu à Rua 28 de Junho, atual Jorge Amado, nesta cidade de São Jorge dos Ilhéus, como ele bem gostava de frisar. Em seu livro, ele afirma: “a trajetória do nasciturno não contrariou a festa da sua chegada, pois foi sempre de muita luz, muita festa e também muito barulho”.

Aos sete anos foi para Salvador estudar, em regime de internato, no Colégio Antonio Vieira, de padres jesuítas. Passou lá oito anos, longe da família, como era costume à época. De sua passagem pelo colégio afirma que, “lá foi nossa Universidade do Bem”, pois lá ele aprendeu a se tornar um cidadão, recebendo educação, aprendendo a conviver em sociedade, compreendendo seus direitos, mas também, suas obrigações.

Posteriormente, no Colégio Ypiranga, concluiu o curso de Bacharel em Ciências e Letras e, em dezembro de 1941, se tornou Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. Uma vez formado em Direito retornou para Ilhéus, tendo sido nomeado “Delegado de Polícia do Termo e Comarca de Ilhéus”, pelo prefeito Mário Pessoa; tomou posse em 1942, ano em que se casou com Olga Lapa Manso, que todos conheceram como D. Olguinha. Do casamento teve dois filhos: Eduardo Henrique e Maria do Carmo.

No livro, diz Henriquinho: “Procurou servir à população, em um combate sério contra os malfeitores, com ação pessoal, em muitos casos, principalmente nas áreas de aglomeração humana (cinema e futebol), festas de rua e violências criminosas”. Com meus botões fiquei pensando que, diante da violência de hoje, os tais “malfeitores” seriam considerados pessoas de bem.

A seguir o autor narra uma passagem que pode ser considerada hilária, quando conta que ele prendeu os onze jogadores de um clube, porque desrespeitaram os torcedores.

Henriquinho afastou-se da delegacia em 1943, no auge da Segunda Guerra, para servir à Força Expedicionária Brasileira, como soldado da 6ª Companhia do 3° Regimento de Infantaria. Após o fim da guerra ingressou na política partidária, através da União Democrática Nacional (UDN), onde militavam os adeptos do Brigadeiro Eduardo Gomes. Eram seus companheiros de partido Pedro Vilas Boas Catalão, Demósthenes Vinháes, Carlos Pereira Filho, João Adonias Aguiar, dentre outros.

Na primeira eleição a que concorreu foi eleito vereador, tendo sido reeleito na segunda. No governo Catalão foi eleito presidente da Câmara de Vereadores. Em 1953 candidatou-se a prefeito, tendo ficado em terceiro lugar. Na eleição seguinte, em 1958, conseguiu se eleger. A seguir elegeu-se deputado estadual por dois mandatos seguidos e deputado federal em seguida. Ele acredita que perdeu a reeleição para deputado federal por causa da sua luta pela criação do Estado de Santa Cruz.

Como prefeito suas obras foram muitas. Como deputado lutou bravamente pela região que o elegera. Participou ativamente na criação da Faculdade de Direito de Ilhéus, da Ponte do Pontal, do Porto Internacional do Cacau, construiu a ponte da Barra ao Savóia.

Em seu livro podemos encontrar um homem apaixonado até o final da vida. Apaixonado pela cidade onde nascera, pelas causas em que acreditava, pelos filhos, pelos netos e, principalmente pela esposa, a quem dedica um poema, logo no início. Era um poeta, que disse (sobre a esposa):

A musa heróica dos meus sonhos, que não se apagarão jamais, pois continuarão a dominar meu ser, na eternidade dos meus desejos.

“Nasci… Vivi. Sorri, Chorei. Amei e fui amado”. Henrique Cardoso foi um homem público que deixou grandes marcas em sua passagem por esta terra. Merece nossa homenagem e nosso respeito.

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(POR SUA FILHA NONÔ)

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Sobre meu pai, eu só tenho palavras de admiração e respeito. Talvez eu não tenha a capacidade de relatar a riqueza de seu espírito e sua sensibilidade diante do mundo e dos fatos da vida. Mas é o que eu pretendo mostrar aqui.

Quem teve algum contato com ele pode perceber que ele prezava pela delicadeza, pela correção e pelo bom senso. Eu nunca o vi maltratar ou maldizer qualquer pessoa. JAMAIS. Desconheço qualquer ato de violência que tenha feito ou palavra agressiva que tenha dito. E isso me deixa muito orgulhosa. Meu pai, para mim, era um sentimental, com uma percepção muito esclarecida da vida e das pessoas.

É a seguinte sua biografia:

Nasceu em 17 de outubro de 1942, em Salvador. Três dias depois já estava em Ilhéus. Ele contava que quando o avô Senô veio conhecer o primeiro netinho, que era ele, disse a minha avó Cora: “vou levar Ton para morar comigo no Rosário (a fazenda)”. E minha avó nervosa, porque era seu primeiro filho, disse: “mas seu Senô, eu tenho que amamentá-lo!”. E o velho disse: “não se preocupe, eu tenho minhas cabras.” E levou-o, realmente. Morou na fazenda até os sete anos, ouvindo muitas estórias, observando o avô, adquirindo valores do homem rural e cultivando o gosto pela terra. Uma história dessa época que ele gostava de contar é a que, nas diversas vezes que ele atravessou o rio Almada de canoa com o avô para ver os coqueirais, o avô partia um coco verde e entornava sobre sua cabeça, dizendo: “aqui é para quando você crescer, ficar gostoso”. Ah, ele adorava.

Então, aos sete anos voltou para a cidade a fim de cursar a escola primária. Ainda no primário, até concluir o ginásio, estudou também em Salvador, sendo interno no Colégio Maristas e depois no Antônio Vieira. Foi na adolescência que começou a se dedicar à leitura. Como não gostava da Cidade do Salvador, decidiu retornar a Ilhéus para cursar o Científico. Nessa ocasião foi seduzido pelos ideais revolucionários opostos à Ditadura Militar. A partir de então, foi travada em suas idéias e em sua personalidade a convicção de ser a LIBERDADE o maior bem do homem. E até o fim repetiu Carlos Drummond de Andrade – “tenho duas mãos e o sentimento do mundo” – me ensinando que, com a liberdade e o entendimento do que seja o mundo, eu poderia construir o que quisesse.

Embaixo do vidro de sua mesa de trabalho, no Cartório, está um recorte de jornal com a seguinte frase anarquista: “aquele que tentar por a mão sobre mim para me governar é meu inimigo”.

Assim amadureceu o homem de caráter singular, com características em sua personalidade próprias da boa índole. Vale dizer, foi um homem íntegro, de natureza serena e espírito libertário.

Mas, de fato, ele não concluiu o Científico. Não lhe agradou a matemática. Iniciou, então, o curso Clássico. Ao término deste, foi aprovado no concurso da Petrobrás. Fazia planos de mudar para Fortaleza, quando adveio a inesperada e prematura morte de seu pai, Chico. Contava apenas vinte anos de idade e teve de voltar-se completamente à família: à mãe Cora, e aos seis irmãos. Nesta época já havia escrito alguns versos.

Em pouco mais de um ano ingressaria na faculdade de Direito, e, ainda estudante, teve a oportunidade de assumir a titularidade do Cartório de Registro de Imóveis da Comarca de Ilhéus. Assim concursado, laborou no Serviço Público com honestidade e competência até os últimos dias de vida. Digo isto, porque, da UTI ele ligava pelo celular para o Cartório a fim de saber como iam os serviços.

Estudando e trabalhando no Cartório, ele pôde começar a organizar sua vida e a de sua família.

E foi levando a vida de forma simples. Gostava de uma amizade sincera, gostava de ler, de escrever, de namorar, gostava da noite, de uma Brahma gelada e de uma moqueca de aratu bem feita. Cantava a lua e o mar em seus versos. Sempre foi muito solícito e procurou ajudar quem precisou dele. Era louco por Ilhéus (Ele brincava com minha mãe dizendo que só se casou com ela porque o nome dela é Ilhéus ao contrário). Mas, o que lhe dava enorme prazer era caminhar dentro da roça de cacau. Ele achava linda demais!

Era um homem muito ligado à terra. Dizia sempre: “sou GRAPIÚNA!!!”

Aos trinta e sete anos casou-se com minha mãe Suely e construiu sua própria família. Meus pais, meus irmãos e eu sempre fomos e seremos apaixonados uns pelos outros. Tivemos um paizão, que, com nossa mãe, nos deu um lar de amor e afeto, nos deu tudo para crescermos como pessoa e intelectualmente também. Nos ensinou o que é a dignidade, o respeito e a fé; nos abençoava ao anoitecer e ao amanhecer (ele dizia que nunca era demais).

E foi assim que ele viveu, dedicando-se à família e ao trabalho no Cartório e nas roças.

Meu pai foi arrebatado de nós e é nele mesmo que nos espelhamos para suportar a dor da falta. Temos em seu exemplo uma pessoa preocupada com seu semelhante e com a natureza.

Lemos em seus versos a beleza do amor e das coisas simples e também, o olhar crítico de um observador do egoísmo e da capacidade destrutiva do homem. Nada lhe passava despercebido.

Como disse minha mãe: “E ele nos deixou saudades e um vazio imenso para mim, mas sei que hoje ele está enriquecendo o infinito com seus poemas, pois ele está junto da PERFEIÇÃO, onde tudo se traduz em cristalinas nuances de LUZ e de PAZ”.

Pai, eu tenho muito orgulho de ser sua filha.

(Escrito em 28.05.2004)

ANTONIO FRANCISCO LAVIGNE DE LEMOS OCUPOU A CADEIRA N° 18 DA ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS.

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Série Vultos Históricos

José Lourenço da Fonseca Silva nasceu na cidade de Rio Real, nordeste da Bahia, filho de Claudemiro Manoel da Silva e Ana Fonseca da Silva, no dia 10 de agosto de 1922. Cursou apenas até o terceiro ano primário, mas, àquela época este fato não representava uma grande dificuldade, pois eram poucos os que tinham acesso à escola. Durante o tempo em que viveu na sua cidade natal trabalhou como agricultor na fazenda do pai; trabalhou duro na enxada, catando algodão e ordenhando vacas.

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Já morando em Ilhéus trabalhou como sapateiro na Sapataria Maron; trabalhou também no Figurino Mundial e na Casa Única, onde foi proprietário.

José Lourenço contraiu matrimônio no dia 8 de maio de 1948 com a jovem Odete Calasans da Fonseca. O casal, que iria comemorar 61 anos de casado, teve seis filhos, dos quais dois já são falecidos.

Suas atividades profissionais são inúmeras e cada vez mais relevantes. Foi servidor do Instituto de Aposentadoria dos Industriários – IAPI, como chefe de seção  durante 20 anos. Também atuou na política, tendo sido eleito vereador em duas legislaturas, nos anos de 1955 e 1963, diga-se de passagem, quando vereador não recebia salário. Também foi agente da Previdência Social, em Ilhéus.

Quando estava em sua segunda legislatura foi autor do projeto para a criação da bandeira do município, tendo encomendado ao professor Leopoldo de Campos Monteiro a criação dos símbolos heráldicos (bandeira e brasão).

A bandeira  foi hasteada pela primeira vez  no dia 15 de agosto de 1965, na visita do então presidente, Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco; o presidente recebeu o titulo de cidadão ilheense, outorgado pela Câmara de Vereadores em projeto apresentado pelo Presidente José Lourenço da Fonseca Silva, quando da inauguração da ponte Lomanto Júnior.

Foi eleito presidente da Câmara de Vereadores por três períodos e, no governo de Herval Soledade, foi  Prefeito substituto do titular por 12 vezes.

No ano de 1967 recebeu o título de gratidão da Faculdade de Direito de Ilhéus. Em 1981 foi promovido a fiscal da Previdência.

Recebeu os seguintes diplomas e medalhas:

•    Diploma e medalha de ouro como Produtor Modelo – INCRA 1984, recebido na Prefeitura na gestão Jabes Ribeiro;
•    Diploma amigo da 18º CSM de Ilhéus;
•    Diploma Empresarial Destaque Político de 1988;
•    Titulo de Cidadão de Ilhéus em 21/12/1988;
•    Diploma Amigo da Estiva de Ilhéus – 1993;
•    Escolhido Homem do Ano em 1993;
•    Diploma e Medalha de ouro como amigo da Marinha em 1995.

Nos oito anos em que exerceu o mandato de vereador, presidente da câmara, e no exercício de prefeito interino, doou seus vencimentos às entidades filantrópicas, como ao Abrigo São Vicente de Paulo, Casa da Criança, Escolas Profissionais de Datilografia e de Corte e Costura, mantidas pelas Ursulinas da Piedade; doou também todas as máquinas dos dois cursos, não usando nenhum recurso da prefeitura, nem freqüentando teatro, cinema e outras vantagens oferecidas pelo cargo.

Foi autor da Lei que fundou o bairro Jardim Savóia; implantou a rede de água e esgoto, assinando convênio com a SUDENE; criou um projeto de lei pagando o 13º salário para os Funcionários Públicos municipais; foi membro do Rotary Club e recebeu o Troféu Leão de Ouro, do Lions Clube de Ilhéus. Foi considerado a personalidade que mais contribuiu com a Arte e Cultura em 1994.

Foi homenageado pelo Centro de Assistência ao paciente Renal em 1994; pela turma de Auxiliar de Enfermagem do CETEB, em 2001, como também pelos formandos de Enfermagem, neste mesmo ano. Foi escolhido Diretor Financeiro da reforma do INSP (Instituto Nossa Senhora da Piedade), fazendo parte da Comissão criada pelo então superintendente da TV Santa Cruz, Dr. Lício Fontes. Foi Presidente do Conselho Fiscal do Colégio da Piedade das Ursulinas e recebeu o Título de Comendador, oferecido  pelo Prefeito Jabes Ribeiro.

Foi eleito Provedor da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Ilhéus, em 1987. Foi reeleito por seis mandatos. Neste período foram construídos a UTI, o Banco de Sangue, os serviços de Oncologia e de Tomografia Computadorizada; construiu uma Maternidade decente para os carentes, o Centro Cirúrgico, o Berçário, a Maternidade Nova, o Centro Obstétrico e equipamentos novos em convênio com o Ministério da Saúde. No ano de 2008 construiu o pavilhão novo com apartamentos e adquiriu um gerador de energia para a instituição.

No último domingo, o Pai o chamou: “chega, você já fez demais, agora precisamos de você aqui”. José Lourenço partiu, mas não morreu; ficará para sempre no coração dos muitos que o amam e nas suas obras. Descanse em paz, amigo!

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José Lourenço com D. Detinha e a filha Ana Virginia

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Série Vultos Históricos

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Lá pelos idos de 1926, veio morar em Ilhéus, o belmontense Sosígenes Marinho da Costa, funcionário dos Correios e Telégrafos. Tornou-se amigo de Jorge Amado e tinha o hábito de freqüentar o “palacete” recém construído pelo coronel João Amado de Farias. Posteriormente, se tornou também, secretário da Associação Comercial de Ilhéus. Era um homem taciturno, tímido, de poucos amigos, de poucas palavras, mas de muita leitura. Sem ser um viajante conhecia o mundo inteiro, certamente através do grande contato que tinha com os livros.

Este homem solitário gostava também de escrever e, escrevia seus poemas, para guardar, pois não se preocupava em publicá-los. Não fosse a insistência dos amigos não teria publicado em 1959, seu primeiro livro, de poemas, intitulado Obra Poética. Este livro obteve os prêmios Paula Brito, no Rio, e Jabuti, pela Câmara Brasileira do Livro, em São Paulo.

Este poeta desconhecido teve em Jorge Amado um amigo fiel que lhe reconhecia as qualidades literárias e não media esforços para que suas obras fossem reconhecidas pelo valor que possuem. No livro São Jorge dos Ilhéus existe um personagem, o poeta Sérgio Moura, que trabalhava na Associação Comercial, homem que gostava de se exercitar ao piano, de escrever poesia e namorar mulher casada. A associação do personagem ao poeta valeu a Amado um distanciamento ressentido, pois o poeta não gostava de ser notado. Posteriormente, na reaproximação, Jorge Amado conseguiu que o Partido Comunista financiasse uma viagem para Sosígenes conhecer a China.

Vinte anos depois do lançamento da Obra Poética, o poeta, crítico e ensaísta José Paulo Paes, iniciou um grande movimento para reivindicar um lugar para Sosígenes como um dos grandes poetas do modernismo brasileiro, assim como torná-lo conhecido. Paes o definiu como “o maior poeta da Bahia, depois de Castro Alves”.

A cidade de Ilhéus rendeu grandes homenagens a esse seu filho adotivo, em 2001, por ocasião do centenário de seu nascimento. Na ocasião, o presidente da Fundaci era o escritor Hélio Pólvora, que juntamente com Gerana Damulakis, James Amado, Aleilton Fonseca e muitos outros nomes importantes da literatura baiana, se reuniram para movimentar o cenário literário da Bahia, com o objetivo de tornar o poeta mais conhecido. Foram lançados os seguintes livros: Poesia Completa, com 560 páginas, Crônicas & Poemas Recolhidos, A Sosígenes com afeto, além de um CD com seus poemas, recitados por grandes atores globais, além da revista Iararana.

Naquela ocasião era prefeito de Ilhéus o acadêmico Jabes Ribeiro, também mentor das homenagens porque leitor dos poemas de Sosígenes. Numa homenagem ao poeta, sugeriu que se desse o nome de Iararana, ao parque localizado em Olivença, uma faixa de Mata Atlântica, onde está localizado o Centro Cultural de Olivença.

Mas, afinal o que é Iararana? Em 1934 Sosígenes Costa escreveu um poema épico intitulado Iararana, onde ele conta a saga do cacau e a ocupação da região, pelos portugueses e sua luta com os índios. Este poema, que foi utilizado como título de uma importante revista literária lançada em Salvador, foi tema de pesquisa do Mestrado de Cultura e Turismo, realizado pelo historiador Durval Oliveira. A obra de Sosígenes também tem sido estudada por diversos professores e pesquisadores da nossa língua.

A maior importância de estudarmos (e conhecermos) nossos escritores e poetas está em que, somente dessa forma é possível estabelecermos uma ação efetiva para aumentar nossa auto-estima e reforçar nossa identidade.

Embora nosso poeta só tivesse publicado, em vida, um único livro, ele se utilizava de jornais e revistas para publicar o que escrevia. Assim publicou poemas no Diário da Tarde, de onde era colaborador. Também foi colaborador das revistas O Momento e Arco & Flexa, ligadas ao modernismo baiano.

A cidade de São Jorge dos Ilhéus, “capital cultural do sul da Bahia”, fez questão de reconhecer, no seu centenário de nascimento, o valor deste poeta que viveu nesta cidade por mais de vinte anos; ele é considerado um ícone da poesia baiana e brasileira, e foi incluído na antologia Os Cem Melhores Poetas do Século XX, organizado por José Nêumanne.

Chuva de ouro (1928)

As begônias estão chovendo ouro,
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai ficando louro
e o bosque inteiro redourado fica.

Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas nos galhos da oiticica.

Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.

E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!

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No ano de 1959, alguns homens, idealistas e sonhadores, imaginaram que Ilhéus poderia ter uma Academia de Letras, já que possuía escritores de primeira linha como Jorge Amado, Adonias Filho e Jorge Medauar, dentre outros. Naquela época nosso Amado Jorge (como gosto de chamá-lo), recebia para uma turnê pelo Brasil, nada menos que Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, o célebre casal francês de escritores existencialistas. Aquele foi o ano da construção de Brasília, foi uma época de grandes mudanças em nosso país.

Os homens que idealizaram a Academia de Letras de Ilhéus – ALI – se chamavam Abel Pereira, o bispo diocesano, D. Caetano, Nelson Schaun, Plínio de Almeida, Wilde de Oliveira Lima e Nilo Pinto. As reuniões eram realizadas na casa de Nelson Schaun, teoricamente, primeira sede da ALI. Aos primeiros se juntaram Francolino Neto, Halil Medauar, e Leopoldo Campos Monteiro, dentre outros.

Segundo o acadêmico, advogado criminalista e brilhante professor Francolino Neto, “o momento histórico vivido no final da década de 50 dos anos novecentos, informava haver, em todos os quadrantes desta Nação Cacaueira, uma profunda disposição para a decolagem cultural” (Estante da Academia).

Ainda de acordo com o mesmo confrade, o grupo de intelectuais de Ilhéus e Itabuna que idealizaram a instituição, tinha como objetivo recolher a produção dos escritores e poetas nascidos ou radicados na região para publicá-los em jornais e em livros. O povo de Ilhéus, os plantadores de cacau disseminaram na sua cultura o gosto pelo belo, pelas artes, pela poesia e literatura.

Durante mais de quarenta anos a Academia de Letras de Ilhéus, a Casa de Abel Pereira se manteve firme, com seu quadro renovado, toda vez que um membro partia para outra dimensão. A Academia se manteve por causa da persistência dos seus membros que, mesmo sem possuir uma sede própria, reunindo-se de “favor”, ora aqui, ora ali, não deixaram que ela se acabasse. E o sonho da sede própria nunca deixou esses homens que, além de escrever, sabiam sonhar.

Eis que entrou no governo o prefeito Jabes Ribeiro, para mais um mandato. E um dos persistentes integrantes da ALI, o ex-prefeito Ariston Cardoso, e então presidente da instituição, entendeu de pedir ao prefeito a sede da Academia. Confesso que imaginei uma pequena sala, talvez um pedaço de uma casa, não sei o que pensei, mas, certamente nenhum de nós teve capacidade para imaginar o que estava por vir. O tempo foi passando e parecia que o sonho não se transformaria em realidade.

Dia 14 de março de 2004, dia da poesia, data de nascimento do grande Castro Alves, a sede da Academia foi entregue aos seus membros, mas principalmente à cidade de Ilhéus. Para quem pensou que ela estava destinada apenas aos acadêmicos, pode mudar de idéia. Esta é mais uma casa a serviço da cultura de Ilhéus, que tem recebido visitas diariamente de pessoas curiosas de ver como ficou, e todos saiam de lá encantados. Os eventos começaram a acontecer, como lançamento de livros, palestras e encontros, e as pessoas saíam encantadas com a certeza de que voltariam, porque a casa das letras pertence ao povo de Ilhéus e está completando cinco anos de existência.

Aconteceram muitos saraus literários que deverão retornar. Pessoas de todas as idades se encontram para ler e declamar poesias.

“O mundo cultural brasileiro passou o drama estampado em Maria Bonita, (1914); soube dos ‘caxixes’ praticados nas matas cortadas pelo Rio de Contas, através dos Rincões dos frutos de ouro, (1928); pasmou-se com a perfeição estética de Sosígenes Costa; o aljofrar romântico de José Bastos e as narrativas de Jorge Amado e Adonias Filho. A criação da Academia de Letras de Ilhéus, estava, pois, justificada, a fim de abrigar autores regionalmente conhecidos, todos trabalhando com a Literatura” (Francolino Neto, 2001).

Se alguém chegou a pensar que seria perda de tempo criar o espaço da Academia de Letras, pode mudar de pensamento. É promovendo a cultura e a arte que teremos escritores, poetas e artistas. E, graças a Deus, São Jorge dos Ilhéus tem a bênção de produzir, entre outras coisas, como já dizia Adonias, escritores.

 

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Série Vultos Históricos

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O Dia Internacional da Mulher não pode passar em branco. Embora seja verdade que todos os dias devam ser comemorados como tal, é bom relembrar aquelas mulheres que morreram para ajudar a nos libertar de um jugo secular cultural, o da predominância masculina. Ano passado falei de algumas grandes educadoras que nossa cidade conheceu. Recebi sugestões para falar de outras tantas, ainda não houve oportunidade, mas não estou esquecida, o momento chegará, afinal temos todos os sábados para escrever.

Como estou escrevendo a série Vultos Históricos, fui procurar, no passado, uma destas mulheres extraordinárias que nossa história conheceu e buscar equilibrar assim a série, para não ficar parecendo que vultos históricos são apenas homens.

Resolvi falar de uma mulher que veio de longe, com grande determinação, para ajudar a escrever, com letras de ouro, a história da educação em Ilhéus.

Esta grande mulher se chamava Maria Thaís do Sagrado Coração Paillart. Ela veio para o Brasil para ocupar o cargo de Provincial da Ordem das ursulinas no Brasil. Logo que ela chegou da Europa, resolveu que deveria fundar um colégio para meninas. Numa viagem que fez a Salvador, nosso bispo, D. Manoel de Paiva, convenceu-a de que a cidade deveria ser Ilhéus.

A madre chegou a esta cidade em 1916, a bordo do vapor Jequitinhonha e, durante sua viagem, teve tempo suficiente para refletir sobre o empreendimento que iria fazer, pois não possuíam nada, nem terreno, nem recursos financeiros.

O colégio iniciou suas atividades à rua Conselheiro Saraiva, atual Antonio Lavigne de Lemos, nas instalações da diocese, contando apenas com 16 alunas. Nessa época, o casal Adelaide e José das Neves César Brasil havia doado um terreno no alto das Quintas, atual alto da Piedade, para que lá fosse construído o prédio do Palácio Episcopal, que teria como destino a moradia do bispo diocesano. O bispo cedeu parte do terreno para que a freira iniciasse seu empreendimento educacional.

O começo da vida do colégio foi muito precário. Faltava água, luz, e a subida era feita por uma ladeira íngreme, que quando chovia ficava intransitável, mesmo a pé. O projeto do prédio é de Salomão da Silveira que, apesar de não ser engenheiro formado, esteve à frente do projeto e, em 16 de julho de 1917, o colégio Nossa Senhora da Piedade transferiu-se para sua sede própria. No ano de 1921, o Colégio foi reconhecido como de utilidade pública, no ano seguinte foi equiparado à Escola Normal do Estado.

Para entender o significado e a importância de uma escola deste porte na época em que ela foi concebida e construída, é preciso entender a própria História da Educação nesta região, em particular, e no Brasil como um todo. Estudar não era obrigatório, mulher não precisava ir à escola, e ainda não tinha direito a voto. A escola e, conseqüentemente, o saber, eram para um pequeno grupo de privilegiados que podiam pagar o deslocamento para centros maiores, e possuía família para bancar o longo período de estada nestes centros. Só os ricos estavam aptos, ou alguns poucos obstinados que, mesmo sendo pobres, conseguiam superar todas as dificuldades e conseguiam concluir o curso superior. O Colégio Nossa Senhora da Piedade significou a possibilidade da chegada do conhecimento às filhas dos fazendeiros que não permitiriam jamais que suas filhas se deslocassem para Salvador ou Rio de Janeiro, como acontecia com os homens; e para as meninas de famílias pobres que queriam ascender na escala social através do conhecimento.

Em 1927, foi iniciada a construção da capela, um belíssimo exemplar da arquitetura neogótica. O construtor Salomão da Silveira fez uma adaptação da planta encomendada, na França, por Madre Thaís, e a obra ficou pronta em 1929. O ponto alto da capela é o seu altar-mor, com a Imagem da Dor, imagem de Nossa Senhora da Piedade, aos pés da cruz, aconchegando ao colo o Cristo morto. A capela possui belos vitrais, que proporcionam uma perfeita iluminação do templo, e retratam as “Sete Dores de Maria”.

Madre Thaís foi uma mulher obstinada em realizar seu sonho de fundar um colégio, a altura de qualquer cidade grande; encontrou em seu caminho, pessoas que a ajudaram bastante para que ela pudesse realizá-lo. A obra pode ser realizada porque contou com a participação da sociedade local, a quem muito agradecia a Madre Thaís. Foi também uma mulher humilde e desprovida de vaidade, que recebeu do governo francês o título de “Officier d’Academie” pelos serviços prestados à educação em Ilhéus. Madre Thaís faleceu no dia 5 de junho de 1955, aos 67 anos de idade.

Obs.: algumas informações foram retiradas do site do Colégio N. Sra. da Piedade

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– O BAIANO DE ILHÉUS –

manoel carlos

Esta semana fomos surpreendidos com a triste notícia da partida de Manoel Carlos, o Baiano de Ilhéus (para seus amigos internautas).

Manoel foi um amigo muito querido, um companheiro que falava a mesma língua da paixão por Ilhéus e o gosto pelo seu patrimônio histórico e cultural. Assim que soube da notícia, pensei que minha matéria de hoje teria que ser sobre ele. E aí me lembrei do dia em que ele ingressou na Academia de Letras e fui convocada a fazer sua saudação. As palavras a seguir foram retiradas desta matéria publicada em 2006.

Existem coisas que acontecem quando somos crianças, que a memória insiste em guardar. Dentre estas, estão minhas vindas a Ilhéus, quando ainda muito pequena, ia visitar os parentes mais velhos, tio Virgilio e tia Duzinha, tio Afrânio, tia Alice, mãe do ilustre confrade. E eu gostava de fazer estas visitas, gostava de rever os parentes mais idosos. É desta época que lembro de Manoel Carlos e seus irmãos, seus filhos que, mesmo tendo um vínculo sanguíneo mais distante, sempre nos tratamos como “primos”.

Não lembro exatamente quando nos aproximamos mais de perto, pois a sensação é de que sempre estivemos por perto já que, temos algo muito forte em comum, que é nosso amor pela história de Ilhéus. Com a aproximação veio a admiração pelo homem que não mediu esforços para lutar e defender a cidade em que nasceu e que amou. O presidente do Instituto Histórico que não se conformou com o fato de que a toponímia da cidade fosse tratada de qualquer maneira e exigiu que este assunto fosse encarado com seriedade. Assim formou uma comissão para pesquisar o nome verdadeiro da Capitania e de sua vila capital. Preocupado com o monumento ao Dois de Julho, data da maior importância para nosso Estado, publicou artigos exigindo do poder público respeito ao único monumento da cidade alusivo à Independência da Bahia.

Foi este homem, apaixonado e valente, lutador pelas causas de sua região, que a Academia de Letras de Ilhéus recebeu naquele dia, como mais um de seus membros, ocupando a cadeira de número 33, ocupada pelo escritor Jorge Medauar.

Manoel Carlos Amorim de Almeida escreveu por mais de sessenta para jornais locais e de Salvador e, em 1995, publicou, pela GRD Editora, o livro Porto de Ilhéus e etc., etc. etc., uma coletânea das crônicas publicadas em jornais. Em um futuro muito próximo vai ser publicado um livro seu pela Editus. Pena que ele não esperou para vê-lo pronto.

Lutou pela manutenção do nome de Ilhéus na denominação do Porto Internacional. “O que não podemos e nem devemos aceitar é que o nome de Ilhéus seja eliminado da denominação de seu porto, que tanto representa para a região e para o país, quando os demais portos nacionais, sem uma exceção sequer, dos grandes aos pequenos, têm os nomes de suas respectivas cidades”.

Ele foi (palavras suas), um intransigente defensor do Estado de Santa Cruz, por entender que a junção das capitanias de Porto Seguro, dos Ilhéus, de Itaparica, com a da Bahia, beneficiou apenas a capital e o Recôncavo. Ele partiu sem perder a esperança de que esta região tivesse o desenvolvimento que merece.

Sobre a cacauicultura, ele se declarava um grande conhecedor da região e da formação de suas cidades, a partir dos aglomerados urbanos surgidos ao lado das roças de cacau. Sobre as ações institucionais que mantêm relação com o cacau, elogiou o que deveria ser elogiado e criticou o que achava que estava errado. Nunca se calou e não pode ser considerado um homem “morno” ou indiferente, pois foi sempre atuante e presente na luta por uma região, onde sempre prevaleceu o egoísmo e o egocentrismo.

Por conhecer tão de perto as questões ligadas à cacauicultura, publicou artigos em que reivindicava a construção de estradas, em um município tão extenso. Lutou pela industrialização do cacau em Ilhéus e pela criação do Distrito Industrial. Suas crônicas nos revelam a história recente da região.

Foi um atuante membro do Instituto Histórico de Ilhéus, acrescentando-lhe o Geográfico; preocupado em participar dos acontecimentos, fundou a Ação Solidária Viver Ilhéus – ASVIL, uma associação sem fins lucrativos, cujo único interesse era o de lutar pelas causas da cidade. Buscou companheiros com o entusiasmo de um menino para concretizar seus planos. Assim foi também, mais recentemente, com a SPPHI (Sociedade de Proteção ao Patrimônio Histórico de Ilhéus).

Manoel Carlos foi um homem de bem que plantou amor aos seus e amizade aos amigos. Pertenceu à agremiação de pessoas de quem se diz “imortais”, não porque deixam de morrer, mas, porque ao chegarem ao fim de suas jornadas, permanecerão para sempre, no que escreveram e no que acreditaram.

Manoel Carlos, descanse em paz, com a certeza do dever cumprido…

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(Série Vultos Históricos)

milton santos

Quem foi Milton Santos?

Será que as gerações mais novas sabem alguma coisa a respeito deste baiano, negro e geógrafo, conhecido em muitas partes do mundo?

Apesar de conhecê-lo pela fama alcançada, foi com surpresa que fiquei sabendo de sua passagem por Ilhéus, quando fiz minha pesquisa sobre o IME. Mas afinal, quem foi Milton Santos? Por que homenageá-lo, qual a sua importância?

Para falar um pouco sobre este brasileiro cidadão no mundo, fui buscar socorro na Internet. Os sites se multiplicam, existe muita informação sobre ele. Mas escolhi aquelas passadas pelo professor Wagner Costa Ribeiro, do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP).

Diz o professor Ribeiro que: “Discutir a obra de um intelectual com as qualidades de Milton Santos exige um esforço coletivo e abrangente. Coletivo dada a diversidade de disciplinas que fazem uso de suas idéias. Abrangente graças aos diversos aspectos que ele abordou durante uma carreira que alcançou mais de 50 anos”.

Milton Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, em 03 de maio de 1926, e ganhou o mundo. Porém, soube manter seus olhos nos arranjos sociais contemporâneos para construir uma teoria original que serve à interpretação do mundo que parte da geografia, do território, envolvendo os habitantes dos lugares. Concluiu o curso de Direito em 1948, mas veio para Ilhéus ministrar aulas de Geografia no ensino médio. Daí seu interesse pela disciplina que o lançou ao mundo das idéias e da reflexão política.

Em 1958 obteve o título de Doutor em Geografia, na Universidade de Strasbourg (França), passando a ensinar na Universidade Católica de Salvador e, depois, na Universidade Federal da Bahia, na década de 1960. Sua habilidade com as palavras e seu texto vigoroso rendeu-lhe a participação em jornais, como A Tarde, em Salvador na década de 1960 e na Folha de São Paulo, em 1990.

Homem de ação política, aceitou o convite para participar de governos no início da década de 1960 que culminou com sua prisão em 1964 por ocasião do golpe de estado implementado pelos militares ao Brasil. Foram 3 meses difíceis. Ao sair da prisão carregava consigo uma decisão: era preciso partir. O geógrafo ganhava o mundo.

O começo de sua carreira internacional forçada ocorreu na França, onde trabalhou em diversas universidades, como as de Toulouse (1964-1967), de Bourdeaux (1967-1968) e de Paris (1968-1971). Durante esses anos realizou estudos sobre a geografia urbana dos países pobres e produziu vários livros como Dix essais sur les villes des pays-sous-dévelopés (1970), Les villes du Tiers Monde (1971) e L’espace partagé (1975, traduzido como O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana, em 1978). Este último marca a expressão de uma de suas idéias originais: a existência de dois circuitos da economia. O primeiro constituído pelas empresas, pelos bancos e firmas de seguros, ao qual chamava de rico. O segundo expressado pela economia informal, por meio do comércio ambulante e dos demais circuitos pobres da economia.

Da França partiu para vários outros países, vivendo de maneira itinerante e como professor convidado. Atuou em centros universitários, da América do Norte (Canadá, University of Toronto – 1972-1973; Estados Unidos, Massachusetts Institute of Technology, Cambridge – 1971-1972 e Columbia University, Nova York – 1976-1977), da América Latina (Peru, Universidad Politécnica de Lima – 1973; Venezuela, Universidad Central de Caracas – 1975-1976) e da África (Tanzânia, University of Dar-es-Salaam – 1974-1976).

Seu retorno ao Brasil decorreu de um acontecimento especial ao geógrafo baiano: a gravidez de sua segunda esposa, Marie Hélene Santos. Milton queria que seu segundo filho, Rafael dos Santos, nascesse baiano, como seu primogênito, o economista Milton Santos Filho, que faleceu poucos anos antes que o pai.

Em 1978 estava de volta à vida universitária brasileira. Mas trazia na bagagem uma obra que marcou sobretudo aos geógrafos marxistas do país:Por uma geografia nova, que foi traduzida para vários idiomas em diversos países. Neste trabalho Milton Santos preconiza uma geografia voltada para as questões sociais.

Em 1983 ingressou no Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. A produção intensa desenvolvida no Departamento de Geografia da USP resultou na indicação para receber o prêmio Vautrin Lud, que é considerado o Prêmio Nobel no âmbito da Geografia. Em 1994 Milton Santos foi o primeiro intelectual de um país pobre e o primeiro que não tinha o inglês como língua pátria agraciado com tal distinção.

Considero que a cidade de São Jorge dos Ilhéus tem uma grande dívida com este professor que viveu em nossa cidade, como professor catedrático de Geografia, no Ginásio de Ilhéus (atual IME), na década de 1940.

Informações obtidas no site http://www.ub.es/geocrit

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(SÉRIE VULTOS HISTÓRICOS)

O jurista, político e escritor João Mangabeira nasceu na cidade do Salvador em 26 de junho de 1880. Aos treze anos de idade ingressou na Faculdade de Direito e, apesar de pertencer a uma família numerosa e de poucos recursos, conseguiu concluir seu curso aos 17 anos.

Uma vez formado decidiu se mudar para Ilhéus, cidade que entrava numa fase de grande desenvolvimento, por conta do crescimento da lavoura cacaueira, no início do século XX. A cidade apresentava, àquela época, um desenvolvimento comparável somente, às zonas de mineração, tal era o número de pessoas que para cá se dirigiam, em busca de um futuro melhor.

Foi esta cidade em franco desenvolvimento, que o jovem João Mangabeira escolheu para iniciar sua vida de bacharel em Direito.

De acordo com relato de Paulo Brossard, tudo começou quando a sessão do júri teve início, e entrou em julgamento um réu pobre e sem advogado; o juiz nomeou Dr. Mangabeira como defensor do mesmo. O advogado não sabia nada do processo, mas enquanto ouvia o relatório do magistrado, foi guardando todos os dados: nomes, páginas e outros pormenores. “E, mal o promotor conclui a acusação, o jovem advogado de defesa, minutos antes designado, estraçalha a acusação, apontando-lhe contradições, corrigindo nomes, indicando páginas do processo que ele não chegara a manusear. O réu foi absolvido e o advogado passou a ter sucesso”.

No ano de 1907, João Mangabeira concorreu com o Coronel Pessoa à Intendência Municipal da cidade, tornando-se vitorioso. Tomou posse do cargo em 1° de janeiro de 1908 e governou até 1911. Desde que chegou a esta cidade foi correligionário do Coronel Adami de Sá.

Um fato interessante ocorrido com João Mangabeira durante o seu mandato, foi a realização do calçamento da rua Antonio Lavigne de Lemos. As pedras são especiais, diferentes e correm muitas lendas sobre a sua origem. Quando escrevia meu livro Passeio Histórico, tive a oportunidade de entrevistar Raimundo Sá Barreto, que me contou o seguinte: um navio que vinha da Europa com destino ao Rio de Janeiro, encalhou na entrada da barra; as pedras inglesas, que serviam de lastro para o navio e seriam utilizadas como calçamento no mercado de São Sebastião, no Rio, foram retiradas do mesmo e compradas pelo intendente da época, João Mangabeira. Foi ele quem contou este fato a Sá Barreto.

Tendo sido eleito Deputado Estadual, de 1910 a 1912, o governo municipal foi exercido pelo médico Artur Lavigne. Em seguida elegeu-se Deputado Federal. Em pouco tempo tornou-se uma das figuras de maior destaque na Câmara dos Deputados. Bastante conceituado como parlamentar e jurista, passou a figurar entre as altas inteligências do país. Quando teve início a campanha civilista, aproximou-se de Rui Barbosa, a quem haveria de seguir sempre. Quando Rui morreu, em 1923, foi ele quem proferiu o discurso em homenagem ao mestre.

Posteriormente, foi também Senador, Ministro das Minas e Energia e da Justiça.
Sua atuação política foi marcada pela defesa do socialismo. Foi deputado constituinte em 1934 e lutou contra a ditadura do Estado Novo, de Getulio Vargas. Por conta disto ficou preso durante 15 meses, tendo afirmado, em 1936: “prefiro ficar preso por essa ditadura, a ficar livre, pactuando com ela”.

Com o final do Estado Novo, integrou a Esquerda Democrática (ED), grupo que atuava dentro da UDN (União Democrática Nacional). A ED se tornou partido político e passou a se chamar Partido Socialista Brasileiro (PSB), do qual se tornou presidente. Em 1947 foi eleito deputado federal pela Bahia. Foi ainda candidato à Presidente da República, concorrendo com Getulio Vargas, sabendo que não se elegeria, apenas para honrar o partido e não decepcionar seus companheiros.

Era irmão do médico e poeta Francisco Mangabeira e do político Otávio Mangabeira. João Mangabeira faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 27 de abril de 1964.

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(Série Vultos Históricos)

level

Recebo inúmeras mensagens sobre as matérias que tenho escrito para a capa do Cultura e Lazer. Estas mensagens me estimulam a buscar novos temas. As mensagens chegam de pessoas que são de Ilhéus ou moraram aqui e continuam querendo saber notícias desta terra.

Consultando o livro de Silva Campos, em busca de figuras ilustres, encontrei o de Napoleão Level, que escolhi para escrever a matéria desta semana. Ele, como tantos outros, viveu aqui, foi uma figura importante e levou o nome da cidade para terras distantes; hoje, encontra-se no esquecimento porque não temos uma memória que honre os filhos que já partiram desta vida.

Napoleão João Batista Level nasceu na então vila de São Jorge, no dia 20 de novembro de 1828, filho de pais franceses. Foi dos maiores, ou talvez mesmo, o maior dos construtores navais do Brasil Imperial. Sua competência caracterizou, com acentuado relevo, uma brilhante etapa da história da então florescente indústria de fabricação de navios, quer de guerra, quer de comércio. É possível atestar isso pelas dezenas de projetos de sua exclusiva autoria, e que, sob sua direção, foram executados tanto para a nossa frota mercante, como para a armada imperial.

“Dentre estes contaram-se naves couraçadas de plano original, cuja eficiência nas águas de Paraguai contribuíram poderosamente para a nossa vitória sobre as armas aguerridas do ditador Lopez” (Silva Campos, p. 348).

Level começou a trabalhar como aprendiz, no Arsenal da Bahia, aos 14 anos de idade, recebendo um salário diário de 100 réis. Possuindo certo conhecimento, partiu para a Europa, ingressando em importantes cursos técnicos da França e da Inglaterra habilitando-se em engenharia naval. Voltando ao Brasil, foi-lhe dada a chefia das construções navais do Arsenal de Marinha da Corte e, em 14 de maio de 1858, foi colocado no mar um navio de guerra fabricado sob a sua direção: o patacho Iguassu.

Como Level obteve aquela nomeação é interessante contar. Mandara o Ministério da Marinha contratar na Inglaterra um engenheiro naval para exercer o cargo apontado. Então estranharam naquele país semelhante pedido, sendo dito ao emissário do governo brasileiro que quem dispunha de profissionais do calibre dum Napoleão Level não tinha necessidade de procurá-los no exterior (Silva Campos).

Level construiu 69 embarcações no Rio de Janeiro, tanto em estaleiros particulares, como no arsenal de marinha. Estas foram quase cinquenta, das quais sete monitores – Rio Grande do Sul, Alagoas, Ceará, Pará, Santa Catarina, Piauí e Pernambuco; três couraçados – Bahia, Rio de Janeiro e Sete de Setembro, as corvetas Niterói (primeiro navio de propulsão a hélice construído no Brasil) e Vital de Oliveira, além de rebocadores, lanchas e outros tipos de pequenas embarcações. Seis daqueles monitores e dois couraçados foram fabricados de 1866 a 1868, e incorporados à esquadra em operações na Guerra do Paraguai. Dos navios que fez para a marinha de comércio deve ser citado o vapor Marquez de Olinda, aprisionado em 1865 no porto de Assunción, ato de pirataria que marcou o início da guerra. Mandou-o depois o governo fiscalizar na Europa a construção das seguintes belonaves ali encomendadas: couraçados Aquidaban e Riachuelo, considerado este, então, o mais poderoso vaso de guerra do mundo. Monitores Javari e Solimões, e transportes Madeiras e Purús. Todos enquadrados dentro dos seus planos e riscos.

Deve-se ainda ao engenheiro Level uma importante e desinteressada contribuição para a materialização do invento de um novo formato de carena de navios, de autoria do seu colega e auxiliar, engenheiroTrajano Augusto de Carvalho; foi Level quem insistiu para que a nova carena fosse adotada em navios construídos no Arsenal da Corte, e que o engenheiro Trajano fosse à Europa patentear a sua invenção.

Level, que foi comendador da Imperial Ordem da Rosa, cavalheiro da Legião de Honra e do Leão Neerlandez, comendador da Coroa de Ferro, da Itália e da Ordem de Carlos III, de Espanha, faleceu em Paris, no ano de 1915, para onde se mudou no final de sua vida.

(Na internet encontramos mais de duas mil páginas em português sobre Napoleão João Baptista Level)

Corveta Imperial Marinheiro

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